Terra Natal

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Eu estava ali, diante do Himura, com o coração um pouco mais pesado do que eu deixava transparecer. Já não era fácil me despedir de tudo… e agora, saber que ele tinha ido bater no Hinata me deixava ainda mais confusa.

— Himura… por que você bateu no Hinata? — perguntei firme, olhando direto nos olhos dele.

Ele estava de costas, os ombros tensos. Por um segundo achei que ele não fosse responder, mas então ele virou só um pouco o rosto e disse, com a voz baixa:

— Eu… não aguentei ver você triste daquele jeito. Aquele dia, quando eu voltei e vi você trancada no quarto, abraçada com uma camisa dele… com o olhar perdido… eu nunca tinha te visto assim. E a minha raiva por ele só aumentou. Ele foi um imbecil com você, Hana. Um idiota. E… me desculpa. — ele abaixou a cabeça.

Fiquei em silêncio por alguns segundos. Porque, por mais errado que fosse o que ele fez, parte de mim… entendia.

— Eu sei — respondi baixinho. — Mas isso não importa mais. Eu não namoro mais com ele. E não quero saber mais nada dele…

Hesitei. Era a hora de contar. A verdade inteira.

— Olha, eu preciso te contar uma coisa… — desviei o olhar, sentindo um nó na garganta. — Eu não vou passar apenas um ano no Brasil.

Ele se virou na hora, os olhos arregalados.

— O quê? Do que você tá falando?

— O vovô… ele vai precisar de mais tempo lá. A cirurgia é mais delicada do que a gente pensava. Ele vai precisar de meses de tratamento.

— Quanto tempo?

— E-eu não sei… talvez dois anos… ou mais.

Ele respirou fundo. Cruzou os braços, olhando pra mim com as sobrancelhas franzidas.

— Então… você vai morar lá, praticamente. Por que mentiu pra todo mundo?

— Eu só… eu só não queria ver vocês ainda mais tristes do que já estavam. E, sei lá, vai que nas férias eu consiga vir visitar…

— Hana…

Antes que ele dissesse mais alguma coisa, eu o abracei. Forte. Daquele jeito que só se dá quando você não sabe quando será o próximo.

Eu fechei os olhos e tentei gravar o cheiro dele, o jeito protetor como ele me envolvia de volta. Ele podia ser um chato, podia exagerar às vezes, mas ele era meu irmão. O melhor irmão do mundo.

— Eu vou contar a verdade pra todo mundo, tá? — sussurrei. — Mas, por favor, me promete uma coisa… não vá mais atrás do Hinata. Não faça mais nada contra ele. Quem terminou foi ele. A escolha foi dele. E mesmo que tenha me machucado, eu respeitei.

Ele não disse nada, então continuei:

— Se você realmente quer me ver bem… me promete que vai focar no seu sonho. Em ser um atleta de vôlei. Você tem talento, Himura. Comigo saindo do time, é mais uma chance pra você brilhar. Você pode até ser melhor que o Hinata.

— Não tanto quanto ele… — murmurou.

— Mas você pode. E vai. Seja melhor que ele — falei com um sorriso determinado, erguendo o queixo e olhando nos olhos dele.

Depois do abraço com o Himura, respirei fundo e limpei discretamente os olhos. Eu queria guardar cada pedacinho daquela última tarde. Foi então que um garoto apareceu do nada na nossa frente, sorrindo com um certo brilho travesso nos olhos.

— Oii, desculpa interromper mas... eu sou o Pedro. — disse ele, meio sem jeito.

Himura ergueu uma sobrancelha. Eu também.

𝕊𝕦𝕟 𝕆𝕗 𝕄𝕪 𝕃𝕚𝕗𝕖Onde histórias criam vida. Descubra agora