Capítulo 2

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Mika não estava no muro quando o sinalizador verde foi disparado. Avistou-o de sua casa, uma pequena construção de dois andares mal acabada no bairro militar, onde outrora morava com os pais e as duas irmãs. Os pais estavam mortos, assassinados na Grande Revolta Popular. Quanto às irmãs, a mais velha servia com ele no serviço militar e a mais nova morava na Escola de Dotados, onde ficavam aqueles que desenvolviam seus dons cedo demais e precisavam ficar sob supervisão para que não se excedessem e pusessem outros e a si mesmos em risco. Mika era um Wacoski, e um Wacoski era um dotado como mandava seu sangue mas, apesar de já ter 16 anos, ainda não havia desenvolvido seu dom. Normalmente este aparecia entre os doze e os dezoito, surgindo comumente aos quatorze, quinze, junto com a puberdade e as espinhas. Portanto, o fato de ainda não tê-lo desenvolvido aos dezesseis não era assim tão incomum mas, para Mika, era como uma provação. Não via a hora de poder provar seu valor dentro do exército e de sua cidade e não havia maneira melhor do que explorando o poder que lhe havia sido concedido. Pelos deuses, de acordo com os religiosos, e pela genética, de acordo com os cientistas. Não importava quem os havia cedido, Mika só queria poder usufruir deles, direito que era seu garantido pelos seus genes especiais, pelo sangue e pela herança genética; e ser extremamente forte e temido e respeitado por todos na cidade. Mika tinha brios de ferro, vontade de super herói e a persistência de um campeão e seu sonho, desde pequeno, era tornar-se um herói para o povo que jurou proteger, assim como seu pai, seu avô e tantos outros Wacoski antes dele. Por isso, quando viu a fumaça verde subir como um foguete pro céu, ele disparou em corrida pelas ruelas sujas e cheias de poça d'água, que ele desviava com precisão, buscando encontrar desesperadamente sua irmã mais velha. Encontrou-a no alojamento feminino limpando algumas armas; um servicinho inútil que os superiores adoravam designar para os recrutas mais jovens, como também lavar os veículos (para terminarem sujos de novo no mesmo dia ou, no máximo, no próximo), cozinhar, lavar os pratos, limpar os quartéis, escovar os cavalos do Esquadrão de Elite, entre outras atividades subalternas. Mika já imaginava que nada daquilo os pertenceria mais. Sua mente pulava muito à frente, já imaginava-se fazendo parte do grupo mais especial e forte do Território e sendo admirado e invejado por seus antigos colegas. Nunca mais lavaria um prato, esfregaria um banheiro ou a crina de um cavalo. Dali em diante seriam glórias e vitórias.

– Annie, eles voltaram! – disse, todo esbaforido, quase matando sua irmã mais velha do coração – O Esquadrão está de volta.

Haviam enviado suas requisições em dezembro do último ano e o prazo para análise e retorno dos selecionadores já chegava ao fim. Nos últimos tempos, o Esquadrão de Elite estivera muito ocupado em diversas missões fora dos muros mas, agora, Mika tinha esperanças que ocorreria uma pausa nas missões e as seleções para as vagas abertas do Esquadrão recomeçariam. E eles eram Wacoskis. Não tinha porque suas candidaturas serem recusadas.

Correram para a entrada do bairro militar que, sendo o primeiro bairro em torno das muralhas, também era a primeira entrada da cidade. Fora dali era o território selvagem do cerrado, árido, perigoso e pouco propício à vida, separado por 80 quilômetros da outra cidade murada da Nova República.

Poucas pessoas se reuniram nas calçadas da via pavimentada para recepcionar os soldados. A maioria dos residentes do bairro militar serviam ao exército ou trabalhavam nas instituições governamentais dos outros bairros e não tinham tempo para circular desocupados pelas ruas. A maioria das pessoas que recebiam os soldados naquele momento eram recrutas curtindo seu dia de folga, como Mika, ou recrutas que largaram seus trabalhos enfadonhos para testemunhar o que podia ser o primeiro dia da Grande Retomada, como Annie. Mas assim que os veículos e cavalos se arrastaram para dentro dos muros, todos perceberam que alguma coisa tinha ido terrivelmente mal. O capitão Erwin ia na frente, com a sua postura inabalável mas o semblante terrivelmente carregado. Mais atrás dele vinha dois tenentes, muito mais cabisbaixos e com alguns ferimentos, entre eles Rivaille, o sempre tão arrogante e cheio de si tenente Rivaille que, desta vez, mantinha os olhos baixos, o rosto sujo de sangue misturado com terra não disfarçava o seu semblante decepcionado. Em um carro aberto, dezenas de corpos cobertos com lençóis, um por cima do outro.

Quando Annie colocou os olhos sobre Rivaille foi como se todo o peso que estava nas costas dele pesasse sobre suas costas também. A missão, pelo visto, não havia sido nada bem sucedida. E o cansaço, o fracasso e a dor estampavam claramente aquele rosto.

A pequena procissão seguiu até o quartel general do Esquadrão de Elite. Quando Rivaille desmontou um homem de feições muito duras, certamente um capitão aposentado, aproximou-se dele com passadas fortes e decididas.

- Onde está Gomez, tenente? Onde está meu filho? Não o vi cavalgando a seu lado quando adentraram a cidade.

Rivaille não tinha coragem de olhar para cima, apesar de saber que devia fazê-lo.

- Você era encarregado por ele, tenente. Onde ele está? – a voz do homem começou a embargar e as suas pernas tremerem. O silêncio do tenente só o fazia ter certeza mas o seu coração recusava-se desesperadamente a aceitar – Onde ele está?

Rivaille apenas seguiu o olhar para a carroça um pouco mais afastada deles. O robusto homem acompanhou seu olhar e sua vontade foi de ir até lá e vasculhar aqueles corpos um por um para que os olhos confirmassem o que o coração já sabia e não queria aceitar, mas suas pernas se recusaram a obedecê-lo. Ao invés disso, foi sua boca que se mexeu com palavras que mal foram pensadas mas saíram num jorro de amargura e desespero:

- Você era encarregado por ele! Ele lhe ofereceu sua vida! Você era tudo pra ele, tenente!

E antes que o homem se lançasse pra cima do tenente para as vias de fato, alguns soldados o seguraram e o controlaram sem muita dificuldade. Rivaille apenas entregou seu cavalo para o cuidador e entrou no quartel sem dizer nada.

Os fatos eram que a missão fracassara e a chance de retomar o poço, e assim aumentar a produção de combustível, adiada mais uma vez. Não conseguiam acreditar que gastaram tantos meses de planejamento na retomada e na hora da execução, se esqueceram de algo tão óbvio e previsível quanto um ataque dos Bastardos. Afinal, as criaturas não eram seus únicos inimigos, desde a Grande Revolta Popular aquilo não era mais verdade. Haviam sido descuidados, ingênuos e idiotas. Era aquilo que a esperança fazia com as pessoas.

O capitão passou o resto do dia dando explicações. Aquilo era o mais inconveniente, sem dúvida. Não bastava o fracasso em si, a morte de seus oficiais, as dores e os terrores que os embates sangrentos daquele dia deixariam marcados na mente de todo mundo. Ainda tinha que atestar seu fracasso, detalhar seus erros e justificar o injustificável. Seria tão mais fácil se pudesse simplesmente retornar, enfiar-se na cama e chorar pelo resto da vida, imerso em sua autocomiseração. Mas desde o dia que decidira se tornar um soldado, soube que nunca poderia se dar ao luxo de sentir pena de si mesmo, nem de mais ninguém.

Quando retornou ao seu gabinete, já estava escuro e os soldados jantavam no refeitório do quartel e dos respectivos alojamentos. Erwin não tinha nascido no bairro militar, tampouco vinha de uma família militar. Nascera no bairro dos agricultores. Quando anunciou aos pais que queria alistar-se, estes quase morreram do coração e quase morreram de novo todas as vezes que Erwin saia da segurança dos muros para alguma missão suicida do Esquadrão de Elite. Agora Erwin já tinha cinquenta anos e seus pais falecidos. Agora, tantos anos depois desde o alistamento, a primeira condecoração, a convocação para o Esquadrão de Elite, ele desejava ter passado mais jantares ao lado da família, naquele pequeno sítio no bairro dos agricultores, ao invés de passá-los quase todos nos refeitórios ruidosos dos alojamentos.

Pouco tempo depois, Rivaille apareceu, já limpo mas ainda arrasado. Erwin ofereceu-lhe uísque, que o outro aceitou sem se fazer de rogado. Beberam em silêncio por quase dez minutos.

- Preciso de novos recrutas – disse Rivaille, finalmente. Haviam sido três baixas em seu time só naquele dia.

Erwin abriu a gaveta e tirou uma pasta de papel em tom bege com alguns formulários dentro.

- Os últimos pedidos de admissão recebidos.

- Preciso de dotados.

- Aqui tem o que você precisa.

Rivaille abriu a pasta e folheou as fichas. Os irmãos Wacoski. Aguardavam admissão desde dezembro.

- Já estão desenvolvidos?

- A garota sim. O garoto ainda não, pelo que sei.

- De que me servirá ele?

- Um dotato é ainda um dotado, Rivaille. Não faça pouco disso.

Um pouco contrariado, Rivaille bateu continência e deixou a sala. Erwin acendeu um cigarro de palha, fixou o teto e ficou relembrando suas conquistas e sua família a cada golada no uísque.

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