Elga debruçou-se sobre a escrivaninha querendo amassar a carta que acabara de ler. Ou lacrá-la de novo e fingir que nunca tinha lido. Ela sabia que devia ter aberto aquele envelope antes, mas como uma cega querendo ignorar o precipício que sente que está surgindo sob seus pés, ela seguiu em frente ignorando a correspondência por dias até seu marido enviar uma nova carta, desta vez exigindo que ela abrisse a missiva de Mestre Joris.
Agora aqui estava ela, uma rainha que deveria estar arranjando o casamento do filho, mas ao invés disso estava se perguntando se teriam mesmo um noivo.
— Ora, Erik, seu garoto inconsequente! — resmungou conforme várias emoções passavam por ela como em uma gangorra. Elga tinha certeza que seus cabelos tinham perdido a cor por causa de seus filhos. Será o que o universo não poderia tê-la abençoado com uma velhice tranquila e lindos netinhos sossegados?
Não, a vida a havia presenteado com um filho que se afogara e com um que fugira com piratas.
Piratas!
O que havia com os príncipes da Dinamarca e o mar?
Trêmula, agora que o medo começava aos poucos a abrir caminho em seu peito, ela pegou uma pena e molhou no tinteiro, respingando tinta em todos os papéis de carta espalhados na mesa. Há quanto tempo Erik estava no mar com esses sarnentos? Há quanto tempo vinha mentindo para os pais? Ela sempre tinha achado estranha essa história de estudar na Espanha, até porque o internato era só para homens e a garota, Serena, não tinha nada que fazer naquele país junto dele. Ela devia ter desconfiado que os dois estavam fugindo juntos.
Elga parou, surpresa com os próprios pensamentos. Será que Erik e Serena tinham fugido para ficar juntos?
Não, não podia ser. Erik sempre fora apaixonado pela garotinha que o salvara naquele fatídico dia. Ele vivia falando nela. Elga tinha ficado até surpresa em nunca ter adivinhado antes de quem se tratava. Levara anos para investigar todas as filhas de nobres conhecidos que em algum momento tinham passado pelo convento de Agnes antes de finalmente se dar conta de que a jovenzinha só podia ser a filha do Visconde.
Em outras palavras, Erik já poderia estar casado e sossegado há anos, não fosse esse descuido dela.
E pensar que justo agora que estava resolvendo as coisas ele inventara de fugir!
Com piratas!
Uma dor de cabeça gigante se aproximava, ela já podia prever. Tanto no sentido figurado quando no literal.
Mas será mesmo que eles não tinham fugido para ficar juntos? Elga parou de escrever para o rei mais uma vez, pensativa. Os criados já tinham comentado vez ou outra que a jovenzinha parecia enamorada do príncipe, suas camareiras haviam dito. Mas Serena era a filha desmemoriada de algum baronete que naufragara e perdera tudo. Ela não podia se casar com o futuro rei da Dinamarca, portanto era importante nem se deixar comover com essa história.
Se eles tinham fugido para ficar juntos e se Erik a incentivara a essa loucura, ele seria totalmente responsável pelo coração partido da jovem. Elga não iria poupá-lo. Ele sabia que a coroa agora era dele e que seu futuro estava permanentemente vinculado ao reino.
Sem escolha.
Ela desistiu da carta quando percebeu que tudo o que havia na sua frente era um papel cheio de borrões e excesso de tinta, com linhas tortas devido ao nervosismo e letras incompreensíveis até para Mestre Joris, o tutor super bem recomendado — e caro — de Erik.
— Minha senhora?
— O que é? — Resmungou a rainha quando um dos criados apareceu na porta. Ela não teria se dado ao trabalho de erguer o olhar se algo na voz trêmula dele não tivesse chamado sua atenção. O criado estava pálido e, por baixo de sua casaca, parecia mais trêmulo do que a própria voz. — Por Deus, homem, o que houve? Alguém declarou guerra contra nós?
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O Devorado
RomanceE se a pequena sereia se apaixonasse pelo príncipe errado? O herdeiro do trono da Dinamarca está em busca de um elixir miraculoso que resolveria todos os problemas de um homem. Serena, sua companheira de viagem, é a sereia que um dia o salvou de um...
