Não consegui dormir e a madrugada foi longa. Levantei da cama cedo e saí da casa do Henry antes que ele acordasse, para não me estressar com ele logo de manhã e nós brigarmos. Na verdade, eu nem quero mais ver a cara dele. A dele e nem a do Luís Gustavo, filho da puta traíra do caralho. AI QUE RAIVA!
Deixo a casa do Henry chorando e chego em casa chorando. Não consigo parar por um minuto sequer. Esse foi definitivamente o pior momento do mundo para eu descobrir uma traição. O universo não satisfeito em me fazer sofrer por causa do meu pai e de antecipação pela reação dos outros, eu vou ter que lidar com a traição. Porra!
Um me falou que nunca faria isso comigo – ele era meu melhor amigo – e o outro vivia me dizendo que eu sou uma pessoa especial para ele. Não, não vai ser fácil de digerir.
Entro no meu quarto e tranco a porta antes de alguém apareça e venha encher o meu saco. Ligo o ar condicionado e vou para debaixo da coberta. Por vários momentos eu senti o meu celular vibrar e vi o flash da lanterna piscar. Só que eu estou imóvel, não consigo nem mudar a posição que estou quem dirá pegar o celular... Continuo assim até certo momento em que eu durmo.
Acordo; consigo me mexer; troco de lado na cama, choro e volto a dormir.
– Já faz um dia que ele está preso dentro desse quarto! – escuto a voz da minha mãe – Se ele não abrir, eu vou ter que quebrar.
– Eu não acho que você seja a pessoa certa para entrar ai agora. – agora é a voz da Pandora.
– Por que não? Ele é meu filho!
– Você não tem as palavras certas. E ainda é homofóbica.
– Quê? – gritou – Eu não sou homofóbica não.
– Imagina se fosse... – silêncio – Enfim, deixa que eu converso com ele.
Se a minha mãe está na minha porta querendo conversar comigo e dizendo que eu sou o filho dela já é algo que me deixa 0,01% melhor. Eu espero que essa conversa delas duas não dê em nada, pois eu não estou no clima de conversar agora. Só quero ficar no meu quarto com a minha dor e solidão para sempre e quem sabe, morrer dormindo.
Fechos os olhos.
– Pietro! – alguém bate na porta – É a mamãe! Deixa eu entrar.
– Mãe, ele não vai abrir pra você! – Pandora reclama.
– Já faz um dia que você está ai! – minha mãe continua – Nós estamos preocupados. E trouxemos comida. Por favor, abre a porta!
Eu não respondo e volto a dormir.
Em certo momento eu acordo e a dor ainda é a minha companheira. Minhas lágrimas já secaram e eu mal tenho forças para deixar meus olhos abertos. Troco de posição na cama e da para observar pela sobra por debaixo da porta que tem alguém ali. Será que a minha mãe está parada ali até agora?
– Você está acordado? – gelei com a voz – eu ouvi um barulho ai dentro.
Fechei os olhos, para fingir que tudo isso é um sonho.
– Deixa eu entrar! – insistiu – Eu queria poder dizer que posso explicar tudo. Mas não tem nada a ser explicado. Eu vacilei e... porra! Eu sou um filho da puta... – silêncio – Só deixa eu entrar, por favor! Eu não vou conseguir conviver com essa culpa, sem ver seu rosto e...
Abro a porta. Henry está sentado no chão de costas para mim. Logo ele olha para trás e levanta rapidamente. Nos encaramos e ninguém diz nada. Ele apenas se aproxima de mim para me dar um abraço e eu deixo, porém não retribuo. Assim que ele entra em meu quarto, eu fecho a porta.
– Desculpa! Desculpa! Desculpa! – ele fica repetindo enquanto me abraça.
Sinto vontade de chorar, mas seguro. Por que ele está fazendo isso comigo?
Eu quero retribuir um abraço com um soco na cara ou palavras maldosas que vai rodear a cabeça dele por um tempo, mas nem forças para fazer isso eu tenho. Por que eu estou com vontade de retribuir o abraço, chorar em se ombro e pedir desculpas? Ele que fez isso comigo.
– Vou tomar banho! – digo afastando–o e entrando no banheiro.
Me encaro no espelho e que porra é essa que eu estou vendo? Eu estou mais do que destruído, parece que uma bomba explodiu no meu rosto. Jogo uma água no rosto e logo começo a tirar minha roupa.
Entro no box e coloco no mais quente possível. O vapor toma conta do lugar e a minha pele começa a arder por causa da água, mas eu não ligo. Fico de cabeça baixa com as mãos na parede encarando o chão, pois é assim que eu fico no chuveiro quando estou triste ou pensativo.
Sinto duas mãos tocando minha cintura e dou uma tremida de susto. Eu não tinha trancado a porta?
Henry se aproxima mais e começa a beijar meu pescoço.
– Você quer fazer isso? – ele pergunta em meu ouvido.
Tudo em mim diz "Não", porém eu assinto com a cabeça.
– Quem deixou você entrar? – pergunto enquanto estava com a cabeça em seu ombro, já deitados na cama.
– A sua irmã. – silêncio – Ela mandou mensagem para que eu viesse aqui... Acho que ela não sabe o que aconteceu.
– Se ela soubesse, ela nem olhava na sua cara – digo seco.
– Provavelmente.
– E se eu soubesse o meu valor, eu nunca mais falaria com você – ele me encarou – mas no fundo, eu sabia que largaria tudo para voltar pra você. – se aproximou e beijou minha testa.
– Eu te amo! – diz me encarando – E eu me sinto um merda de ter feito isso com você. Eu não falei nada com você, nem muito com ninguém na verdade, porque é algo que ainda me machuca muito. – começou a fazer cafuné – Há pouco tempo atrás eu namorava. O nome dela é Helena, e eu a amava muito. – depois do que ele fez comigo, não tenho duvidas – E ela me traiu com o meu melhor amigo. Eu fiquei malzão durante dias. E agora, eu fiz a mesma coisa com você. O que me deixa pior ainda. Eu sou um erro. Nunca devia ter nascido. – engoli seco.
– Você não é um erro! – digo encarando–o – Você só errou.
Silêncio.
– Eu nunca traí ninguém e acho que nunca terei coragem – digo – mas eu fiz coisas horríveis a pessoas ótimas e eu me arrependi. Você está aqui, ok! Eu te perdoo! – digo dando um selinho.
– Você é muito especial! – beijou minha testa – Por isso eu me apaixonei por você.
Começou a dar vários beijos em meu rosto até chegar a minha boca. Eu o abraço e não quero largá-lo nunca.
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PIETRO
Novela JuvenilPietro é um menino sensível, de poucos amigos e de muitos problemas. Ele não sabe ao certo a sua sexualidade, não consegue concretizar os seus sentimentos pelos outros, prefere ser uma pessoa reservada, mas nunca consegue escapar dos seus problemas;...
