Cheguei às 5h na cidade, entrei pelo portão dos moradores, num táxi, dane-se o meu carro, ele estragaria tudo.
Entrei em casa silenciosamente e subi os degraus até o meu quarto, me assegurei que o Sr. Montenegro estivesse dormindo em seu quarto, e então coloquei meu vestido rosa neon, o mesmo que usei na primeira vez, como eu o chamei mesmo? Um carro alegórico.
Aquele dia mudou tudo.
Você havia chegado há pouco tempo, com aqueles olhos, me invadindo e me descobrindo. Me lembro de como fiquei feliz por alguém real ter se interessado por mim, ter decidido dedicar tempo a me ouvir, alguém que me compreendia como ninguém jamais compreendeu antes.
Eu usava esse vestido, estava no camarim fumando, antes do desfile em Brasília, eram 20:27. Tudo parece uma névoa antes desse dia, dessa hora… como se eu não existisse sem você, como se a minha existência fosse voltada à aqueles seus olhos curiosos de leitor que examina um livro.
Mas pouco a pouco minha consciência voltava, as coisas de antes (pelo menos algumas delas) vinham à minha memória, pequenos detalhes voltavam para a minha mente.
Você me fez existir, me fez acordar, fez finalmente minha consciência despertar.
Eu só existo por você e pra você, consegue entender?
E eu não posso mais mentir, eu confesso a ti os meus sentimentos, leitor, é impossível de se negar por mais tempo que eu o amo, o amo como jamais amei outro alguém, e esse amor, tão improvável, tão impossível, me corrói e me machuca.
Me corrói não poder te tocar, me corrói não poder lhe abraçar, sentir o sabor dos seus lábios. Me mata por dentro, eu não aguento isso.
É provável que não compartilhe dos mesmos sentimentos que eu, ou até ame a outro de sua realidade, e eu entendo, de verdade.
Eu nunca fui tão feliz com alguém como fui com você nesses últimos dias, espero que a chácara tenha sido uma boa despedida para nós, planejei em cima da hora, queria passar meus últimos dias ao seu lado. Eu venho dando o meu melhor, por você. Não queria que me visse só como uma drogada, eu juro que tentei.
Meu coração não pode suportar um amor tão grande e não correspondido por você, toda vez que eu penso em você, me sinto arder em chamas, o amor e a família que eu sempre quis, agora eu o queria contigo. É simplesmente impossível, é loucura minha.
Maldito seja o autor que te colocou assim tão longe de mim, eu fugiria com você pra qualquer lugar. O mesmo livro que nos une é o muro impenetrável que nos separa, como uma maldição.
Eu fiz algo ruim, leitor, eu não sei se será capaz de me perdoar por isso, eu menti pra você, te ocultei coisas, eu retribui a sua atenção com mentiras, eu sei que não há perdão para alguém como eu.
Eu matei ela, eu não aguentava mais, o controle dela me sufocava, todo aquele narcisismo, eu não achava outra solução, eu só queria… só ser livre, uma vez só...
Eu queria apenas alguém que me entendesse, e agora que você me entendia, não queria que me visse como uma assassina, que me virasse as costas como os outros me viraram. Meus amigos... meu pai... eu não queria acabar ignorada por você como eles me ignoravam, como eles me desprezavam.
Se você soubesse o quão perdida eu estava, o quão doloroso era viver naquela família quebrada e fodida… eu te disse, eu só desejava algo de verdade.
Desde criança enfiada naquelas passarelas pra viver o que ela queria pra mim, só o que ela queria, ninguém nunca me perguntou que merda eu queria, se eu tava feliz, ninguém nunca ligou! Tudo que importava pra ela, era que eu fosse a garota perfeita.
Controlando meu dinheiro, me tratando que nem merda e fingindo ser uma boa mãe, uma boa mulher na frente de todos, mas quando todos estavam longe, ela me pressionava, exigia a perfeição na frente das câmeras, me falava coisas horríveis que eu nem consigo esquecer.
Haviam duas Antonellas, a boa mãe de família, gentil, carismática, bondosa e caridosa, mas nos bastidores, quando as câmeras eram desligadas e todos iam embora, as coisas mudavam e nada era como antes.
Eu não suportava ver ela conseguindo tudo que queria, dormindo com colegas de trabalho dentro da nossa própria casa, trazendo eles para sua cama, não suportava ver meu pai me dando as costas, todos amando e aclamando aquela mulher, aquele ser humano podre que dava restos às empregadas e desviava dinheiro de diversas instituições para comprar novos sapatos ou bolsas.
Eu matei ela, mas isso não muda nada, eu sou uma assassina, sou assassina duas vezes por que agora a casa está em chamas por minha causa… não se preocupe com a Janete, eu a mandei embora, sem mais mentiras, okay?
Agora você vê? Há muita escuridão em mim para que alguém possa me amar, nunca fui boa o suficiente, nem para mim, nem para eles, nem para você.
Eu não sou melhor que Antonella, sou suja como ela, uma maldição como ela, o sangue maldito dela corre em minhas veias e agora eu vou acabar de vez com essa família, essa casa, vai ser consumida pelas chamas até que não reste mais nada de nós.
Podre como era minha genitora, não mereço outra morte, se não a mesma que ela tivera.
Não me abandone agora, não me tire da sua biblioteca, por favor, não esqueça de mim, eu dei o meu melhor, mas agora é tarde demais.
Injetei o resto do líquido que a matara em minha veia, o guardei comigo como uma válvula de escape, eu sabia que minhas mentiras não durariam pra sempre, mas aquilo valia a pena, pelo menos para poder viver enquanto elas se sustentassem, eu nunca vivi, sempre fui a marionete controlada por aquelas mãos.
Já consigo ouvi-la me chamando, direto do inferno. Acho que essa é a nossa despedida, considere este o meu último ato.
Eu amo você, pra sempre, meu leitor.
VOCÊ ESTÁ LENDO
O Último Ato
Misterio / SuspensoAnelise Montenegro, uma jovem modelo do sul brasileiro, nasceu com a sorte de uma família rica, é claro que toda família tem seus defeitos, mas a sua sempre fora por todos considerada como bem estruturada. Ou pelo menos era isso que ela pensava, ant...
