O sol mal tinha nascido quando Erik deixou o palácio decidido a convencer o pai de que o capitão poderia ajudar com Soren. O irmão tinha sido isolado em uma das torres do castelo principal, onde os médicos da corte podiam ficar de olho nele e em qualquer alteração em seu estado de... loucura. A palavra trazia uma sensação ruim à Erik, o sufocava como um laço apertado no pescoço. De alguma forma seus pais tinham conseguido abafar todos os rumores e comentários maldosos sobre Soren, mas o mal estar permanecia. Por mais que não se falasse abertamente sobre o assunto todo mundo sabia que Erik agora era o herdeiro porque Soren se tornara um incapaz, um louco escondido em uma torre, que se tivesse a mínima chance de vislumbrar o mar se afogaria na tentativa de ir ao encontro da sereia que o seduzira um dia, tantos anos atrás.
Erik ainda se lembrava da manhã, pouco tempo depois do naufrágio no aniversário de Soren, quando ele e a mãe foram mandados para o palácio de verão, que agora era oficialmente seu lar, o palácio da rainha, como tinham passado a chama-lo. Era uma viagem de quatro horas entre um palácio e outro, mas uma distância o suficiente para que os rumores se dispersassem. Sua mãe costumava dizer que tinham se mudado para poupá-lo, afinal Erik era só uma criança e não precisava ficar traumatizado com o comportamento do irmão, sua cantoria desafinada e assustadora, como um lobo perdido, enquanto assistia as ondas sob o luar através das barras de ferro que instalaram nas janelas de seu quarto. Soren tentara jogar-se da janela por duas vezes na ideia absurda de que assim chegaria à praia mais rápido. Era como convencer um homem bêbado a se comportar. No final, não fora a cantoria, os chamados ou as tentativas de se afogar que tinham feito com que a rainha deixasse o filho mais velho para trás levando o mais novo consigo, mas o simples fato de que ela não suportava ver aquilo.
Erik não a julgava, ele a entendia.
Soren tinha sido o garoto de ouro. O príncipe encantado. Todos no reino o amavam... Talvez sequer a sereia tivesse resistido ao charme dele no final e por isso o devorara. Bem, ela podia ao menos ter feito o serviço completo, levando-o para o fundo do mar de vez e não deixando-o para trás nesse arremedo de vida.
Erik esfregou o rosto com a manga da camisa na tentativa de afastar esses pensamentos. Sempre que possível evitava pensar em Soren ou, quando se permitia, era sempre imaginando dias melhores, dias de cura. Foi assim que ele passou a buscar por soluções e acabara se deparando com a lenda obscura da Panaceia, da qual até mesmo ele duvidava da eficácia.
No final ele achava que com a proximidade de seu aniversário, de mais um ano sem Soren, mais um ano com o peso da coroa em suas costas, finalmente fizera o mesmo movimento que sua mãe dez anos atrás: Arrumara a primeira desculpa e partira.
Que sua fuga o tivesse levado diretamente ao encontro do capitão era um milagre que o enchera de esperança. Dessa vez de esperança real. Era só por isso que se enchera de coragem para falar com o pai e voltar ao palácio principal depois de tantos anos evitando-o.
Quando a carruagem parou em frente aos amplos portões o príncipe engoliu em seco antes de descer e percorrer a curta caminhada pelo cascalho até as portas da fortaleza. O hall estava fresco, ecos distantes dos criados podiam ser ouvidos aqui e ali com seus afazeres diários. O cheiro de sua infância não havia mudado. Erik caminhou tenso até o gabinete do pai, sempre alerta, mas sem saber o que esperava encontrar. Descobriu-se surpreso ao perceber que esperava ouvir a voz de Soren, ouvir uma das canções desafinadas de quando ele chamava a sereia. Mas não ouviu nada, sequer o tilintar de ferro que ele fazia ao forçar as grades. Nada.
Parecia até silencioso demais.
Então ele se lembrou que Soren tinha sido tirado do quarto e levado a uma torre mais distante depois de uma fuga quase bem sucedida. Desde então Soren ficava na torre sem janelas, até onde ele sabia, e distante o suficiente para que ninguém pudesse ouvi-lo.
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O Devorado
RomanceE se a pequena sereia se apaixonasse pelo príncipe errado? O herdeiro do trono da Dinamarca está em busca de um elixir miraculoso que resolveria todos os problemas de um homem. Serena, sua companheira de viagem, é a sereia que um dia o salvou de um...
