Capítulo 22

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Uma base militar seria montada no entorno do poço para garantir sua segurança enquanto os trabalhadores seriam enviados para recuperar a estrutura e criar um novo sistema de abastecimento de água às Cidades Leste e Capital. Seria uma obra que levaria anos para ser concluída — especialmente com a nova geografia vulcânica com que a antiga cidade havia se transformado — mas que garantiria o abastecimento contínuo e a sobrevivência que as cidades tanto necessitavam. O capitão Erwin designou três times — Rivaille, Kebeha e Jader — para garantir a segurança do poço e dos trabalhadores até que a base militar estivesse estruturada o suficiente para funcionar sozinha durante os três meses seguintes e os dotados trabalhariam também, limpando o entorno e ajudando a recuperar a estrada e estrutura necessárias para a construção da rede de abastecimento.

No dia seguinte, logo após a batalha, os sobreviventes recolheram todos os corpos inimigos e os jogaram numa grande vala providencialmente criada no solo desértico por um Kebeha. Separar amigos dos inimigos foi uma tarefa notavelmente triste. Muitos nem podiam ser reconhecidos — os que se fundiram com a lava ou os que foram consumidos pelas chamas negras. Nem Annie, nem ninguém, podia garantir que nenhum aliado havia sido levado pelas chamas, principalmente no início dos ataques quando a visibilidade era tão nula por causa das bombas. Mas, num geral, haviam classificado o trabalho dela com Rivaille como nada menos que brilhante. As chamas negras sempre foram uma arma poderosíssima que os dotados temeram utilizar durante séculos e agora, finalmente, eles encontravam um meio de usá-la com os menores riscos possíveis.

Descansavam num acampamento improvisado, em barracas que mais se pareciam com um forno sob o sol quente mas, pelo menos, água tinham em abundância. Annie lavara-se o melhor que podia e tentara dormir, mas não conseguia. Ficou revirando de um lado pro outro até que, por fim, desistiu e atravessou a barraca com cuidado para não pisar nas pessoas que dormiam pesadamente, vencidas pelo próprio cansaço e indiferentes ao desconforto do solo pedregoso em que dormiam ou o calor escaldante que fazia lá dentro. Saiu no dia quente e o deserto em torno deles parecia pegar fogo. O trabalho em volta do poço estava frenético — Kebehas tentavam partir as primeiras rochas vulcânicas para limpar o espaço e outros coletavam corpos, colocando todos dentro de carroças e aquela visão lhe embrulhou o estômago. Afastou-se em direção à entrada da vila quando ouviu a voz de seu tenente a chamando.

— Caminhe comigo — ele disse e ambos se afastaram do movimento — Você está bem?

— Sim. Ontem foi uma loucura... mas estou bem. Estamos todos bem.

— Não aconteceu nada que você queira me contar?

— Erwin falou com você — ela disse, em um tom um pouco aborrecido — Ele pediu para você vir falar comigo, não foi?

— Nós já conversamos sobre isso antes. Se você tiver qualquer dúvida, eu preciso que você fale comigo. Está bem claro agora o quanto eu preciso de você. O quanto o time precisa de você. Talvez isso te deixe um pouco incomodada, e eu não te repreendo. Nem todo mundo gosta do estrelato, como o babaca do Geller. Se isso estiver pesando demais, eu sei uma maneira de aliviar isso. Eu sou especialista em fazer as pessoas se sentirem menos importantes e mostrar pra elas que o mundo se vira bem sem elas.

Annie descontraiu-se e riu um pouco. Rivaille parou-a de repente e colocou os dedos sob seu peito, bem em cima de seu coração.

— De quem é seu coração?

— Seu — respondeu ela sem pensar, completando rapidamente — e do esquadrão.

— Não me faça me preocupar com você.

— Sim senhor.

E ele deixou-a, e o vento soprou bem forte jogando areia em seus olhos. Annie cobriu-se e, quando a ventania cessou, Rivaille não estava mais lá.

Ele seguiu mais adiante, até a grande vala que recebia mais e mais corpos dos inimigos. Erwin estava por ali também, inspecionando sabe-se o quê. Rivaille parou ao lado dele e disse, sacando uma garrafinha do bolso.

— Eles estão acabados, não estão?

— São mais de duzentos mortos. Nunca soubemos quantos eram ao certo. Mil dotados partiram com eles dez anos atrás, mas muitos já morreram desde então. Depois disso, muita gente comum, trabalhadores simples das fábricas, fugiram para se juntar a eles e algumas dezenas de dotados, mas... não devem possuir um contingente significativo. Eles estão soltos por aí, sem uma muralha para protegê-los das criaturas.

— Se nós não acabarmos com eles, as próprias criaturas acabarão.

— Isso mesmo. Com o poço, temos garantia de abastecimento de água por longos anos. Perdemos muita gente neste ataque também. No time de Martin Kebeha só sobrou um. O seu foi um dos únicos times a não sofrer nenhuma baixa. Mas desta vez, Rivaille, não estou tão triste com as mortes. Elas tiveram um propósito, uma justificativa. Em um ano, no máximo, estaremos prontos para partir para a expansão da retomada. Fundaremos a sexta cidade e ela será sua, se você quiser.

— Não nasci pra governar, ao contrário de você, capitão. Já fez tanto por nós que acho que o governo não lhe recusaria uma cidade.

— Quem sabe — o capitão acompanhou os últimos corpos sendo jogados de uma carroça. — Esta foi a última. Você se encarrega disso?

Rivaille, com um simples gesto, fez um dos corpos no centro da vala queimar e logo todos eles ardiam naquele dia infernal, fazendo erguer uma fumaça mais negra que as outras visíveis, exalando um cheiro moribundo de carniça e morte.

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⏰ Última atualização: Mar 13, 2024 ⏰

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