O cuidado que fere

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A chuva fina da tarde fazia pequenos desenhos na janela ao meu lado. Do lado de dentro, o restaurante era calmo, quase vazio, e cheirava a pão fresco e café passado na hora. Eu gostava desse lugar não só porque era discreto, mas porque me lembrava de momentos simples, em dias complicados.

Pedro estava sentado à minha frente, de camisa escura dobrada até os cotovelos. Ele brincava com o guardanapo entre os dedos, como se estivesse pensando em algo há tempo demais.

— Você quer mais um bolinho? — ele perguntou, com um sorriso contido, apontando para o pratinho quase vazio entre nós.

— Não, tô cheia já. — Dei uma risada leve, olhando pra xícara de chá nas minhas mãos. — Você devorou dois sozinho, aliás.

— Culpa sua. Você que me viciou nisso — disse, empurrando o último pedaço com o garfo até o centro do prato. — Esses bolinhos têm gosto de coisa boa. Tipo... memórias que a gente quer guardar.

Hesitei, mordendo o canto da boca.

Pedro sempre dizia coisas assim. Bonitas. Cuidadosas. Ajeitadas como um bilhete bem escrito. Mas, ultimamente, elas pareciam ensaiadas. Como se ele estivesse tentando manter alguma ilusão viva, talvez até pra ele mesmo.

— Você tá quieta hoje — ele comentou, olhando direto pra mim.
— Aconteceu alguma coisa?

— Tô só pensando. — Bebi mais um gole de chá. — Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo... o treino, o jogo com o Nekoma, e...

— E o Hinata. — Ele completou por mim, sem rodeios.

Fiquei em silêncio.

— Você ainda se importa com ele, né?

Meu olhar caiu no pratinho vazio. O vapor da xícara já tinha sumido.

— Não é isso — respondi, baixinho. — Eu só... fico confusa às vezes. E, de algum jeito, parece que tá todo mundo esperando que eu escolha alguma coisa. Que eu saiba o que quero. Mas e se eu ainda estiver entendendo quem eu sou agora?

Ele assentiu, sem raiva. Sem pressa.

— Hana, eu não tô aqui pra competir com ninguém. Só quero estar do seu lado enquanto você se entende, mesmo que isso demore.
Eu tenho tempo. Só preciso que você se sinta segura... comigo.

Engoli seco. Era gentil. Era tudo o que alguém deveria dizer numa situação como essa. Mas...

Por que, mesmo assim, me dava calafrios?

— A gente devia ir pro treino — falei, mudando de assunto. — Não quero chegar atrasada.

— Tudo bem. — Ele sorriu de novo, levantando-se devagar. — Vamos juntos?

Assenti, pegando minha mochila do banco ao lado.

Do lado de fora, a chuva tinha parado.

A rua estava úmida, e o céu parecia de papel molhado, sem forma, sem brilho. Os carros passavam devagar, e nossas sombras se esticavam nos postes como se quisessem fugir da gente.

Pedro caminhava ao meu lado, as mãos no bolso do casaco, e o silêncio entre nós era confortável... até certo ponto. Eu tentava achar algo pra dizer, mas toda vez que abria a boca, minhas palavras ficavam presas nos pensamentos.

— Você parece distante — ele comentou, sem me olhar.

— Só tô... pensando — respondi pela segunda vez naquele dia.

Ele soltou um suspiro nasal e chutou uma pedrinha no caminho.

— Tá pensando se devia ter ido com o Hinata em vez de comigo?

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