Centro Adventista Hospitalar, Rio Grande do Norte
10 de fevereiro
08h10min
Ela estacionou o carro no lugar que chamasse menos atenção possível. Abriu a porta e acionou o alarme depois de sair. Enquanto caminhava, estudou o local, observando tudo. Vestida elegantemente, usava saia na altura dos joelhos, blazer feminino da mesma cor e blusa de seda. Era uma mulher alta, o rosto muito magro, comprido, os lábios carnudos desproporcionais, os cabelos aloirados. Vívian Kramer trabalhava há mais de cinco anos na Biotech, destruindo e ocultando qualquer prova contra a empresa. Fazia todo o trabalho sujo, mas não se importava; Ellen Wankler, sua chefe, tirou-a de uma vida muito mais humilhante.
Vívian cruzou o estacionamento. Puxou um smartphone da bolsa. Ativou um aplicativo no celular. A tela revelou um ponto verde, a pouco mais de vinte metros dela. Discretamente atravessou a área de serviço do hospital. Alguém a abordou. Ela se virou para olhar.
– A senhora não pode entrar aí – um homem avisou. – É somente para o serviço de cozinha e limpeza.
– Desculpe. Sou veterinária. Recebemos uma denúncia e precisamos vistoriar o lugar – Vívian mostrou uma falsa carteira de registro.
– Denúncia? Não recebemos nenhuma notificação.
– Sempre nos adiantamos – ela sorriu.
A homem a deixou passar, mas fitou-a de cima a baixo, desconfiado.
– Não se preocupe, meu trabalho será rápido – ela comentou.
Vívian apressou o passo e cruzou o corredor. Ninguém a notou naqueles trajes formais. Suspeitou que acreditassem que era parte da administração do hospital. Precisava encontrar o quanto antes a moça contaminada pelo Experimento Fungi. Eliminar qualquer coisa que atrapalhasse a imagem da empresa era necessário.
Voltou os olhos ao smartphone. Parou na extremidade do corredor e voltou. Uma enfermeira saiu de um dos quartos e seguiu na direção oposta. O sinal vinha de lá. O ponto verde na tela estava bem perto, aparentemente no quarto 312.
Abriu a porta. Uma moça de cabelos longos dormia na cama, o soro correndo pelo braço, além dos fios de aparelhos que expunham as funções vitais no monitor. Havia manchas arroxeadas e vermelhas pelo seu corpo, máscara de oxigênio no rosto e curativo na altura do pescoço.
Do bolso de seu blazer, retirou uma seringa e inseriu a agulha no frasco do soro até todo o conteúdo se misturar. Não sentiu um pingo de pena da moça.
Vívian se assustou ao ouvir passos no corredor. Entrou depressa no banheiro do quarto. A porta não tinha tranca. Pensou em fugir pela pequena janela, mas era gradeada.
Porra! Não pensou direito e agora estava numa enrascada.
Quarto 312
8h23min
Rosa deixou que a jovem enfermeira que a acompanhava abrisse a porta. Catarina Bitencourt arquejava suavemente num sono profundo.
– Ela não está anestesiada, só administramos calmantes. Chegou com edemas por todo o corpo – a enfermeira falou. – O estado dela ainda é sério. A médica responsável tratou-a com corticoides e anti-histamínicos, mas reagiu muito pouco até agora.
– O quadro dela é estável?
– Em geral, sim. Soubemos que ela tocou em algum bicho ou planta numa das ilhas do arquipélago de Noronha, então teve convulsões, além de problemas para respirar. A glote inchou e tiveram de fazer uma traqueostomia urgente – ela repetiu a história. – Os familiares foram avisados. A mãe está no hospital preenchendo um cadastro com mais dados sobre ela.
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UNICELULAR
Ficção CientíficaDisponível nas grandes livrarias! ROSA ViLLAR, agente da ABIN, é chamada às pressas para investigar o envenenamento do filho de uma influente jornalista americana que estava de férias, numa das belas praia do Brasil. O que Rosa não imaginava é que...
