Brasil (Hana)

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Já tinha chegado ao Brasil. Depois de horas num voo cansativo, o ar quente e úmido me acertou como um tapa no rosto assim que desci do avião. O cheiro era diferente, mais doce, mais denso. Eu não sabia se era o clima ou as memórias enterradas da infância, mas algo no ar me fazia sentir como se estivesse num lugar que era e não era meu.

Conheci toda a minha família por parte de mãe — tios, tias, primos, primas... e todos falando ao mesmo tempo, sem nenhuma pausa. Eu só não lembrava o quanto eles eram barulhentos. Ou talvez eu tivesse esquecido de propósito. Alguns eram legais, engraçados até. Outros… insuportáveis. Fizeram mil perguntas assim que me viram:

— "No Japão pode andar de mãos dadas?" — "É verdade que ninguém pode abraçar na rua?" — "Vocês dormem em pé igual samurai?"

Eu tentava sorrir, mas por dentro queria desaparecer. O Japão não era tão estranho assim… quer dizer, acho que não.

Passado o tsunami de perguntas familiares, meu maior desafio me aguardava: meu primeiro dia em uma escola brasileira. Só de pensar, meu estômago embrulhava. Tinha medo. Não só dos assaltos que todo mundo dizia que iam acontecer no minuto em que eu colocasse o pé na calçada, mas também do desconhecido, das pessoas, da língua.

Na cozinha, minha tia preparava café com pão na chapa.

— Ansiosa? — ela perguntou, olhando de soslaio enquanto virava o pão na frigideira.

— Um pouco... nunca fui em uma escola brasileira antes. Tenho medo de ser assaltada. — disse, balançando a perna e sorrindo de leve, tentando disfarçar o nervosismo.

— Mas você não vai ser assaltada, se você se cuidar, não vai. Só não vacile. BOOORAAA, FILHOS DE UM CÃO! ACORDEM! — gritou de repente, fazendo minha alma sair do corpo.

Reclamar dos barulhos do meu tio no Japão agora parecia bobagem. Isso aqui era outro nível.

Depois de deixar os primos menores nas escolas, chegou a minha vez. Assim que saltei do carro, olhei para a escola e parei por um instante. Era enorme. Moderna. Eu esperava algo muito mais caótico, mas parecia... organizada.

— Tchau, tia — disse, forçando um sorriso.

— Se impressionou, né? Tá vendo? Nem tudo o que falam do Brasil por aí é verdade. Essa escola é ótima. Agora vai. E lembra: não vacila. — ela piscou e foi embora.

Ok. "Não vacila". Repeti na minha cabeça como um mantra. Respirei fundo e entrei. Vários olhos se voltaram pra mim. E eu congelei. Já não queria estar ali.

Tentei procurar minha sala. Vi uma garota encostada na parede. Usava o uniforme da escola, ou melhor, parte dele — a camisa amarrada na cintura, mostrando a barriga. Se fosse no Japão, isso seria no mínimo uma suspensão.

— Olá. Você poderia me dizer onde fica a sala 1B? — perguntei, sorrindo, tentando parecer tranquila.

Ela me olhou dos pés à cabeça, franzindo o cenho.

— Pode repetir?

— Sala 1B…?

— Aah, agora entendi. Fica no segundo andar, última porta.

— Obrigada.

Antes que eu saísse, ela segurou meu pulso levemente.

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