Capítulo 27

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Olhei mais uma vez o relógio na parede, o tic tac ecoando na minha cabeça, era sempre a mesma coisa, olhei a tela do notebook novamente com apenas meu nome na chamada, tic tac tic tac, chequei meu telefone esperando um cancelamento mas nada, nenhuma notificação, mil maneiras de cancelar rodearam minha cabeça, não hoje, preciso disso. Soltei a respiração quando a segunda pessoa na ligação apareceu.

-Oi, Nicole.- O rosto familiar e ao mesmo tempo assustador me recepcionou com um sorriso, minha terapeuta.

As pessoas sempre dizem para as outras fazerem terapia, é saudável, vai lhe fazer bem, mas ninguém conta da ansiedade que surge sobre contar sua vida para um completo estranho. Passei toda minha vida lidando sozinha com meus problemas, não é simples confiar seus medos a alguém.

-Oi.- Senti minha garganta seca lembrando do porquê marquei esse horário de emergência.

-Como estamos hoje?

-Bem, um pouca estressada com a obra.

-Quer me contar o que aconteceu?- Contei 3 respirações enquanto organizava as palavras na minha cabeça.

-Desmaiei algumas semanas atrás por achar que uma pessoa ia me matar mas na verdade ele não fez nada, eu só pensei demais sobre o que aconteceu antes e achei que ele era um psicopata...e...eu não sei.- Senti o peso das palavras que saíam, eu ainda não conseguia voltar aquele assunto de anos atrás sem meus olhos encherem de lágrimas, um lembrete que eu vou ser sempre assombrada por ele.

-Quer explicar quem é "ele"?- Ela falou calma, como eles conseguem ficar calmos? Eu posso falar que cometi o maior crime que a sociedade já presenciou e ainda assim eles tem um sorriso de primeira manhã de férias em Dezembro.

-Meu sócio, fiquei paranóica por precisar viajar com um desconhecido pela primeira vez e acho que meu cérebro não conseguiu suportar tantos pensamentos.

-E como você se sente sobre ele hoje?

-Bem, eu acho, não confio totalmente mas não surto achando que ele tem um machado, ele é tapado demais para esconder um machado sem se machucar.- Ela deu uma risadinha leve.

-Seu sócio sabe como se sente em relação a ele?

-Sim, a reação dele não foi obviamente o que eu esperava, foi boa.

-Quer contar?

-Não.- Prefiro não explicar a parte sobre me ver pelada.

-Como foi sua semana?

-Um pouco agitada, só coisas do trabalho e ontem saí com ele pra conhecer Las Vegas.

-E como foi?

-A gente quase se...-Parei olhando a imagem dela, como eu digo que quase beijei alguém sem parecer ter 12 anos?

-Tudo bem se não quiser contar, podemos continuar em outro assunto.

-Não, é que...não sei como contar que ele quase me beijou sem parecer uma fofoca de ensino médio.

-Para ser honesta, acabou de fazer isso.

-É, quase nos beijamos, mas não sei se foi ruim não ter acontecido, quer dizer, ele é bonito mas não acho que seja a hora pra isso, tenho muito trabalho e não sei lidar com relacionamentos.

-O que quer dizer?

-Nunca me senti confortável falando de sentimentos para alguém e as pessoas se incomodam com isso, em um relacionamento as pessoas querem conversar sobre como o outro se sente mas eu só quero tirar um tempo pra mim e resolver por conta própria.

-Sabe Nicole, ninguém sabe como agir em um relacionamento, seja ele qual for, um namoro, uma amizade ou até pais e filhos, sempre haverá dúvidas, erros e acertos, você só precisa saber lidar com eles. O principal pilar de uma relação é ouvir, se só um fala não é conversa, é palestra.

-Mas uma hora vou precisar falar, certo?

-Sim, mas se estiver com alguém que te ouça, essa pessoa vai respeitar que você precisa do seu momento e depois, quando você se sentir confortável, vai estar lá.

-Tenho medo de afastar as pessoas.- Soltei rapidamente.

-É um caminho difícil, não vou mentir e dizer que quando você começa fica mais fácil, mas em algum momento você aprende. Estou aqui para ajudar você nisso.

-Nem sei o porquê de estar falando sobre relacionamento, não estou nem perto de um, somos...colegas de trabalho e só.

-Não sente nada em relação a ele?

-Não.- Não tinha dúvidas sobre isso.

-Sobre não se sentir a vontade com relacionamentos, acha que está relacionado com seu passado?

-Talvez. Não sei se conseguiria estar em um relacionamento sem procurar pelos sinais que ignorei antes, sem comparar todas as atitudes, boas ou ruins. Precisar relembrar todos os dias que as pessoas não são iguais não é uma ideia agradável. Prefiro não falar sobre isso ainda.

-Tudo bem. Sua família?

-O mesmo de sempre, faz um tempo que não falo com minha mãe, com toda essa coisa da obra eu não tive como ligar.

-Está evitando alguma conversa?

-É, ela sempre volta a falar do meu pai, só consegue me ligar pra dizer que eu fui ingrata com ele.

-E você?

-Não acho que seja ingratidão me afastar de quem faz mal a mim, independente do grau de parentesco.- Gabriela sorriu orgulhosa, foi uma das primeiras coisas que aprendi com ela.

Mesmo depois do fim da consulta continuei pensando nos assuntos, em 3 meses minha opinião sobre Henrique saiu de "Uh, ele vai me matar!" para "Meu deus, ele não cala a boca nunca?", até o fim da obra talvez eu jogue ele pela janela do avião mesmo tendo prometido que não o mataria. Minha relação com meus pais é complicada o suficiente pra me fazer desistir de ir ao Brasil, não quero ter que ouvir sobre como é mal educado visitar seu país mas não seus pais.

Em breve vou voltar para NY e sei que tenho milhões de coisas para resolver então enviei uma mensagem no grupo perguntando se meus dois assistentes estavam disponíveis para amanhã, minutos depois recebi a resposta dos dois confirmando.

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Teremos sim dois capítulos essa semana mas não vai rolar no mesmo dia, o de hoje é pequeno porém importante pra situações que ainda vão acontecer. Não esqueçam de votar!

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