17- Quarentena

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Lauren

Talvez aquela tenha sido uma das piores decisões de nossas vidas. Estamos perdidos a dias mata adentro, o silêncio da floresta nos envolve como um manto pesado. O barulho ocasional de galhos quebrando sob nossos pés é o único som que nos acompanha, um lembrete constante da nossa presença indesejada nesse lugar hostil.

Decidimos sair em busca de remédios para a Ally. A decisão de ir todos juntos, como uma família, parecia a única escolha certa na hora. Achávamos que a união nos tornaria mais fortes, mas agora percebo que nos faltou sabedoria. Talvez tenhamos ficado tão acostumados com a sorte que nos acompanhava, que esquecemos de como é a vida real — dura, implacável, e sem misericórdia.

Nosso plano desmoronou quando, sem GPS, nos perdemos na estrada. A tensão aumentava a cada curva errada, até que a picape engasgou pela última vez e o ronco do motor morreu, selando nosso destino. Sem combustível e sem esperança de achar um caminho de volta, não tivemos escolha senão adentrar na floresta, na esperança de que nossos instintos nos guiassem. Foi o nosso maior erro.

Agora, além de não encontrarmos uma direção, também não vemos uma saída dessa floresta. A vegetação é densa e sufocante, galhos nos arranham como garras invisíveis, e o cheiro úmido da terra nos envolve. Nossas provisões de comida estão acabando, mesmo racionando. O estômago ronca de fome, e a sede é um lembrete cruel de nossa vulnerabilidade. Denis, com os lábios rachados, tenta animar o grupo com uma piada forçada.

O fim parece próximo. A ideia de morrer juntos, aqui, famintos e perdidos, é um pensamento que ninguém quer verbalizar, mas que todos compartilham. O olhar de Camila se perde no horizonte verde, buscando uma luz, uma saída que talvez nunca venha. Ally murmura em seu sono febril, o rosto pálido e suado, e Judite, nosso cão-guia, deita-se ao seu lado, como se soubesse que o conforto é tudo o que podemos oferecer agora. Vamos morrer juntos, e a floresta será nossa última testemunha.

Estamos deitados no chão frio e úmido da floresta, os corpos exaustos pressionados contra a terra dura, sentindo cada pedregulho e raiz sob nossas costelas. O céu, quase invisível através das copas densas das árvores, está escuro e sem estrelas. O silêncio é cortado apenas pelo estalar ocasional da fogueira que Camila acendeu. A chama reluzente lança sombras dançantes nas árvores ao nosso redor, como se a floresta estivesse viva, nos observando, julgando.

Denis e Dinah são os únicos que ainda mantêm alguma esperança de sairmos vivos dessa. Denis continua falando baixinho sobre como já enfrentamos situações difíceis antes, tentando acalmar os outros, mas sua voz vacila, traindo seu próprio medo. Dinah se junta a ele, tentando lembrar a todos das habilidades de sobrevivência que aprenderam, mas o cansaço e o desespero estão estampados em seus rostos. As palavras são mais para eles mesmos, uma tentativa de manter a sanidade.

Camila, por sua vez, concentra-se em alimentar o fogo, jogando pequenos galhos secos nas chamas. Seu rosto está sombreado, perdido em pensamentos, enquanto tenta nos proteger do frio que corta como facas afiadas. Ela parece distante, quase alheia à situação. A fogueira é mais do que apenas calor; é um ponto de esperança frágil em meio à escuridão opressiva.

Manu está deitada perto da fogueira, o calor oferecendo um pouco de conforto em meio ao frio cruel da floresta. Ela começa a mostrar sinais de que está entrando em trabalho de parto prematuro. Seu rosto está pálido, e seus lábios tremem, mas não de frio. Ela segura o ventre com ambas as mãos, os olhos fechados em uma mistura de dor e concentração. Não temos mais noção de quanto tempo de gravidez ainda resta, e a incerteza quanto à sobrevivência do bebê é um peso que todos carregamos. Ela está quieta, mas posso ver nos seus olhos o mesmo medo que assombra a todos nós. A incerteza é sufocante, e o som irregular de sua respiração só aumenta a ansiedade que nos envolve como um manto de escuridão.

Renascer - camren Onde histórias criam vida. Descubra agora