Capítulo 40

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- Então?

- Hum? - Henrique parecia estar em outro planeta, apesar da expressão serena ele parecia cansado, dia ruim talvez.

- A suíte? - Fui direto ao ponto assim acabaríamos logo e cada um voltaria para sua casa.

- Suíte? Ah, sim, a suíte.

- Isso.

- Recebi a ligação hoje pela manhã, a obra está avançando bem e a estrutura suporta.

- Oh. - Vou finalmente trabalhar com a Olivia!

- De nada.

- Obrigada. Já pediu algo?

- Não, esperei por você. - Ele realmente não parecia bem, o restaurante estava ficando cheio demais e o barulho de tantas pessoas falando ao mesmo tempo começou a incomodar meu cérebro, então lembrei de uma coisa.

- Vamos. - Levantei esperando que ele me seguisse, o rapaz na porta me olhou confuso e sorri. A noite estava bonita demais para ficar presa lá dentro, me apoiei na parede do restaurante e tirei os saltos.

- Onde estamos indo e por que está descalça?

- Preciso andar um pouco, não aguento mais ficar dentro de um carro ou de um prédio.

- Mas precisar ser essa hora?

- Sim, qual outra hora tem aquela lua? - Apontei para o céu e vi os olhos de Henrique se arregalarem um pouco.

- Porra - Dei um tapinha no braço dele. - Desculpe.

- Vem. - Eu sabia exatamente para onde ir, peguei a mão dele e o puxei. O bairro não era tão movimentado naquele horário, passamos por algumas pessoas e carros, Henrique caminhava em silêncio ao meu lado, vez ou outra segurando minha mão de maneira mais firme, o olhar vago mostrava que ele se perdeu em pensamentos. Cerca de 20 minutos depois avistei a grama verde do central park, soltei a mão de Henrique e corri até lá sentindo a grama embaixo dos meus pés, o vento de primavera fazia com que pétalas de flores rolassem pela grama, andei até uma área aberta e deitei encarando o céu, a lua parecia ainda maior.

- Me sinto um velho tentando acompanhar você. - Henrique estava ofegante, o que me deixou curiosa, como ele mantém aquele físico?

- Você é velho, deita aí.

- O que? Não vou deitar nessa grama, Nicole. - O riquinho tem medo de grama.

- Henrique?

- O que?

- Quer receber um salto de 300 dólares na cabeça?

- Não?

- Então deita na porcaria da grama.

- Quanta delicadeza.

- Obrigada. - Ele deitou ao meu lado. Comecei a contar quantos sons diferentes passavam ali, uma ambulância, avião, algum carro esportivo testando quão rápido conseguia ir, vozes vindo da sacada de algum edifício, passamos acho que uma hora assim, achei que Henrique estivesse dormindo até que ele se mexeu ao meu lado. - Como foi seu dia?

Eu não sabia o que perguntar.

- Ruim. - Fui pega de surpresa já que ninguém pergunta isso esperando uma resposta negativa, é sempre um ''bom'' e segue a vida.

- O que aconteceu? - Ele não disse nada. - Não precisa contar.

E morre uma fofoqueira.

Ficamos mais um tempo ali, me concentrei no farfalhar das árvores, nas poucas nuvens que vez ou outra me impediam de ver a lua, as poucas estrelas que era possível observar daquele ponto da cidade, mas o silêncio começou a me incomodar. Estava pronta para reclamar quando me virei para ele, gotas brilhantes rolavam de forma dramática pelo rosto dele, tentei não entrar em pânico.

Nunca soube o que fazer em situações assim, não consigo chorar na frente de pessoas e quando alguém chora meu divertidamente do medo entra em colapso, eu deveria perguntar se está tudo bem?

- Você... - Não terminei a pergunta, Henrique cobriu o rosto com uma das mãos enquanto seu peito subia e descia em ritmo acelerado, ok, o que eu faço agora?

Sentei tentando raciocinar uma frase que ajudasse em algo. Tirei a mão que ele encobria o rosto, os olhos avermelhados me encararam, ele parecia... culpado?

- Não precisa ter medo de chorar. - Acho que a frase atingiu os dois. - Quer deitar no meu colo?

Todos vocês, estranhos aleatórios que vivem na minha cabeça, não ousem dizer uma palavra sobre a pergunta que acabei de fazer.

Ele me encarou, provavelmente tão surpreso quanto eu e vocês, Henrique se sentou tirando o terno, dobrou e colocou na minha perna, onde apoiou a cabeça.

- Não quero estragar esse maldito vestido vermelho.

- Qual o problema com meu vestido?

- Quase me deu um infarto.

- Usarei mais vezes.

- Meu cardiologista agradece. - Sorri.

Acho que já passava da meia noite, o barulho de buzinas diminuía mas nunca parava, inconscientemente levei a mão ao cabelo dele, as mechas que faziam pequenas curvinhas no fim, a respiração dele se acalmou minutos depois, senti seu polegar fazer movimentos circulares um pouco receosos na minha perna. Agora não apenas estávamos em silêncio, mas Nova York inteira parecia ter sido colocada no volume zero.

- Está tarde, vou levá-la para casa. - Henrique falou ficando de pé, ele estendeu a mão para mim e me joguei na grama novamente, não quero. - Posso arrastar você pelo pé, Pimentinha.

- Vai acabar vendo minha calcinha.

- Me dê o pé, Nicole. - Que audácia. Me levantei sem encostar na mão dele e saí andando, parei logo depois.

- Deixou o carro no restaurante? - Henrique me olhou sem entender e logo depois sua boca se abriu em um 'o'. - Vamos andando?

- Não era você que queria andar?

- Não até a minha casa.

- Tudo bem. - Ele andou até mim ficando de costas. - Pode subir.

- Haha, muito engraçado.

- Não estou brincando.

- Eu não vou.

- Terei que obrigar você, infelizmente.

- O que? Não! - Aqui, senhoras e senhores, testamos se correr na esteira realmente é útil. Enrolei a saia do vestido de maneira bagunçada e corri.

- Nicole, pelo amor de deus! - Eu conseguia ouvir os passos pesados e mais rápidos do que eu esperava me seguindo, mas estava concentrada em não cair com a cara no concreto. Segui correndo pelo caminho que eu já sabia de cor, já havia feito aquele percurso milhões de vezes, nunca correndo, mas sabia que seria rápido.

Eu estava claramente errada, sentia minha perna queimar, não sabia se Henrique ainda me seguia ou se havia caído no bueiro sem tampa que passei há alguns minutos, virei na última rua, quase saltitei quando avistei as luzes do meu edifício. Parei poucos metros antes, perto de um banco de madeira, não consegui andar até ele, tentei controlar a respiração quando ouvi o que parecia um cavalo com falta de ar, olhei para trás, onde ele estava parado com as mãos nos joelhos, a camisa social branca enrolada até o cotovelo, não sei onde o terno foi parar.

- Caralho, Nicole. - Ele falou com dificuldade.

- Cadê seu terno?

- Caiu no esgoto.

- Ah, chegamos. - Ele levantou o olhar e apontei para onde morava, Henrique sorriu. - O que?

- O engenheiro tem bastante talento. - Não...

- Não.

- Sim, Pimentinha.

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Dama de EspadasOnde histórias criam vida. Descubra agora