Terror narrando
Nos dois anos que se passaram aconteceu muitas coisas na vida da Alicia, mas sem caô é como se a minha tivesse parada em qualquer semáforo por aí. Porra, a dor de perder um filho é foda, depois que eu sai daquele cemitério deixando minha menó lá, minha vida por um tempo foi por água a baixo mermo, eu queria me livrar daquela dor e me afundei na coca. Por um tempo eu desacreditei de Deus, tá ligado? Não aceitava mermo. Tô ligado que o caminho do crime é cadeia ou cemitério, mas mermão ela era uma criança tá ligado? Vários sangue bom tiveram fins terríveis, mas os menó era envolvido. Ela não, ela era só uma inocente. Não brotei mais em baile, não encostei com nenhuma puta, era da boca pra casa, só descia o morrão pra trocar tiro. A profissão bandido é essa, não sei fazer outra coisa.
Meus coruja tá na contenção, e Deus tá guardando nós. Devagar fui entendendo o propósito dEle. Eu mal tinha notícias da Alicia, via poucas vezes ela entrando no postinho, a casa dela era na subida do morro, estava sempre de portas fechadas. O mundo dela também caiu. Eu tô mec nessas parada de sentimentos, mas tô ligado que nunca esqueci ela. Acendi o fininho observando ela lavar a louça, ela sempre foi assim, a única bagunça que ela permite é a vida.
Alicia: Vai ficar nesse fumacê, ou vai pegar um pano e secar as louças? Não sou tua empregada não, tô fazendo só favor.
Dei risada, pode passar quantos anos passarem, certas coisas nunca mudam. Ajudei a mandada a dar organizada na goma. Tava precisando mermo, parecia um chiqueiro. Só reflexo da mente.
Sentei na borda da piscina vendo ela sentar do meu lado com uma cerveja de garrafa
Alicia: Vou precisar de um favor seu - encarei ela - vou viajar próxima semana, queria que você ficasse com eles. Tem algum problema?
Terror: tá mec, vai demorar muito?
Alicia: Não, três dias só. Vou pra estudar, congresso de medicina. É em gramado, mas é coisa rápida... TH limpou minha ficha pra isso
Terror: É, tô ligado. Como tá as coisas no postinho?
Alicia: Estão indo, é bem complicado lhe dar quando se trata de uma população carente. A medicina nos ensina a receitar além dos medicamentos, uma alimentação balanceada... mas como vou receitar algo do tipo se tem morador aqui, que mal tem o pão para tomar café da manhã? - me olhou como se esperasse um posicionamento meu, fiquei calado - o morro é muito além que as paredes da boca.
Deu um gole na cerveja e saiu. Fumei mais um e fiquei brisando na fumaça subindo. Menó, eu daria tudo isso pra ter minha filha de volta, papo reto é um vazio do caralho no peito. Subi as escadas, entrei no quarto e vi ela sair do banho
Terror: fica mec aí, vou pegar lençol e travesseiro e durmo lá pela sala
Alicia: fica por aqui mesmo. Não vou te tirar do conforto da sua casa. E outra, sua cama é enorme. Você dorme em uma ponta, e eu durmo na outra, pode ser?
Concordei dando risada, às ideias dessa maluca. Deitei a cabeça no travesseiro, mas não consegui dormir, o olho tava fixado naquele rabão do outro lado da cama. Menó eu não tinha nem coragem de chegar perto, a mulher tava destruída de sono, parecia que tinha entrado em coma
Ela mandou uns papo aí sobre psicólogo, se pah eu nem acredito nesse bagulho. Mas se melhorou às condições dela, eu coloco grana, mas mandar o papo na humildade aqui mermo: que bagulho caro da porra, papo de roubar ladrão se liga? A morte da menó tava recente e ela chegou lá na boca transtornada pós invasão, mermao a mulher se tremia inteira e gritava pra caralho... a dona lá do pai dela tava levando ela pra esses bagulho de terapia, nem toco no assunto, só mando a grana e ela vai.
Bandido acordado tem que tá fazendo dinheiro, levantei e fui pro trampo, na minha goma mermo. Parada de tráfico sempre tem uns papo pendente, liguei o notebook e me joguei na cadeira... tava dando uns gole no whisky quando vi ela entrar toda gostosa
Alicia: tá se escravizando? Duas da manhã e tá aí mexendo nessas coisas? Você não paga as pessoas pra fazer essas coisas pra você não?
Terror: Quando eu quero bem feito. Eu mesmo faço. E tu mandada, não tá dormindo porque?
Alicia: Meu relógio biológico tá desprogramado - revirei os olhos e mandei um "meu pau" - quer ajuda ai?
Terror: a contabilidade é toda sua. Mas aí - ela me olhou - vou pagar o justo, tu só quer explorar o meu dinheiro
Alicia: dinheiro sujo tem que ser explorado mesmo
Terror: dinheiro sujo, nome limpo
Pisquei pra ela que revirou o olho, vi ela pegar uns papéis e colocar o óculos. Eu daria tudo pra ter minha família inteira de novo, peguei um fininho, quando eu lembro da minha trajetória eu bolo
...
Alicia Narrando
Acordei a cama estava vazia, apesar de essa ser a primeira vez que entro na casa dele. Eu sabia muito bem aonde ele estava, calcei a havaianas e sai na busca. Ele estava sentado, notebook aberto, sempre focado tomando whisky... após afronta-lo, resolvi dar uma ajudinha. Dinheiro extra sempre é muito bem vindo. "Trabalhamos" até o amanhecer, foi bem leve, jogamos conversa fora, rimos bastante, lembramos da nossa vida antiga, choramos pelas percas, e por fim resolvemos nossas pendências de trabalho.
Tava na cozinha quando vi ele passar no ódio indo em direção a garagem, fui atrás. Meu espírito de fofoqueira não me impede de absolutamente nadaaa
Alicia: aconteceu alguma coisa? Você tá indo pra onde nessa pressa toda? É invasão?
Já perguntei na agonia
Terror: Se tu souber de alguma coisa da minha filha que eu não sei, é melhor tu mandar logo o papo. - olhei pra ele sem entender - A Luna não dormiu aí, tá ligado? A cama tá bem arrumadinha e a filha da puta não tá na casa
A Luna acabou de completar 17 anos. Ela e o Arthur estão completamente um apocalipse, os dois são um perigo ambulante. Eu acabei descobrindo que ela e o Mael, estavam se encontrando. Desde o início eu avisei sobre o pai dela não querer esse relacionamento, mas ela falta pouco para chegar na maioridade e desde já precisa saber lhe dar com as consequências das escolhas que toma. Meu papel eu fiz, orientei ela sobre tudo. Levei ao ginecologista, e pressiono sobre os cuidado que ela deve ter.
O Bruno ainda jura de pé junto que essa menina tá com a virgindade intacta, como ele mesmo disse... se ele souber de algo, ele se mata. Dramático.
Terror: tu sabe de alguma coisa que eu não sei?
Fiquei calada. Mas eu sei muito bem que ela deve tá com o Mael por alguma baladinha de playboy, não é a primeira vez que ela faz isso... e nem vai ser a última. Ela é adolescente, completamente natural. Mas o Bruno sente a necessidade de fazer show de pai ciumento, ridículo.
Terror: Alicia essa menina é uma criança ainda, é responsa NOSSA saber por onde ela anda e com quem ela anda. Eu não tô criando nenhuma piranha não, quer sair? Sai. Mas avisa com quem, pra onde e que horas volta. Ela não tem idade de passar noite fora de casa não. Se acontecer alguma coisa com ela, a responsa tá aqui fia - bateu nas minhas costas - cai todinha pra cima de nós. Passa a visão aí na goma, vou atrás da mandada e não quero um piu.
No fundo eu sabia que ele estava coberto de razão, mas eu também acho justo ela viver a vida dela com quem ela quiser. A Luna é bastante estudiosa e bem pra frente também. Ela juntou uma grana com a mesada e montou uma loja de maquiagens aqui no morro, chegava da escola e passava direto pra loja, mesmo com toda correria manteve as boas notas. Ela tem a minha admiração.
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TIPO ESCOBAR - MORRO
Non-Fiction"Passo na favela, onde eu cresci Brota criançada que a favela merece sorrir Churras pra criança, Whisky pra nóis" Ele crescido no tráfico, treinado para matar. Ela batalhando desde sempre para ter uma boa vida. Ambos tem em comum, o temperamento for...
