Estava no meu quarto, com a janela meio aberta e o vento frio da tarde entrando aos poucos. Eu dobrava minhas roupas com cuidado, separando as camisas das calças e shorts, uma a uma, colocando na mala. Minha mente estava estranhamente quieta… ou talvez fosse o cansaço de tanto pensar. O zíper da bolsa ecoou no quarto silencioso. Sim, dessa vez eu ia embora. De novo. E, mesmo que meu tio pedisse pra eu voltar ao Japão, eu não pretendia voltar tão cedo.
— Hana?! Eu pensei… — a voz do Himura me tirou da cabeça.
Ergui o olhar e o vi se aproximar, com aquela expressão preocupada que ele sempre tentava esconder.
— Eu também pensei que não iria agora — falei, pegando o meu tênis. — Queria terminar a competição com vocês, mas...
— Hana, você não pode ir agora… justo agora. Você tem que se acertar com o Hinata — disse Asumi, entrando no quarto apressada.
Suspirei fundo. O nome dele ainda doía como um soco no estômago. Mas não era algo que eu queria falar. Não mais.
— Asumi, sei que você gostava de ver nós dois juntos, mas... infelizmente, não deu. Ele terminou porque eu tava “atrapalhando” ele, deixando ele desconcentrado. Ele quer focar só na carreira no vôlei, e eu... eu não quero forçar ninguém a ficar do meu lado. — abaixei o olhar, sentindo aquele aperto no peito voltar.
— E ele foi um idiota com você, te tratou mal e ainda machucou sua cabeça — completou Himura, sentando na beirada da cama.
Tentei sorrir, mas foi fraco. A verdade é que eles estavam certos. O Hinata tinha feito escolhas. E agora, era a minha vez.
— Eu vou sentir muito a sua falta — Asumi murmurou, desviando o olhar, com os ombros tensos e as mãos escondidas atrás do corpo.
Foi aí que me lembrei. Virei rapidamente e abri meu guarda-roupa. Tinha algo ali que guardei por impulso, mas naquele momento senti que era o certo. Peguei o retrato, uma foto nossa — minha e da Asumi — de quando ganhamos um torneio no ensino médio. Nós duas com sorrisos bobos, suor no rosto e troféu nas mãos.
— O que é isso? — ela perguntou, apontando curiosa.
— É algo que você não pode comprar — respondi, entregando a ela.
Ela virou o quadro, olhou... e sorriu. Mas logo vi seus olhos se enchendo, e, antes que a lágrima caísse, ela virou o rosto e fingiu coçar o nariz.
— Asumi-chan, tá chorando?
— N-não! É só... poeira! — ela rebateu rápido. — Você nunca limpa esse quarto, né? Quando você voltar, prometo que vou contratar uma faxineira pra cuidar disso aqui. Vai estar limpinho.
Sorri. E foi ali que senti: não importa onde eu estivesse no mundo, aquela menina seria sempre minha melhor amiga.
— Mas Hana, por que você falou “algo que o dinheiro não compra”? — Himura perguntou, confuso.
Olhei pra ele, com um sorriso pequeno no canto dos lábios.
— Porque memória... não se compra.
Foi aí que meu tio apareceu na porta.
— Hana, o velho tá lá na sala impaciente… ele quer saber se você já tá pronta.
— Já tô — respondi, pegando minha mala e colocando no chão.
— Espera! — Asumi se virou de repente. — Eu vou pedir uma coisa pro seu avô.
Ela saiu correndo, e eu e Himura ficamos trocando olhares confusos.
— O que será que ela vai aprontar? — ele disse franzindo o cenho.
Na sala, ouvi a voz da Asumi implorando.
— Velho… digo, vôzinho da Hana… ela pode dar uma saidinha antes de ir?
— Saidinha?! Não temos tempo! — respondeu ele.
Mas então eu fui até lá, me ajoelhei perto dele, segurei suas mãos e olhei nos olhos dele como fazia quando era criança.
— Vô, por favor... deixa eu me despedir dos meus amigos. Eu prometo que não vou demorar. Mesmo que chegue de madrugada no Brasil... é só uma despedida. Um ano é muito tempo...
Ele desviou os olhos, murmurou um “que seja”, e voltou a ver TV. Mas eu vi. No fundo, mesmo com toda aquela dureza, ele só estava tentando me proteger.
Entramos no carro da Asumi e eu não fazia ideia de onde estavam me levando. Mas segui. Pelo menos por mais uma vez.
— Bom, chegamos! — Asumi disse com um sorriso animado.
Olhei pela janela e vi as luzes brilhantes e coloridas. Um parque de diversões.
— Uau… eu nunca vim num parque de diversões antes — Himura falou com os olhos arregalados.
E então, de repente, vi todos eles. Meus amigos. O time inteiro. Esperando ali, sorrindo.
— Meninos… o que vocês estão fazendo aqui?
— Viemos nos divertir com você. Pela última vez — disse Daichi.
Fiquei sem palavras… até ver uma garota correndo até mim.
— Rute?! Você voltou?
— Sim! Hoje de manhã. E... eu soube do que aconteceu entre você e o Hinata. Sinto muito.
— Tá tudo bem — respondi. Mas não tava. Só não queria chorar ali.
Percebi que todos estavam ali por mim. Por mais que meu coração ainda estivesse partido, por mais que eu quisesse fugir... naquele momento, eu estava cercada de amor. E isso era o que mais importava.
As horas passaram voando. Tiramos fotos, gritamos na montanha-russa, rimos até doer o estômago no carrinho bate-bate. O Himura vomitou depois do brinquedo e a Asumi quis bater no Atsumu por andar grudado em mim o tempo inteiro.
E quando já era noite, e fomos comer alguma coisa, o Atsumu colocou a mão no meu ombro e falou baixo:
— Sabia que você tá linda hoje? Como sempre.
Ia responder alguma coisa, mas Himura apareceu, me puxou pra um canto, e sussurrou:
— Ele não merece você… mas preciso te contar uma coisa importante.
Foi aí que tudo desmoronou de novo. Tanaka se aproximou, gritando que Himura tinha batido no Hinata. Fiquei em choque. Como assim?
— Por quê?! — perguntei, sem entender.
— Porque ele machucou você. E eu não ia deixar barato — Himura respondeu com firmeza. — Você não é descartável.
Meu peito se apertou. Parte de mim queria ficar brava com ele. A outra… só queria abraçá-lo e agradecer por me defender.
No fim, eu pedi espaço.
— Me deixem conversar com ele… com meu irmão. Eu não quero ir embora brigada. Espero que entendam.
Todos assentiram. Me afastei, olhando ao redor. As luzes do parque refletiam no meu rosto, e o vento noturno balançava meu cabelo preso. Eu não sabia o que me esperava no Brasil. Mas sabia que aquele momento… era inesquecível.
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𝕊𝕦𝕟 𝕆𝕗 𝕄𝕪 𝕃𝕚𝕗𝕖
Teen Fiction𝙴𝚜𝚜𝚊 é 𝚊 𝚑𝚒𝚜𝚝ó𝚛𝚒𝚊 𝚍𝚊 𝙷𝚊𝚗𝚊, 𝚞𝚖𝚊 𝚖𝚎𝚗𝚒𝚗𝚊 𝚚𝚞𝚎 𝚙𝚎𝚛𝚍𝚎𝚞 𝚜𝚎𝚞𝚜 𝚙𝚊𝚒𝚜 𝚎𝚖 𝚞𝚖 𝚊𝚌𝚒𝚍𝚎𝚗𝚝𝚎, 𝚎𝚕𝚊 𝚏𝚘𝚒 𝚖𝚘𝚛𝚊𝚛 𝚓𝚞𝚗𝚝𝚘 𝚌𝚘𝚖 𝚘 𝚜𝚎𝚞 𝚝𝚒𝚘 𝚞𝚔𝚊𝚒. 𝙴𝚕𝚊 𝚌𝚑𝚎𝚐𝚘𝚞 𝚎𝚖 𝚙𝚘𝚞𝚌𝚘 𝚝𝚎𝚖𝚙𝚘 �...
