Reiner foi pra casa com uma bandagem na cabeça e um galo enorme, mas o que estava realmente fazendo sua cabeça doer eram as reclamações de sua mulher.
Mal havia chegado e ela não parava de perturbar-lhe, nem parecia intimidar-se com os seus curativos, tampouco sentia pena ou preocupava-se com seu bem estar; a única coisa que interessava para ela era tudo aquilo que ele porventura não havia feito. Fiquei dias sem notícias suas e nenhum dinheiro em casa, pois o que deixou não foi suficiente para o mês, ou, porque não aproveitou que estava fora e não nos trouxe mais carne, ou ainda, onde está o vestido bonito que me prometeu? Afinal, você não ficou quinze dias na muralha Rose?
A esses lamentos Reiner costumava destinar nada além de um murmúrio de concordância e meia atenção e assim havia se treinado para suportar sua esposa dia após dia, mas naqueles dias específicos, não viu-se capaz de manter a proeza. Cada palavra dela o irritava, cada som estridente que saia daquela garganta lhe dava uma vontade visceral de cometer um homicídio. De repente tudo ficou pesado demais — o casamento, as obrigações, a falta de perspectiva — e ele deu um basta. Quando a mulher engrenou numa lamentação sem fim sobre como os maridos de suas colegas eram ainda românticos e agradáveis apesar de todas as sabidas dificuldades que todo mundo daquele lado dos muros enfrentava, e como ele na posição em que estava tinha muitos mais regalias que qualquer um e mesmo assim continuava se comportando feito um brutamontes que nem presenteava sua mulher com um vestido, ele, sem proferir palavra, levantou-se bruscamente e começou a arrumar uma pequena mochila.
— O que pensa que está fazendo? — a mulher surpreendeu-se num misto de curiosidade e fúria — Já vai partir de novo? Foi pra isso que arranjou esse novo emprego, pra não ficar mais um minuto em casa?
— Adivinhou, foi exatamente por isso, mas mesmo assim não foi suficiente! Mesmo que eu tenha que passar só um dia por ano com você, eu não posso aguentar!
— O que está dizendo?
— Não posso ser mais claro. Eu não aguento mais você. Não aguento mais você reclamando no meu ouvido.
— Eu sabia! Sabia que você nunca havia me amado! Sempre soube! Todos esses anos pra você devem ter sido um martírio, e agora, encontrou a chance de se ver livre de nós! Sua família, que devia ser a coisa mais sagrada de sua vida, tornou-se um estorvo para você!
— Foi você que me obrigou a isso.
— Nem pense em colocar a culpa em mim, a única culpa que existe é a sua, por ser um egoísta, interesseiro e irresponsável! Abandonar a mulher e os dois filhos pequenos é um ato covarde, egoísta e cruel!
A gritaria obviamente atraiu a atenção de vizinhos, mas estes se limitaram a espiar pelas portas e janelas.
— Eu não queria deixar meus filhos, mas não posso levá-los comigo.
— Claro que não, a vadia que você arranjou na estrada com certeza não iria gostar!
— Do que está falando?
— Eu sempre fechei os olhos às suas bebedeiras, aos seus excessos e aos seus casos! Você acha que eu sou alguma espécie de idiota? Acha que eu não sei que quando ia aqueles bares quando trabalhava na polícia era pra arranjar mulheres que não valiam nada? Mas eu sempre suportei tudo isso porque você voltava pra casa! Agora você arranjou uma vadia destruidora de lares que te tirou de mim, de sua família!
— Eu não tenho ninguém! Não invente coisas!
— Quem é ela? Alguma mulher fácil, ou uma dotada? Não, uma dotada não se misturaria a gentalha que você é!
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Deuses e Homens
FanfictionNum mundo destruído pela própria ganância e ambição da humanidade, o que restou desta enfrenta o seu predador natural: criaturas humanóides quase indestrutíveis que devoram qualquer ser humano que estiver por perto. Recuada para dentro de suas cidad...
