Capítulo 7

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Quando seus hematomas haviam desaparecido e seu rosto estava suficientemente bom, Annie foi visitar a irmã na Escola de Dotados. A escola ficava na muralha Rose, e seu acesso a ela era liberado principalmente agora por fazer parte do Esquadrão de Elite. Antigamente tinha que apresentar uma carta de autorização assinada pelo diretor da escola atestando que possuía parentes na muralha Rose e que isso justificava sua entrada. O governo temia que se não controlasse rigorosamente o acesso aos demais níveis da cidade, alguns espertinhos podiam fixar-se ali em moradias ilegais.

Vista de cima, a muralha Maria era bem mais cinza e feia do que vista de perto. Parecia um borrão negro na paisagem verde, cheia de chaminés, animais vira-latas e pessoas atarracadas que se fundiam ao ferro e aço do maquinário. De um lado, os telhados uniformes das fábricas e um emaranhado horrível de casas que lembrava um cortiço, do outro, os grandes quartéis e centros de treinamento do exército e os casebres velhos de dois andares um iguais aos outros dos residentes do bairro. Juntos, aqueles dois cenários apáticos formavam uma mancha, sem vida e sem encanto, onde se concentrava a maior parte operária da população. Seria exagero dizer que as condições de vida na muralha Maria eram horríveis — podiam ser muito piores, mas pelo menos não faltava alimento nem saneamento básico — mas era tão discrepante se comparado ao resto da cidade inteira que era quase impossível não se criar um certo ressentimento.

Sua irmã Natalia agora tinha doze anos. Estava na escola desde os dez, quando os primeiros sinais do dom começaram a aparecer. Não era comum desenvolverem o dom nesta idade tão prematura, mas também não era tão raro, tanto que a cidade havia se preocupado em preparar uma estrutura para estes casos. Na Escola de Dotados sua irmã aprenderia a controlar e desenvolver seu dom com segurança, além de estudar as matérias fundamentais que ela teria na escola comum.

A Escola de Dotados era uma construção bem pequena de apenas três classes, no interior da muralha Rose. Próximo dali ficavam duas antigas casas das grandes famílias, Rivaille e Tsuhara, que haviam sido reintegradas as posses das mesmas quando o governo conciliou-se com os dotados após a Grande Revolta. Eram casarões lindos, que lembravam pequenos castelos, cercados por uma exuberante mata e riachos que corriam tranquilos e cristalinos para desaguar na colina fora dos limites dos muros. Annie tinha muitas saudades de quando era uma estudante e ia e voltava da escola todos os dias. Todas as escolas ficavam na muralha Rose, e era a única época que crianças das três muralhas se encontravam e eram tratadas como iguais. Annie estudou ali somente até os treze anos, quando começou o serviço militar, mas outras crianças da muralha Rose e Shido que seguiam profissões qualificadas estudavam até os dezenove anos.

Encontrou Natalia ajudando na pequena horta da escola, após os estudos. A escolinha contava ainda com um pequeno alojamento para os dotados, além de um curral para porcos e um pequeno galinheiro. Natalia era uma menina formosa e muito inteligente, que tinha tudo para ser uma estrela do Esquadrão de Elite, tamanha era sua capacidade. Mas a garota não se interessava por assuntos militares, muito menos de batalhas e disputas. Queria ser médica, ou arquiteta, ou artista, alguma coisa profundamente diferente do que seria provavelmente seu caminho e Annie torcia para que ela mudasse de ideia logo ou certamente iria sofrer.

Conversaram animadamente sobre todos os assuntos amenos que Natalia adorava — intrigas de seus colegas de escola, paqueras inocentes, festas que ocorreriam nos limites da muralha Rose naquele mês, a nova peça que estrelaria no Anfiteatro e a quantidade de alunos que haviam se transferido das outras cidades no último semestre.

— Logo vão ter que aumentar uma turma — disse Natalia muito tranquila — parece que o número de dotados precoce está aumentando a cada ano, disse uma professora.

Aquilo podia significar uma coisa boa — o número de dotados também devia estar aumentando, pensou Annie.

— Tenho uma grande novidade — falou Annie prendendo a respiração — Lembra-se da profecia da sacerdotisa que eu te contei, de quando eu tinha a sua idade?

— Claro que lembro! — respondeu Natalia, empolgada.

— Ela começou a se concretizar — Annie sentiu a face queimar só de pensar nisso — Eu conheci o tenente Rivaille.

Natalia soltou um gritinho, sendo repreendida por Annie, que queria segredo absoluto de tudo que lhe contava.

— Como? — a outra perguntou num fio de voz.

- Eu e Mika tivemos nossa candidatura aceita no Esquadrão de Elite, e adivinhe quem será nosso superior?

— Pelos deuses! E como ele é? É gentil? É cavalheiro? Ele já te deu flores alguma vez? Já te convidou pra jantar?

Annie fez uma careta enquanto pensava como responderia aquelas indagações sem destruir pra sempre a imagem de Rivaille para a irmã. Depois, pensando melhor, ficou se indagando como responderia para si mesma aquela pergunta. Não, irmãzinha, ele não é gentil nem cavalheiro, muito pelo contrário. Tem um gênio dificílimo, é muito duro, não faz distinção entre homem e mulher e permitiu que um recruta de outra equipe me desse uma surra só para provar seu ponto de vista.

— Ainda não tivemos chance de nos conhecermos — optou pela meia verdade, a redentora dos que tinham que mentir e não sabiam como — os treinamentos são muito puxados.

— Claro, mas ele sendo seu superior, vão ter chances de sobra para isso, não?

— Certamente — Annie sorriu — Aproveitando, agora que sou do esquadrão, vou passar muito mais tempo fora. As missões costumam ser longas, podendo inclusive se prolongar indefinidamente.

- Oh, você vai começar a sair da muralha! — Natalia só se deu conta disso naquele momento pela primeira vez – Quantos perigos não a aguardam, a você e ao irmão! Está ansiosa?

— Claro... Qualquer um ficaria. O mundo deve ser incrível lá fora.

— E assustador — a pequena encolheu-se.

— Mas não se preocupe. Rivaille é o tenente mais forte do esquadrão. Ele vai nos proteger — deu um beijo no cabelo perfumado da irmã e seu coração encheu-se de amor — Cuide-se enquanto eu estiver fora e obedeça sempre aos professores.

Annie praticamente criara Natalia, e por isso ela saiu tanto como a ela — sonhadora, romântica e um pouco avoada. Esperava que a vida não batesse nela de forma dura demais e a moldasse a ferro e fogo como aconteceu com ela mesma... Quando passou a não ter mais tempo para sonhar, a não ser quando estava de fato dormindo.

Deuses e HomensOnde histórias criam vida. Descubra agora