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Rodolffo era um refugiado de guerra. 

Órfão de pai e mãe,  foi acolhido por um casal que após a descolonização de Angola precisou regressar a Portugal.   Tinha 2 anos.

As coisas em Portugal não correram muito bem e o casal rumou ao Brasil  onde viveu até faleceram após um ano, um seguido do outro.

O casal era vizinho de Etelvina e Libério e aquando da morte dos dois  foram estes que tomaram conta dele.

Tomar conta é uma maneira de falar.  O que eles aproveitaram foi mesmo para o explorar e tratar mal.

Libério era um pouco mais humano. Repreendia-o, mas nunca lhe bateu ao contrário de Etelvina que na ausência do marido tudo servia de motivo para uma sova.

Rodolffo chorava escondido e não dizia ao padrinho por medo de apanhar mais.

Via as crianças da sua rua caminhar para a escola, mas apesar dos muitos pedidos nunca teve essa oportunidade.
Era muito caro e não adiantava nada segundo o padrinho.  Tens é que trabalhar e fazeres-te um homem.

Por causa de uma rixa num boteco, Libério teve que fugir e daí terem chegado ali.  Perguntou por trabalho e depois de aceite foi-lhe indicada uma pequena acomodação para os três.

A casa era pequena.  Um quarto, uma cozinha e um pequeno banheiro sem chuveiro.
Rodolffo passou a dormir na cozinha sobre um pequeno colchão,  com apenas um lençol para se cobrir.   Acordava muito cedo pois a madrinha queria a cozinha livre logo de madrugada.

Hoje era como ontem e provavelmente amanhã será igual.

Acordou cedo, lavou o rosto e comeu o pedaço de pão seco que Etelvina lhe deu.  Tomou um copo de àgua e foi para a rua esperar o padrinho que entretanto se sentou à mesa.

- O moço já comeu?

- Acabou agora mesmo de tomar café.  Já está à tua espera.

A melhor refeição que ele tinha era quando o padrinho estava junto.  Aí a mulher tratava-o bem, mas se fosse o caso de ele não estar, muitas vezes  ficava sem almoço.

Às catorze horas regressaram da lavoura e Rodolffo aproveitou para tomar banho no riacho que passava perto.  Tinha levado um pedaço de sabão no bolso e aproveitou também para lavar a roupa.

Regressou a casa só de cuecas e estendeu as calças e camisa para secar.  Vestiu uma roupa limpa e aproveitando que a madrinha estava a dormir foi encontrar-se com Juliette.

- Cheguei menina bonita.

- Olá.   Olha trouxe caderno e lápis para ti.  Vou ensinar-te as letras primeiro.

Juliette escreveu um A e mandou ele repetir muitas vezes.
Vendo a facilidade com que ele desenhava as letras, escreveu todo o abecedário para ele repetir enquanto ela fazia os trabalhos dela.

Pararam um bocadinho, Rodolffo descascou duas laranjas e deu-lhe uma que agradeceu.

Já se fazia tarde e ela foi embora levando o caderno dele porque não quis arriscar que a madrinha visse.

Era o melhor momento do dia para Rodolffo.   Juliette sempre levava um doce para os dois comerem.
Contava-lhe o que se lembrava da sua vida, que não era grande coisa.  Afinal ainda só tinha doze anos.

Juliette era a princesa do pai.  Ele tinha um ar rude mas com ela era tudo.  Nada que ela pedisse ele negava.

Já tinham passado alguns meses desde que ela conheceu Rodolffo e ele já conseguia ler muito devagar.
Era muito esforçado e aprendia rápido.

Juliette quis conversar com o pai.  Contou a sua aventura para ensinar Rodolffo e ele ficou todo orgulhoso da filha.  Ela aproveitou o entusiasmo para pedir algo.

Colocar Rodolffo na escola.

Filha, eu não posso interferir assim na família.   E ele precisa ajudar o padrinho.

- Pai.  Ele é criança como eu.  Tu gostavas se eu tivesse que trabalhar?

- Mas o pai está à espera do dinheiro que eu dou pelo trabalho do Rodolffo.

- Mas tu dás na mesma.  Eu prometo que nunca mais peço coisas para mim.  Só preciso coisas para a escola.  Esse dinheiro dás ao padrinho do Rodolffo para ele ir para a escola.

- Vou pensar.  Tu arranjas-me cada uma!

- Obrigada,  pai.  Gosto muito de ti.

- E eu de ti Juliette.

Fui contar à minha mãe e ela abraçou-me muito sem dizer nada.

A minha mãe nunca foi muito de expressar sentimentos por palavras mas eu sei que ela me apoiava em tudo.

Menina bonitaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora