O restante da madrugada foi tão tranquilo quanto poderia ser em uma minúscula ilha deserta no meio de um lago cheio de sereias famintas. Ao longe os pássaros noturnos e os grilos compunham sua canção da noite como se nenhum mal espreitasse a terra. Os marinheiros aos poucos, depois do capitão repetir incontáveis vezes que as sereias não voltariam — acrescentando a cada vez um toque mais forte de sedução para convencê-los — acabaram adormecendo encolhidos uns contra os outros. Erik, estranhamente silencioso depois da aparição da sereia, não dormira, mas passara o restante das horas apertando a mão de Serena com os olhos vidrados no lago. Por um momento ela se preocupou de a canção da sereia tê-lo afetado de alguma forma, mas passado algum tempo Erik piscou, suspirou e perguntou se ela estava bem. Não havia nenhum traço da loucura de um devorado em seus olhos.
Quando o céu por fim clareou, os homens começaram a se preparar para regressar à tribo. Alguns se ergueram e esticaram as pernas, outros bocejaram se espreguiçando, quase esquecidos da tensão que haviam enfrentado.
O capitão já estava a postos na margem, mirando a água imóvel que refletia o amanhecer. De dia o lago era cinzento e sombrio, uma névoa fina se juntando na margem oposta como que para ocultá-lo. Mas, quando o primeiro raio de sol tocou a areia estéril da margem dispersando as nuvens frias, o primeiro guerreiro surgiu com sua máscara de ossos e uma lança afiada. Era possível ver seu espanto mesmo à distância.
O guerreiro vinha num passo tranquilo e despreocupado, como se não esperasse mais do que o trabalho de verificar se as sereias tinham feito uma boa refeição. Ele claramente não estava preparado para ver todo o grupo apinhado no centro da ilha, esperando ansioso para ser levado embora. Ele os contou na ponta dos dedos, sem disfarçar, então largou a lança e saiu correndo. Os marinheiros resmungaram e Serena pensou ver o esboço de um sorrisinho na face presunçosa — embora um pouco cansada — do capitão.
Alguns minutos depois o guerreiro voltou acompanhado pela comitiva de Maúma, igualmente perplexa. A jangada foi finalmente colocada na água e o mesmo homem que os levara até a ilha na noite anterior fora busca-los.
O capitão e Miguel foram os últimos a fazerem a travessia e embora o Devorador não esboçasse nenhuma emoção, seu imediato estava exultante. Serena já imaginava Miguel se gabando de ter escapado ileso de um encontro com sereias, essa seria sua grande história dos próximos anos. Ele estava assoviando uma canção animada, que contrastava com a manhã silenciosa, quando pisou na margem. Um de seus pés tinha tocado a areia, o outro nem tinha saído da jangada ainda quando uma mão pálida, com garras afiadas, agarrou-o pelo tornozelo e o puxou para dentro do lago.
Os guerreiros gritaram e correram para longe da margem, os marinheiros atordoados tentaram resgatar o amigo, que no susto se agarrara ao capitão e quase o levara para a água junto. O Devorador só permanecera onde estava porque outros o seguraram.
Uma sereia com cabelos escuros e cauda verde arrastou-o de volta para ilha parecendo não precisar sequer se esforçar, mesmo enquanto o homem se debatia em suas garras, tentando manter o rosto para fora da água. A sereia da noite anterior surgiu na margem, aos pés do capitão, e os piratas que ainda estavam ali se afastaram correndo, tropeçando nos próprios pés.
— Vou levar seu amigo como garantia — disse a sereia na língua que só as da espécie dela e o capitão compreendiam.
O Devorador estreitou os olhos.
— É bom que você não o machuque, caso contrário terá perdido sua grande chance de ser livre.
A sereia sorriu com dentes afiados.
— É melhor que você mantenha sua palavra, caso contrário terá perdido um grande amigo. — ela piscou seus grandes olhos prateados e desapareceu na água.
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O Devorado
RomansaE se a pequena sereia se apaixonasse pelo príncipe errado? O herdeiro do trono da Dinamarca está em busca de um elixir miraculoso que resolveria todos os problemas de um homem. Serena, sua companheira de viagem, é a sereia que um dia o salvou de um...
