A tripulação desembainhou suas espadas e ergueu seus arpões.
De trás das árvores escuras que cercavam a clareira a tribo canibal de que o capitão falara surgiu. Eram pequeninos, vestidos com armaduras de ossos humanos e espinhas de peixes. Pinturas azuis e bancas por todo o corpo imitavam o padrão de escamas e seus cabelos eram trançados com conchas.
Conchas que não deveriam existir naquele lugar tão longe do mar.
O capitão arrancou a flecha da parede atrás de si, fazendo sinal para que Titus tomasse a dianteira. O nativo, tão pequeno quanto os guerreiros de Garganta, embora fosse ligeiramente maior, começou a falar em uma língua musical, rápida e enrolada. Lanças continuavam apontadas para ele e para o capitão, mas ninguém mais tinha sido atacado, ainda. Os nativos estavam ouvindo.
A líder era uma mulher magra, com pés descalços calejados, pele ressequida e longos cabelos brancos enfeitados com uma estrela do mar no topo, tal qual uma coroa. Ela parecia uma pequena múmia com grandes olhos brilhantes por trás de uma meia máscara de ossos. Quando ela falou com Titus o restante dos guerreiros recuou. Titus respondeu e ela gargalhou a ponto de jogar a cabeça para trás e chacoalhar o corpo mirrado. Os guerreiros se entreolharam murmurando e o capitão fez uma careta.
— Se importaria de compartilhar a piada conosco, Titus? — resmungou.
Titus voltou-se para o capitão sem dar as costas para a mulher que ainda ria. Parecia constrangido.
— Maúma diz que somos todos tolos, mas que parecemos apetitosos.
— Diga que não estamos aqui para sermos uma refeição.
Titus lambeu os lábios.
— Já disse, capitão. Expliquei que estamos buscando o elixir da vida e ela respondeu que o elixir da vida é o que todos os homens expelem pelo p...
— Já entendemos. — o capitão o cortou irritado. — Não estamos atrás desse elixir. Eu acho. — ele lançou um olhar esquisito à Serena e Erik, arqueando uma sobrancelha. Erik parecia estarrecido.
— Definitivamente não estamos atrás desse tipo de elixir. Ou eu não precisaria ter saído de casa. — disse o príncipe.
— Foi o que eu pensei. — resmungou o capitão.
Titus trocou mais algumas palavras com a mulher que parara de rir. Quando falou sua voz agora era mais severa e ela gesticulava energicamente na direção da tripulação.
— Ela insiste que somos tolos ousados por pisar na terra sagrada da Garganta. Disse que somos algo como porcos ignorantes. — Ele franziu a testa. — Na verdade acho que a tradução literal seria baleias desdentadas.
Miguel ergueu a mão.
— Como você pode ter traduzido porcos ignorantes para baleias desdentadas?
Titus piscou.
— É um ditado da Garganta. Eu só aproximei.
— Eu me pergunto como ela já viu uma baleia. — resmungou o capitão numa pergunta retórica, mas que Titus respondeu do mesmo jeito.
Aparentemente a Garganta e tudo o que havia do outro lado da colina um dia fora mar até que um terremoto rachou a colina e escoou as águas, restando apenas um grande lago de água salgada no centro de suas terras, um lago cujas margens não eram férteis, mas que ainda guardava os últimos ancestrais milenares dos deuses marinhos do passado — e dos quais diziam que a tribo descendia.
— Maúma diz que os seres do lago dos ossos os protegem dos monstros dos céus e dos invasores e que se quisermos qualquer coisa da tribo devemos passar pelo jugo dos deuses.
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O Devorado
RomanceE se a pequena sereia se apaixonasse pelo príncipe errado? O herdeiro do trono da Dinamarca está em busca de um elixir miraculoso que resolveria todos os problemas de um homem. Serena, sua companheira de viagem, é a sereia que um dia o salvou de um...
