— Então, o que você achou? — perguntou o capitão depois de uma breve ausência onde desestabilizara as senhoras da corte. Serena ainda estava tentando se recompor do espetáculo. O capitão havia tirado seu chapéu tricorne e o estendera para as mulheres, pedindo que entregassem seus tesouros. Timidamente uma delas colocou seus brincos, depois outra depositou um bracelete no chapéu, uma terceira acrescentou um colar. Para cada joia o capitão tirou uma peça de roupa. As botas, o cinto, o colete... As senhoras foram se animando, embora protestassem. Seus rostos sérios e enrugados foram se acendendo e mesmo debaixo de sólidas camadas de pó de arroz, Serena podia vê-las corando.
A noiva de Erik havia sumido horrorizada para dentro do castelo.
E o capitão sequer estava usando muita sedução na voz.
Quando a última senhora depositou uma aliança antiga e valiosa, o capitão lançou uma piscadela à Serena e tirou a camisa, tirando arquejos de surpresa e reprovação das matronas que nunca tinham visto uma tatuagem tão grande antes. Uma delas tentou tocá-la, mas Aksel se esquivou com graciosidade. Então jogou todas as joias na fonte do jardim e induziu, com magia, que as damas pulassem atrás delas ao resgate, de modo que agora elas estavam chapinhando dentro da fonte, gritando como galinhas enquanto buscavam suas preciosidades.
O capitão estava parcialmente molhado, mas satisfeito enquanto recolocava sua roupa. Ele afivelou o cinto e encarou Serena, aguardando sua resposta. Ela parou de rir e gesticulou.
A rainha parece aborrecida.
De fato, a monarca tinha os braços firmemente cruzados e uma expressão severa enquanto encarava as amigas na fonte, mas um sorrisinho teimava em pairar no canto de seus lábios e Serena percebeu que olhava com certo estranhamento para o capitão, como se estivesse surpresa por ele conseguir fazê-la se divertir.
Ou melhor, como se o julgasse por se se atrever a fazê-la se divertir.
Na verdade, ela sempre parece triste. Serena acrescentou. Agora as coisas fazem mais sentido. E de repente a alegria que ela sentira também foi embora. Você irá ajudar?
O capitão, que chacoalhava o chapéu molhado, depois de tê-lo lançado na fonte em um arroubo de empolgação, parou no meio do gesto. Água respingando nas floreiras do jardim.
— Não sei em quê poderia ajudar.
Você já foi devorado.
O capitão deu de ombros.
— E você é uma sereia. Não deveria ser você a estar sugerindo soluções? — mas assim que as palavras deixaram sua boca, Aksel se encolheu em arrependimento. Ele fechou os olhos e balançou a cabeça. — Desculpe, foi injusto dizer isso. Sei que não quis devorá-lo de propósito, é apenas sua natureza.
Mas apesar das palavras acolhedoras dele e da euforia que percorria o jardim com as mulheres animadas ainda mergulhadas na fonte, ele tinha acertado em cheio o ponto fraco dela. Sim, era sua natureza. Não, ela não queria ter devorado aquele príncipe encantador por quem ela se apaixonara a ponto de trocar sua natureza para encontra-lo. Precisou reunir alguma coragem para soltar as mãos e perguntar: Você sabe o que aconteceu com o príncipe Soren? Digo, depois...
O capitão entortou a cabeça.
— Tenho suspeitas, mas estou esperando para descobrir.
Serena mordeu os lábios. Queria tanto falar... Desengasgar todas as perguntas paradas em sua mente. Ainda não se conformava de ter confundido os irmãos.
Aksel suspirou audivelmente, terminando de abotoar o colete.
— Parece que nunca saberei como conseguiu suas pernas. Neste caso, vamos lá ratinha, vamos manchar um pouco mais sua reputação e quem sabe convencê-la a falar. — ele lançou um sorriso malicioso à ela, então rolou os olhos ao vê-la recuando. — Eu sei que você não consegue falar e não, não vamos fazer nada escandaloso já que você parece perdidamente apaixonada por um dos seus príncipes, mesmo que não saiba reconhece-los. — Aksel ignorou o olhar furioso dela. — Pretendo pegar emprestado um dos cavalos da realeza e dar uma volta. Dois cavalos, se aceitar me acompanhar. Só vamos cavalgar e conversar em um local menos movimentado. — ele gesticulou para as matronas, que agora a rainha tentava arrebanhar, andando em volta da fonte enquanto erguia suas pesadas saias.
Nada mais fazia sentido e Serena precisava desesperadamente descobrir o que fazer. Fica no castelo não a ajudaria em nada e sua chance de elaborar um plano era na companhia do capitão, afinal, não fosse por ele ainda estaria se lamentando atrás de Erik, esperando virar espuma do mar quando ele casasse.
Ela tomou uma decisão. Se aprumou, respirou fundo... E segurou a mão estendida do Devorador.
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O Devorado
RomansaE se a pequena sereia se apaixonasse pelo príncipe errado? O herdeiro do trono da Dinamarca está em busca de um elixir miraculoso que resolveria todos os problemas de um homem. Serena, sua companheira de viagem, é a sereia que um dia o salvou de um...
