O ecoar das bombas repetia-se num intervalo aparentemente ritmado, de três a cinco minutos, sincronizado com o avanço lento e compassado dos esquadrões ruínas da cidade adentro. Recuperar aquele poço tornara-se vital para a continuidade da retomada como para a moral das tropas e dos moradores das Novas Cidades. Era uma vitória extremamente necessária, indispensável e fundamental para alavancar a vontade e o alcance dos lutadores. Estes estavam como sempre cansados, sujos, sedentos, famintos, como se empreendessem uma jornada não de poucas semanas mas de anos. Aquele era o efeito desértico e da falta de recursos agindo.
Fazia o cansaço se abater nas tropas com muito mais intensidade que o devido, pesando em seus esforços e seus corpos, sugando suas energias muito mais rápido do que aconteceria normalmente. Era verão, a temperatura alcançava facilmente os 38 graus durante o dia para cair vertiginosamente para os 10 graus à noite e a desidratação ocorria muito mais rápido naquele clima seco e poeirento do que em qualquer outro clima. Rivaille lutava contra a exaustão e a areia impregnada em seus pulmões, o que o fazia ter acessos de tosses terríveis.
Faltava pouco agora. O cascalho estilhaçava em todas as direções, deixando a visibilidade do caminho que deviam seguir quase nula, mas as bombas eram necessárias para limpar o terreno das criaturas. Explosivos eram exagerados mas eficazes – nada sobrevivia a eles – e tinham que garantir a segurança do acesso ao poço, agora e futuramente, pois o tráfego de caminhões tanque buscando e distribuindo o combustível beiraria o frenético, principalmente se o capitão Erwin decidisse aproveitar a nova conquista para expandir o plano de retomada.
Saiu de trás de um escombro pra tentar ver o caminho que tinha à frente. Criaturas sem membros rastejando em meio aos escombros o surpreenderam – como podiam ser tão resistentes aqueles seres do inferno! Sobreviviam a qualquer coisa desde que não tivessem seu ponto fraco atingido e este era a destruição de seu sistema nervoso, em sua base no início da coluna, ou simplesmente arrancando-lhes a cabeça fora. A última opção era bem mais segura e garantida e era normalmente a preferida dos soldados, com exceção, talvez, dele mesmo. Rivaille gostava de vê-los queimar.
- Avancem – gritou, e ele e seu time saíram da segurança dos prédios bombardeados para exporem-se na via, que ele considerou estar segura com a exceção de restos de criaturas que não podiam mais oferecer combate. Seu erro, dos esquadrões presentes, foi focar-se exclusivamente nas criaturas como única ameaça e desconsiderar outros fatores que podiam estar ao seu redor. Dessa forma não perceberam que foram seguidos em seus veículos e cavalos, não perceberam que não eram os únicos a infiltrar-se na arruinada cidade naquela manhã e nem desconfiaram que não eram os únicos interessados naquele poço.
Foram tomados completamente de assalto quando os tiros começaram. O primeiro atingiu seu primeiro imediato, Gomez, em cheio no pescoço, estourando sua jugular e explodindo num rio de sangue quente e muito vermelho. Os respingos atingiram o lado direito de seu rosto e, com um baque, despertou todos os seus sentidos de perigo e alerta. Mas antes de reagir – e uma coisa que não podia reclamar era de sua reação rápida – mais dois soldados seus foram atingidos e rapidamente devorados por uma criatura sem pernas que arrastava-se pelos escombros. Naquele momento que tudo pareceu parar e ficar em câmera lenta, Rivaille viu os canos apontados para ele, das duas direções, em cima de prédios parcialmente destruídos. Viu o corpo de Gomez e mais dois subordinados sendo lentamente devorados por restos de criaturas repugnantes, soldados gritando sinais de alerta e correndo para se proteger entre os estreitos becos entre as estruturas bombardeadas e um major que, na hora, não soube identificar, berrando seu nome a plenos pulmões:
- Rivaille, recue! Para trás, para trás!
Despertou do transe e olhou novamente para os homens correndo rapidamente sob os telhados para trocarem de posição e se protegerem de um provável contra-ataque. Sua vontade era de incendiá-los, a todos eles, mas não teria tempo para isso agora. Girou o corpo e correu como nunca para a proteção das altas paredes pelo caminho que veio, reagrupando-se com mais dois esquadrões. Seria somente uma questão de reagrupar e contra atacar quando escutou o zumbido. Ensurdeceu por alguns momentos, sugado por um turbilhão de vento e terra, sacudido por uma terrível tontura e um ímpeto de enterrar-se o mais fundo possível.
Quando olhou de novo, havia fogo em toda parte. Metade do esquadrão que tentava se reagrupar no beco estava, literalmente, em pedaços., Oo major, morto com um estilhaço de ferro perfurando seu peito, os sobreviventes gritando e chorando como se tivessem acabado de sair das fraldas e descoberto que o mundo era muito mais terrível do que seus pais haviam lhe contado. Gritou para quem conseguiu ouvi-lo para continuar o recuo e eles recuaram mais.
Soldados de outros esquadrões surgiram, um novo tiro de bazuca atingiu a praça central. Os desgraçados estavam olhando o tempo todo. Vai saber desde quando estavam ali, no topo daqueles prédios, só observando o avanço dos esquadrões, esperando o melhor momento para atacar. Esperando eles eliminarem as últimas criaturas, limparem totalmente o acesso ao poço para tomarem deles, com violência, a vitória e a vantagem que tanto precisavam, que era tão fundamental para seu desenvolvimento e sobrevivência.
Parou atrás de uma meia parede e procurou os inimigos. Malditos, malditos! Estava a ponto de acionar o DMT e saltar para cima deles, de peito aberto, num ataque suicida e inconsequente apenas para arrastar o maior número possível deles para a morte junto com ele, quando ouviu pelo rádio a retaguarda gritar desesperada que estavam sob ataque. Os Bastardos não estavam ali pra brincadeira. Estavam dispostos a não deixar ninguém vivo. Seria um massacre.
- Rivaille, eu preciso que você lidere a retirada – a voz do capitão reverberou no rádio. Rivaille ficava no mínimo desconfortável tendo que liderar uma retirada de tantos soldados assim. Não admitia mais que seis pessoas em seu esquadrão. Não estava acostumado a liderar grandes grupos – Os Dotados te darão cobertura.
Carregou a pistola com um sinalizador preto e atirou. Preto significava retirada. Viu o sinal ser replicado mais uma, duas vezes, entre os prédios e a fumaça. Os Bastardos também teriam visto e provavelmente estavam sorrindo naquele momento. Correram para a entrada da cidade, por onde tinham entrado quatro horas atrás, hesitantes mas confiantes que finalmente teriam a vitória que tanto precisavam. Agora eram rechaçados como cachorros e viam escapar o que tanto tinham almejado em todos aqueles meses de preparação e trabalho. Viu um grupo grande de Bastardos oferecer combate e não pensou duas vezes. Disparou o DMT, que fincou numa torre de vigia e alçou voo colocando-se alguns metros à frente do grupo que o seguia e dali de cima focou o grupo inimigo que se aproximava bem armado. Fez um gesto sutil com as mãos. As chamas negras envolveram o corpo de dois, depois mais três e, em breve, dezesseis inimigos queimavam e berravam correndo em todas as direções. Os soldados que vinham logo à frente trataram de proteger-se das chamas inextinguíveis. As chamas negras eram cruéis e implacáveis com os inimigos mas impossíveis de serem controladas e, se atingisse algum aliado, este estava também irremediavelmente condenado à morte.
Rapidamente o grupo inimigo pereceu e os soldados puderam avançar. O caminho estava aberto para os veículos agora e havia inúmeros corpos no chão, de inimigos e aliados. Um vento sombrio uivou levantando mais areia em torno da entrada da cidade e temporariamente camuflando-os, servindo como cobertura. Eram dotados, certamente, manipulando os ventos para que servissem como aliados. Rapidamente os sobreviventes começaram a encher os veículos e os esquadrões de elite dirigiram-se a seus cavalos que estavam amarrados em árvores mais distantes dali. Por sorte, os Bastardos não haviam localizado os cavalos, do contrário os teriam roubado. Rivaille aguardou o capitão alcançá-los e esporeou seu cavalo. Viu a cidade, o poço e a esperança ficarem para trás numa tempestade de areia, fogo e sangue.
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Deuses e Homens
FanfictieNum mundo destruído pela própria ganância e ambição da humanidade, o que restou desta enfrenta o seu predador natural: criaturas humanóides quase indestrutíveis que devoram qualquer ser humano que estiver por perto. Recuada para dentro de suas cidad...
