CUIDADO ESSE CAPÍTULO PODE CONTER GATILHOS
Minha primeira parada ao chegar foi o banheiro feminino, podia ser um espaço público, mas naquela hora todos ainda estariam almoçando, o que me fez evitar todas as escadas que levassem para a sala de jantar, algo um pouco complicado pelo fato de elas mudarem o tempo todo, ou se dirigindo ao gramado, até mesmo dirigindo a suas aulas e não podia ir para meu quarto, seriam perguntas demais.
Passei correndo o mais rápido possível por todos, sem permitir que vissem minha expressão por tempo suficiente, entrei no banheiro, que graças a Merlin estava vazio, e me tranquei na terceira cabine me apoiando em uma das paredes que formavam o cubículo, onde finalmente me permiti chorar. Chorei procurando apenas deixar as lágrimas descerem, não podia me dar ao luxo de emitir qualquer tipo de som que indicasse minha presença ali.
Senti todas as dores de uma só vez, como uma enxurrada, tudo que eu guardara nos últimos tempos, muito nova ainda percebi que não podia mais lamentar por meu irmão depois de uns meses, seria encarada como alguém que só quer chamar atenção, e sabia que aquilo magoava meus pais imensamente, então comecei a esconder tudo atrás de um sorriso, uma máscara que guardava minhas dores e meus sentimentos ruins, uma máscara que só caía no calar da noite quando todos já dormiam, ou por exceção, agora.
Segurar o choro até sentir as batidas do coração fazer o cérebro latejar, chorar em silêncio, gritar sem voz, limpar as lágrimas, por um sorriso no rosto e sair, essas eram coisas que não pensei que faria novamente. Mas lá estava eu, trancafiada em um dos banheiros do castelo, o ciclo se repetia.
Não sei por quanto tempo fiquei ali, não sei o quanto chorei, só sei que quanto mais chorava mais a dor vinha, mais as lembranças vinham. Como eu podia ter causado tudo aquilo, eu sozinha causei um tumulo, duas brigas e deixei diversas pessoas preocupadas, sabia que não havia gritado com Will por raiva, não somente por isso, descontei parte da minha dor nele, dor pela qual ele não era responsável, não dessa vez. Sentia culpa, remorso, tristeza, raiva e principalmente vergonha, vergonha de mim e do que eu havia causado. Mas naquele momento no céu, aquele sorriso, aquela manobra, aquela situação, tudo me lembrou Noah, e foi demais para eu aguentar.
Como eu podia ser tão estúpida? Como eu podia ser tão vulnerável? Tão frágil? Não, aquela não era eu, eu não devia precisar de resgate, eu era forte, a maior parte do tempo pelo menos, mas queria ser forte ali, queria reconstruir minha história, fazer novos amigos e não cometer os mesmos erros que afastaram todos de mim, e eu havia falhado completamente.
As lágrimas desceram com mais força, escorreguei pela parede que estava apoiada até quase sentar no chão, os braços cruzados em cima do peito apenas sentindo aquela dor avassaladora, o tipo de dor que te faz desejar sumir, apenas para que ela vá junto, o tipo de dor que te carrega até as profundezas de um abismo, o tipo de dor que fala com você como se lhe dissesse que você não é suficiente, que não há lugar para você ali, naquele mundo, o tipo de dor que já sentira diversas vezes, o tipo de dor que deixava cicatrizes internas, e no meu caso externas...
Levantei a blusa e abaixei um pouco a saia, ali, um pouco abaixo do meu quadril, um lugar onde nem minhas roupas de banho deixavam a mostra estavam minhas cicatrizes externas, as quais eu mesma tinha feito, lembretes eternos de que era para meu irmão estar nesse mundo e não eu, que era para ele estar vivo e não eu, que ele sempre foi mais forte que eu.
Ainda chorava presa em minhas lembranças quando ouvi alguém abrir a porta, procurei diminuir o barulho do meu choro o máximo possível, não sabia quem era, mas não precisava que ninguém me perguntasse se estava bem, ou que espalhassem fofocas pela escola.
Ouvi os passos se aproximarem, mas não havia nenhuma voz, parei de chorar e me levantei, não sabia quem era, mas temia que tentasse entrar na minha cabine e minha voz vacilasse, fazendo a pessoa perceber que havia algo errado.
Os passos passaram por minha cabine, e só pude ouvir o barulho de portas abrindo, última porta, penúltima porta, sexta, porta, aquela pessoa definitivamente não queria ir ao banheiro, ela procurava algo, quinta porta, quarta porta... e finalmente a porta onde eu me localizava. Quando estava prestes a dizer que estava ocupado, uma voz conhecida me interrompeu.
- Amy? Vamos Amy saia, eu sei que você está aí, Luna já olhou o quarto de vocês e ainda temos alguns minutos antes da próxima aula. – Gina...
Resolvi ficar calada, mas fora um erro, só fez com que ela insistisse mais para que eu saísse.
- Vamos Amy, por favor, precisamos conversar. – abri a boca, mas as palavras não saíram, sabia o que devia falar "estou bem" ou "já vou, só preciso ajeitar minhas roupas", porém, em seu lugar vieram as lágrimas, fortes, cheias de sentimento, vergonha, aflição, dor...
Subi minha saia que continuava baixa e coloquei minha blusa por dentro dela, eu tinha que sair, era minha única escolha, e esse segredo eu pretendia deixar guardado, levar ele comigo até o túmulo.
Inspirei fundo, limpei minhas lágrimas, o que não ajudou, já que elas continuavam descendo, abri a tranca e saí de cabeça baixa.
- Finalmente você saiu, fiquei preocupada com você quando reparei que tinha sumido, o Draco e o Harry já ouviram um monte da Hermione, mas acho que não foi sufi... – ela parou, finalmente notando minha cabeça abaixada – O que...
- Gina. – interrompi não permitindo que ela continuasse, levantei a cabeça e olhei dentro de seus olhos, sua expressão quando viu como eu estava foi de assombro, tinha certeza de que devia estar horrorosa, os cabelos bagunçados, os olhos inchados e o rosto vermelho manchado pelas lágrimas.
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Houve momentos na minha vida em que só precisava de um abraço, um abraço dele, do meu irmão, e aquele era um daqueles momentos, e ele não estava lá, mas tinha alguém que estava, podia não ser ele, mas era tudo que eu precisava naquele momento, alguém que apenas me permitisse chorar e expressar tudo que eu estava sentindo, meus sentimentos guardados que não haviam saído ainda, ela havia me proporcionado isso, ela estava lá para mim.
Não sei por quanto tempo ficamos ali, abraçadas, eu com meu rosto apoiado em seu ombro, molhando o uniforme com minhas lágrimas, lágrimas de uma dor ainda não curada. Aquele foi um dia que eu chorei até despejar tudo que senti por tanto tempo, não sei quanto tempo chorei, mas pareceram horas, horas trancada sozinha no banheiro, e horas ali com ela. Quando as lágrimas cessaram finalmente consegui falar.
- Obrigada Gina, eu precisava disso. – agradeci quando me afastei olhando-a, era bom ter ela com amiga.
- Não tem de que, pode contar comigo sempre que precisar. – ambas sorrimos, e saímos do banheiro, e lá tive uma surpresa...
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A POTTER PERDIDA
FantasyTodos conhecem a história de Harry Potter e como ele perdeu seus pais, mas não sabem que havia mais alguém naquela noite, uma garotinha de apenas alguns meses, que, por sorte ou azar do destino, não estava lá naquela noite, e que fora separada da su...
