Capítulo 20

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21 de outubro de 2015 / noite

       Lídia estava por fora de vários acontecimentos, como a descoberta de Otávio e o encontro de Maria e Florence. Jogada em sua cama, com o pé para fora balançando sem ritmo definido, ela controlava a respiração, tentando mantê-la em um ritmo normal, enquanto seus olhos ardiam e a culpa — a que ela acreditava ter — pesava sobre seu corpo e a fazia se sentir cansada.

Ela convivia com aquele sentimento há 15 anos e pensara que aquela pesquisa ajudaria a se livrar dele. Como estava enganada. 

Ficar na sala com os outros era uma tormenta. Sua amada Florence estava soltando pedaços, um por dia, como se a garota fosse uma boneca de porcelana quebrada, se desmontando com o passar do tempo. Logo não sobraria mais nenhum caco, logo era seria um sopro do que um dia já foi. 

Alice já não mais desenhava, gastava tempo em azucrinar Isabel, a provocando a respeito de Lucas. Mas  ela também estava no mesmo estado, de uma forma mais leve. Andava mais distante do que antes e parecia aceitar sua condição, assim como o irmão, cuja única distração era Florence.

    — Me desculpe, Teresa! — disse baixinho, para ninguém em especial, o esforço para falar lhe arrancara uma lágrima, que desceu sem pressa até a cama. — Passei os últimos sete anos estudando essas crianças, tentando descobrir a melhor forma de tratar um trauma, mas creio que falhei. Com você, Florence, Osório. Só machuquei vocês.

Sentou e deslizou da cama para o chão. Não havia janelas em seu quarto. Não havia nenhuma janela naquela construção. Era um espécime de armazém abandonado, escondido no coração de Beldam e oculto pela vegetação que o consumia. Aos olhos de todos e ao mesmo tempo escondido.

Tateou a mão por debaixo da cama até encontrar o que queria, a foto de Teresa e seu marido, Fábio. Eles eram um casal tão lindo, a doutora pensou com pesar, acariciando a imagem, sem conseguir encarar o rosto da falecida amiga, sem coragem para tal ato. A mão voltou para o lugar empoeirado que era o espaço embaixo da cama e voltou instantes depois, com uma garrafinha que outrora possuía água mineral, substituida por uísque barato.

Lídia deu o primeiro gole, que desceu queimando sua garganta, a fazendo respirar mais fundo. O segundo  também foi incômodo e fez suas tripas se contorcerem. O terceiro foi bem-vindo. 

Ela mal podia esperar para aqueles malditos 10 anos acabarem logo. Só faltam três. O que aconteceria? As crianças continuaram firmes ou…

A porta se abriu de uma vez, fazendo a doutora se assustar. Osório entrou e fez uma careta de reprovação para o que via.

   — Já está bebendo? 

Se fosse uma outra época, quando Lídia ainda possuía esperanças, ela responderia com arrogância ou faria uma piadinha. Naquele momento em questão, deu apenas mais um longo gole de sua bebida.

   — Algo aconteceu? — E com algo ela quis dizer: alguém morreu? O governo nos encontrou? A casa caiu?

    — Vim te alertar uma coisa: não temos muito tempo! — O cenho da doutora se franziu.

    — Como assim?

    — Otávio achou uma escuta no quarto dele e contou à Florence. Eles estão desconfiados e não vai demorar até descobrirem a verdade — contou, seu demonstrar que havia responsabilidade naquilo. Fora ele quem ajudara Otávio a achar a escuta. Lídia virou a garrafa de uma vez e bebeu todo o seu conteúdo. Estar bêbada era mais aconselhável em situações assim.

Osório já estava farto de toda aquela situação e temia acordar um dia e descobrir que um dos sete havia tomado uma medida drástica. Sua mente já havia pensado em diversas hipóteses e a pior delas era o suicídio. Não aguentava mais estar por trás do sofrimento de inocentes. Então, aproveitando estar sozinho, aumentou ao máximo o volume da escuta do quarto de Otávio, o que produziu um ruído alto e agudo, o suficiente para o garoto encontrar e concluir que sim, ele estava certo, havia algo errado na história do hotel.

Um arrepio de preocupação atingiu Lídia, mas ela não iria reagir. Dane-se, dane-se a pesquisa, vamos libertar as crianças.

    — Certo — disse, em tom baixo, a bebida começando a fazer efeito. — Ligue para Tomás, peça para ele adiar a Operação Ponto Final.

Essa operação deveria ser iniciada apenas após os dez anos de pesquisa. Consistia em Tomás Warrior ir até a polícia brasileira e contar toda a verdade, mostrando a carta, uma confissão de Lídia que deixava bem claro que Tomás havia sido uma vítima e agira sobre extorsão. Demoraria menos de 48 horas para a polícia chegar à cidade e devolver as crianças a suas famílias, contando toda a verdade.

   — Tem certeza? — indagou Osório, surpreso e desconfiado.

   — Tenho — confirmou. — O projeto 1041 acabou.

  — E as crianças? 

  — Vão ficar bem, com o tempo. Nada que uma terapia e acompanhamento  psicológico não resolva — respondeu ríspida e fria, sem emoção na voz, sem empatia. — Além disso, estarão com suas famílias.

   — E você? — Osório chegou mais perto, se abaixou e segurou sua mão, preocupado. 

Desde o dia em que planejaram tudo aquilo, Lídia decidiu que seria melhor a responsabilidade de tudo ser apenas dela. Tudo tinha seu nome. As ameaças a Warrior, os equipamentos importados ilegalmente, a compra da casa na cidade e a matrícula das crianças na escola, até mesmo a ligação ao hotel avisando da "bomba" havia sido feita de seu número. Era melhor assim, ela disse para convencer os demais, deixando implícito que apenas o nome dela deveria ser sujo.

Essa pesquisa significaria o fim de sua carreira como neurocientista. Mas não o fim para seus colegas.

     — Lidia! — Osório chamou com doçura, encarando os belos olhos da amiga.

   — Vou ficar bem — tranquilizou, colocando a mão em concha na bochecha dele. Depois, se afastou repentinamente e voltou à cama, virando o rosto para a parede. — Agora me deixe dormir.

Osório quis insistir e fazê-la prometer que ficaria bem, mas sabia que só receberia um juramento raso, propício a ser quebrado. Seus ombros caíram em derrota e ele se virou para ir embora, quando Lídia disse baixinho:

   — Haja o que houver, cuide de minhas crianças. Elas são especiais para mim. Cada uma. — Ele não pôde ver o sorriso dela, enquanto a imagem dos sete passava por sua mente.













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Preciso avisar algo: os próximos capítulos contém gatilhos e alguns temas pesados, como tentativa de suicídio.

Se você se sentir desconfortável abandone a leitura.

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