Porto Sto. Antônio, F. Noronha
09 de fevereiro
18h31min
Diego Alvarenga ouviu o bramir suave das ondas contra o quebra-mar, o horizonte com barquinhos banhados pelos últimos raios de sol. O restaurante Mergulhão dispunha de uma vista magnífica; construído acima de uma elevação perto do porto, era possível observar a praia lá embaixo e as ilhas secundárias do arquipélago.
Estava nervoso. Olhou para o teto do restaurante forrado com tecido florido e tropical. Meio cafona, mas não duvidou que os turistas achassem no mínimo exótico. Voltou a contemplar o mar. Traçou um roteiro na mente.
Pretendia negociar com um representante da K-Sumatu, empresa japonesa que produzia maquinaria avançada para computadores. Escolheu o lugar para causar boa impressão. A iluminação era adequada, as cadeiras confortáveis de fibra de bambu, além da brisa marítima ininterrupta. Estava apinhado de turistas ricos brasileiros, mas a maioria era estrangeira.
– Boa noite, senhor – o garçom se aproximou. – Alguma bebida especial antes do menu?
– Traga um martíni – disse, com pouca polidez. – Estou aguardando uma pessoa e não quero ser incomodado. Por isto, se meu convidado quiser algo, eu mesmo pedirei no balcão. – Diego tinha que garantir sigilo em sua conversa.
O garçom assentiu e se retirou. Um minuto depois, uma mulher oriental passou pelos turistas, que torceram o pescoço para olhá-la. Vestia um quimono de cetim azul-marinho com bordados negros, as mangas curtas, o tecido colado ao corpo destacando curvas sinuosas, os cabelos presos num coque. Um grupo de turistas espanhóis assobiou. Quando se aproximou da mesa de Alvarenga, ele instintivamente suspeitou que ela fosse a negociadora.
– Aqui é uma ilha tropical. Podia ter vindo mais à vontade e com vestes mais discreta. Não me surpreende que tenham enviado uma mulher como você para representá-los – Diego adiantou-se em inglês.
– Não vai me convidar para sentar? – ela sorriu, meneando o corpo para frente como fazem os japoneses. Sentou-se suavemente. – Não sou apenas representante da empresa. Na verdade, sou uma das sócias.
Uma sócia? Diego ficou boquiaberto. Nunca fez negócios com uma mulher. Não gostou disto. Mulheres não eram maleáveis.
O garçom trouxe a bebida e saiu depressa.
– Quem diria, uma mulher com alto status empresarial em um país tão tradicional como o Japão. Quando recebi a mensagem do encontro, falei com um homem de sotaque carregado, mas sua pronúncia é perfeita.
A mulher o encarou, os olhos penetrantes.
– Quero ir direto ao assunto, Sr. Alvarenga.
– Parece que já sabe meu nome.
– Estou aqui para discutir o plano de aquisição de sua patente pela K-Sumatu, já que o senhor tem mostrado muito empenho e interesse em vendê-la, como ficou evidente para nós. Estamos dispostos a lhe pagar uma quantia considerável, além de royalties de 30% pelos direitos de exploração e comercialização do produto quando ele entrar no mercado – ela pronunciava as palavras com desvelo. – O acordo estabelecido entre as partes é de que todos os prospectos relativos à patente anterior sejam destruídos. Por isto, a primeira fase do nosso plano já foi executada.
Ela se referiu à invasão que a K-Sumatu havia provocado nos computadores da Biotech de Hong Kong, quatro meses antes, no intento de ocasionar uma falsa invasão, forçando a empresa a transferir manualmente os arquivos de vários experimentos prontos a serem patenteados. O plano deu certo. Os prospectos digitais foram armazenados em grandes HDs e enviados à uma ilha; um local secreto da Biotech que só Alvarenga conhecia e tinha acesso.
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UNICELULAR
Ciencia FicciónDisponível nas grandes livrarias! ROSA ViLLAR, agente da ABIN, é chamada às pressas para investigar o envenenamento do filho de uma influente jornalista americana que estava de férias, numa das belas praia do Brasil. O que Rosa não imaginava é que...
