03 - Seus Olhos

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Jullian Lopez 

Por um momento eu achei que tudo isso não passasse de um pesadelo muito ruim, mas eu nunca acordei. Tudo o que eu mais queria era sair desse lugar desumano. As pessoas que nos prenderam aqui não fizeram nada mais do que mandar uma única refeição. Não há um banheiro ao nosso redor, então somos obrigados a fazer nossas necessidades aqui, o que faz meu estômago revirar, querendo expulsar o pouco que comi. O tempo parece ter se perdido, parece que se passou segundos, mas ao mesmo tempo é como se eu estivesse aqui há uma vida inteira. Eu me forço ao máximo para não dormir, mas meu corpo é fraco e acabo me rendendo a alguns cochilos, os quais acordo após pesadelos.

O barulho na porta chama nossa atenção e desvio meus olhos. Penso que vão colocar mais uma refeição para nós, mas me surpreendo quando uma mulher e dois homens entram no quarto. A mulher franze a face em puro nojo e fica o mais longe possível de todos. Ela está bem vestida, aparenta ter mais de trinta anos e nos olha com superioridade. Já os homens ao seu lado se parecem com seguranças, pois são dois brutamontes mau encarados.

— Vou dividi-los em dois grupos e vocês seguirão um segurança. Não quero choro, não quero corpo mole e muito menos mal criação. — Ela diz e chega a ser engraçado a forma como nos trata, como se quiséssemos estar aqui para receber suas ordens.

— E se eu não quiser? — Alexandre questiona com uma expressão dura, não abaixando a cabeça.

— Não há essa opção, querido... você quis estar aqui. — Ela responde com um sorriso que me causa ânsia.

— Porque você me enganou, vadia! — Alexandre grita e se coloca de pé, como se fosse avançar nela.

— Verdade, mais alguma reclamação? — Ela diz com deboche e olha pela sala, analisando todos.

— O que vamos fazer aqui? Eu estou grávida, pensei que seria uma oportunidade de emprego e... — A moça com o ventre aparente pela gestação diz em meio ao choro e meu coração se aperta pela situação.

— Mas é uma oportunidade de emprego, vocês vão ser recompensados, basta fazer tudo certo. Quem ficar na casa terá a chance de crescer e vai receber por seu trabalho, claro que também tirando nossos gastos com vocês. E quem for leiloado poderá encontrar uma boa oportunidade com pessoas muito bem financeiramente. Apenas mantenham a boca fechada e conseguirão se dar bem.

— Se dar bem? Chama isso de se dar bem e trabalho? Parecemos animais! — falo pela primeira vez, colocando para fora toda a minha raiva e indignação.

Os olhos dela se voltam para mim e um sorriso se abre em seus lábios vermelhos. Sinto meu corpo todo se arrepiar, mas não vacilo.

— Oh, você é o Jullian... nossa estrela da noite. — Ela diz e o barulho de seus saltos ecoam enquanto ela caminha até mim.

Minha vontade é me encolher ou fugir para longe, mas nem isso eu posso. Merda de vida!

— Não sou sua estrela, muito menos farei alguma coisa para pessoas imundas como vocês — respondo, não poupando minha fala. Se é para ter essa vida, prefiro que eles me matem de uma vez por mal criação.

— Tem certeza? Não tem medo do que pode acontecer, querido? — Ela diz com uma voz suave, como se verdadeiramente fosse gentil. Demônio!

— Nem um pouco, fique à vontade para acabar com isso logo — falo de uma vez, abrindo meus braços como um convite.

Eu me sinto com medo, também me sinto exposto diante todos estando sem qualquer vestimenta, mas não volto atrás, só quero que tudo isso termine de uma vez por todas. Pelo menos morrendo eu terei paz.

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