Cap. 5 peixes fora d'água

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Exatamente como imaginou, Tot se atrasou num embaralhado de dúvidas e emoções, os dois sufocaram qualquer habilidade que o levou a ser escolhido como Tot, autoridade máxima de uma região, atrás apenas da Mãe.

Matias queria evitar qualquer confronto, pois isso chamava muita atenção. Andar em florestas desconhecidas não era seu forte. Por vezes se desviou do caminho e quase se deparou com batedores de vilas, monitorando a área ao redor. Noemi muito menos era alguém que se podia dizer muito orientada. Matias tinha minimamente uma noção de direção e para ser sincero, apesar de ter atravessado todo aquele mato, não lembrava de muita coisa, para ele era tudo verde. Houve vezes, não poucas, em que parecia ser quase noite, apesar de estar ainda pela tarde, que teve que subir em uma árvore para poder saber para onde ficava o Nordeste.

Passaram-se sete dias até que eles se encontrassem perto da fronteira. Noemi parou dizendo que faria uma poção de energia. Matias esperou que ela voltasse com os ingredientes, jogaram dentro do frasco de barro e sacudiram invocando a mana do corpo até que água se misturou com os ingredientes adquirindo uma tonalidade violeta. Eles tomaram e se sentiram revigorados. Dava de sobreviver só com poções, mas não era muito bom pra mana do corpo, já que pra fazer a poção teria que usar a própria mana para misturar. Além do sabor que sem o tempo necessário para conseguir temperos, tinha gosto de chá meio amargo.

Do alto de uma árvore Matias e Noemi observavam a movimentação da fronteira com madeira reforçada e guardas patrulhando sem cessar, mas a essa altura, quando a noite caiu, havia bem poucos. De modo que em intervalos de dez minutos ele teriam tempo para tentar escalar o muro e chegar do outro lado. 

— O que faremos ?

— Está vendo que o fluxo de guardas diminuiu ?

— Não sou idiota. 

— Pois bem, pode ser uma armadilha, em grandes números, lobos e outras criaturas não costumam atacar porque ficam acanhados. Esses guardas andam bem preparados e em grupos de dois, se lobos aparecerem, o de baixo é puxado pelo de cima. 

— Eu sei disso.

— Agora me responda, se querem tanto a gente, porque deixar um brecha? Poderiam colocar um exercito aqui e todos estariam seguros. Desconfio que do outro lado um exército espera, mesmo que seja território inimigo, Tot pode ter feito um pedido especial.

— Acho que não.— Disse Noemi, com uma tristeza na voz depois de ouvir sobre o Pai. 

— Não podemos arriscar. 

— Me trouxe até aqui para me ensinar a desistir ? 

— Não, já te contei sobre como cheguei até aqui? 

— Por um pedido do seu Pai ? 

— Também. Mas eu mesmo entreguei a carta em mãos ao tio Marcos, e por via das dúvidas, atravessei o continente de canoa. 

— Um madeireiro lhe emprestou? 

— Meu tio fez pra mim, lá eles usam bastante. 

Matias sentiu certo orgulho quando viu a expressão embasbacada de Noemi. Desde que chegou nas região das flores, escutou apenas coisas ruins sobre sua terra, lá mulheres eram putas e homens cafetões. Não havia dignidade neles, nenhum trabalhador que aguentasse qualquer dia de labuta ou tivesse interesse pelo conhecimento. Não era assim, ele garantia, havia realmente homens ruins, mas em toda terra tinha, havia putas, e mulheres que se esforçavam todos os dias para garantir junto ao marido a sobrevivência da família. E ele um dia provaria que foram injustiçados, jogados em uma terra seca e selvagem sem nenhum livro para ao qual pudessem pedir ajuda. Dentre os burros, nasceram filhos espertos, e entre os egoístas e injustos nasceu o direito, pois o próprio se provou necessário para que a vida continuasse, até o mais idiota percebia que precisavam um do outro, mesmo que fosse para o próprio benefício. 

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