Capítulo 4 - O Novo Mundo

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Quando o navio finalmente atracou nas praias do Novo Mundo, Serena não tinha certeza se queria desembarcar para enfrentar o que quer que este lugar possuísse, principalmente se fosse como as harpias. Mas Erik estava empolgado, exultante, e quando finalmente atracaram o medo das aves horrendas já tinha se dissipado.

Ela, por outro lado, ainda impressionada, não saíra da cabine em nenhum momento. Não sabia se estava mais mexida pela visão das harpias, pelo ferimento que causara no Devorador, ainda que não tivesse a intenção, ou por se imaginar no lugar das criaturas, afinal também ela era metade animal e metade humana e vira a repugnância na face dos piratas.

Talvez a figura das sereias fosse mais romântica, mas continuava sendo um perigo, uma lenda a ser temida e odiada pelos homens. Mulheres metade peixe que afogavam marinheiros...

— Está todo mundo montando acampamento lá fora — disse Erik aparecendo na porta da cabine. — Desbastamos um pedaço da mata, montamos barracas e o capitão destacou dois homens para buscarem as tribos da região. — enquanto falava Erik foi andando pela cabine, abrindo as janelas e empurrando as cortinas que Serena fechara para não ter que correr o risco de ver outra harpia sendo assassinada. — Ele está bem, por sinal. — Erik acrescentou, lançando uma piscadela para Serena. — se é isso que a está preocupando.

Serena o olhou indignada.

O que você está insinuando com esse tom?

Erik piscou deliberada e inocentemente para ela.

— Estou insinuando que você é uma dama e que um pirata caiu em cima de você no dia anterior — ele bateu os cílios mais algumas vezes. — Não um pirata qualquer, mas o capitão lendário. Eu vi o jeito que te olhou.

Serena lançou uma almofada nele.

Ele não me olhou de jeito nenhum! Aliás, me olhou com raiva porque fui estúpida o suficiente para quase ser pega por uma harpia!

— Ache o que quiser, mas ele olha diferente para você. — Erik deu de ombros. — A tripulação toda está comentando. Olha com fome como se você fosse a última refeição do navio. — ele abriu um sorriso lento — como se quisesse te devorar.

O rosto de Serena esquentou e ela gostaria de ter mais alguma coisa para atirar na direção dele. Um arpão talvez. Seus dedos tremeram para formar no ar a única frase que ela queria que Erik lesse: "talvez ele me olhe como eu gostaria que você me olhasse". Mas, como sempre, perdeu a coragem e manteve as mãos abaixadas no colo.

Além do mais, ela nem sabia se o capitão a olhava de qualquer forma. Provavelmente não olhava.

E ela continuava não confiando nele e em sua estranha magia.

— Quer saber? — perguntou o príncipe, recostando-se contra a parede — acho que você também olha diferente para ele.

Serena abriu a boca em um protesto mudo e se pudesse gritar teria gritado que Erik era a única pessoa que ela olhava e que se seu olhar cruzava com o do capitão era porque ele era uma aberração com poderes que não deveria ter! Poderes que ela costumava possuir enquanto sereia e dos quais abrira mão para encontrar Erik! Aquele único por quem seus olhos se interessavam!

Com o rosto queimando de vergonha e irritação, Serena deixou o quarto pisando duro, sem se incomodar se ele a seguia.

— Eu estava brincando! — Erik gritou atrás dela.

Serena não olhou para trás. Com uma pontinha pálida de esperança se perguntou se Erik poderia estar com ciúme, o que trouxe um sorriso ligeiro para seus lábios, que ela ocultou com maestria ao pisar na areia fina da praia. Não havia harpias avista, os marujos tinham aberto uma clareira na mata. Caixas e barracas estavam instaladas entre as árvores e redes montadas entre os coqueiros, onde Miguel e outro homem cantavam e tocavam violão. Bartolomeu descascava cocos como se estivessem de férias. O capitão, só de calças uma vez mais, deixando suas tatuagens a mostra, caminhava na areia inspecionando tudo. Quando ergueu o rosto, se deparando com Serena, acenou brevemente antes de lhe dar as costas, onde a figura da mulher continuava congelada em tinta e pele.

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