Espuma branca do mar tocava os degraus do templo que anos atrás fora testemunha de um naufrágio e do começo de uma história de amor. Agora essa mesma escadaria era a testemunha do desfecho dela.
Era para os amantes terem morrido na grande explosão que desaparecera com o Benevolente, mas acontece que Una era terrivelmente romântica e até que gostava de humanos. Ela estendera uma pequena bênção ao belo e corajoso príncipe, que ela tinha que admitir que se fosse mais jovem, ela mesma teria se aventurado a ir caçar em terra, e quando o feitiço da sereia finalmente foi quebrado, uma bolha de magia os protegera.
Bem, é claro que eles acordariam com uma bela dor de cabeça, mas estavam vivos. E livres.
Una sorriu. Eles tinham proporcionado uma bela história de amor, a bruxa do mar estava satisfeita.
Ela agarrou com um tentáculo branco a adaga de prata encantada e o levou de volta consigo para a Fenda, onde esperaria a próxima aventura, o próximo encanto, o próximo príncipe apaixonado ou sereia aventureira. Ninguém a veria por algum tempo, mas muitos ouviriam sua história, agora pelos lábios da própria sereia.
Foi o toque gentil do sol quente que acordou Soren. Ele estava estendido na areia aos pés da escadaria do convento de Santa Agnes, o mesmo lugar onde Serena o salvara antes. Ele apreciou a ironia. Depois, lembrando-se dos acontecimentos da noite anterior, sentou-se apressado, verificando que surpreendentemente estava vivo. Não entendeu como, mas ao olhar ao redor encontrou uma conchinha branca com um leve brilho. Era igual as conchas que enfeitavam a roupa da bruxa do mar e ele a agradeceu silenciosamente.
Sendo constantemente lambida pela maré, o capitão notou que sua cauda permanecia intacta. Ou quase. Algumas escamas estavam faltando e uma barbatana estava cortada, mas nada que não fosse se recuperar. Ele só esperava não ser atacado por um tubarão desavisado enquanto voltasse para o navio, confundido com uma foca desgarrada.
Ele passou a mão pelo corpo verificando que estava bem, sentiu o vidrinho da panaceia ainda em seu pescoço e rolou os olhos. Finalmente olhou para o outro lado e perdeu o fôlego. A visão dos seus sonhos o aguardava bem ali, em forma de sereia.
Serena era ainda mais linda em sua forma verdadeira.
Os cabelos loiros estavam espalhados na areia e um siri curioso caminhava pela pele pálida de suas costas. Aksel o espantou, mas não ousou tocá-la. Ficou aliviado ao sentir o suave movimento de sua respiração e se deteve para contemplar a cauda cor de rosa. Era um tom pálido de rosa que ao sol parecia refletir os tons do arco íris. Um contraste gritante com as barbatanas negras dele.
Como se saindo de um transe, Aksel se obrigou a puxá-la com cuidado para seu colo, onde verificou se não estava ferida. Quando teve certeza que ela só dormia um sono exausto depois de finalmente ter quebrado seu feitiço, permaneceu com ela em seus braços... cantando para embalá-la. A mesma canção que ela cantara para ele e que ele jamais esquecera.
Ele posicionou suas caudas ao sol, nos degraus do templo, para que secassem. Perdeu a noção de quanto tempo ficara ali, mas logo as escamas de Serena estavam secas e se transformando em um vestido de contas e conchas cor de rosa para cobrir as belas pernas que ela tanto arriscara para ter. Bem, pelo menos ela não ficaria nua ali.
Aksel se afastou e voltou para a água. Suas escamas pinicando com os arranhões da explosão. Ele se perguntou o que faria a seguir. Esperaria Serena acordar? Ela com certeza perceberia que o feitiço se fora. E depois? Drake também se fora, de forma que não havia mais uma ameaça. E se continuassem com a mentira não haveria mais Soren.
Nem falso, nem verdadeiro.
Se fosse embora naquele exato momento, ninguém saberia que ele sobrevivera e Soren estaria livre para ser o pirata que ele amava ser. O capitão Aksel, o devorado.
Mas conseguiria viver em paz sabendo que mentira para o irmão?
VOCÊ ESTÁ LENDO
O Devorado
RomanceE se a pequena sereia se apaixonasse pelo príncipe errado? O herdeiro do trono da Dinamarca está em busca de um elixir miraculoso que resolveria todos os problemas de um homem. Serena, sua companheira de viagem, é a sereia que um dia o salvou de um...
