A job that slowly kills you - um trabalho que lentamente te mata
no surprises.
Quando voltei para Seattle, a cidade parecia ainda mais cinza do que eu havia visto e deixado semanas atrás. Do aeroporto, peguei um táxi e voltei para casa que dividia com Kurt. Suspirei o ar puro das árvores do subúrbio americano de Washington, me privando me qualquer outra coisa que não fosse uma paz inexplicável. Minha dor acabaria no instante em que entrasse na estufa e pegasse uma das armas que Kurt deixava lá. Sorri, seria rápido e quase indolor, colocaria na boca e em um instante de segundo, só seria capaz de processar em meu cérebro o quente da bala a me estourar.
Andei como uma boba quebrando galhos e folhas secas pelo jardim. o vento mexia em meus cabelos e beijava meu rosto, quase como se me pedisse para me desvincular de meu próprio corpo e fazer parte de sua natureza, seu solo, suas árvores, seus minerais. Por um instante, fui criança de novo, me senti parte de tudo.
Minhas mãos seguraram a maçaneta da porta firmemente, apesar de tudo, respirei, decidi que odiava minha vida e queria ser tudo, ou seja, nada, e entrei.
- Puta que pariu - apenas isso saiu de minha boca enquanto eu via Kurt no chão da estufa segurando uma espingarda, o dedo no gatilho, pronto pra atirar e com os olhos fechados.
Ele ia atirar se não tivesse tomado um susto com minha presença. O susto foi tão grande que deixou a arma cair, a pressão do metal contra o chão de madeira provocou um tiro. Gritei assustada, porém, a bala havia apenas atingido o teto.
- Me desculpa, me desculpa - o loiro disse entrando em pânico
Uma dor intensa surgiu em meu peito e desabei em seus braços.
- Meu Deus - falei agarrada em sua blusa de flanela - não não... não faz isso - falei desesperadamente e em sequência abraçando sua cabeça contra meu peito, onde meu coração finalmente sentia alguma coisa. Não era vazio, era dor, era amor.
Apesar de tudo, não havia surpresa em mim.
- Eu te amo - ele afundou seu rosto em mim, tremendo e respirando rápido e fundo
Não suportava a visão de uma possível versão de Kurt morto ao meu encontro. Acho que pegaria a arma e me mataria mesmo assim, a visão da primeira, talvez uma das únicas pessoas que me amasse sem ser pela fama, sucesso, era impossível e me feria mesmo que agora fosse um conceito presente apenas no mundo das ideias. Era demais, tudo o que sempre quis - amor - se acabando na minha frente, e essa realidade parecia cada vez mais próxima a cada passo que Kurt dava ao se definhar.
Quando seu corpo magro e pálido parou de chacoalhar, peguei em seu queixo firmemente, e no entanto, com as mãos tão trêmulas, e o forcei a me olhar.
- Vamos pra casa. Eu não aguento ficar mais um segundo nesse lugar
Ele acenou e me seguiu até o interior, se sentando no sofá mais próximo da residência. Suas olheiras profundas deixavam descaradas suas noites sem dormir evidentemente pelo uso de substâncias. Nos encarávamos sem dizer uma palavra, os olhares revelando tudo de mais profundo de nossas almas, surpresa, medo, angústia, incapacidade. Era óbvio que a coincidência de nossas situações era surreal, quase uma obra sobrenatural que eu mesma sequer procuraria entender por incapacidade de compreender, porém só talve
Kurt me olhou como se perguntasse se pensei na mesma coisa. Acenei lentamente e ele permaneceu em choque, como se repensasse sua vida inteira.
- Eu achei que seria mais fácil se você não me visse tentando decidir isso aos poucos - o loiro começou com o olhar fixo no chão, seus olhos sequer piscavam - eu perdi minha cabeça, perdi você, Dave e Krist não falam mais comigo, eu não tenho nada Amber, nada. A depressão me tirou tudo. - finalmente ele me olhou - queria que me deixasse morrer, mas olhar pra você deixou isso impossível - ele franziu o cenho - eu te machuquei de novo né? - lágrimas caíram do seu rosto - mas eu não consegui me parar antes, não dava. Me desculpa, eu estou tão cansado de... tudo. De viver.
Limpei a água salgada que caía de meus olhos e o abracei
- Eu odeio ser famoso, odeio essa merda de verdade. Preferia quando eu era pobre e fodido, não sabia, mas pelo menos tinha alguma coisa. Foda-se a merda desse dinheiro, a merda dessa casa desnecessariamente grande, odeio o fato de que uns otários me idolatram - Kurt continuou e me apertou em desespero - me mastigaram, me cuspiram e pisaram em mim, eu não aguento mais, não aguento mais.
No fundo, eu sabia que naquela época em que desejava a fama mai que tudo, ele só queria ser amado, queria que alguém o aprovasse e o dissesse que é suficiente, mas não importa o quão bom ele fosse, era mais que tudo óbvio que seu ódio próprio não seria substituído pelo amor dos outros, nem de Dave, Krist, meu, e nem mesmo de sua mãe, teria que vir dele.
- Amber - ele sussurrou, seus olhos, desesperados, procuravam meu rosto com certa angústia, medo, como se ele fosse um alienígena, diferente de todos nós e nada mais fosse real - você me ama?
- Amo - minha voz fraca retumbou em minha garganta - por um tempo, sei que me afastou de você, sei que afastou seus amigos também, mas a gente te ama - beijei o topo de sua cabeça - não pense por um segundo que a gente viveria melhor sem você - minha voz embargou, minha garganta, deu um nó - por favor, não me assusta assim de novo.
Kurt soltou um suspiro sôfrego e afastou-se para me encarar com aqueles olhos antes tão azuis, agora descoloridos, um tom de cinza vazio.
- Sabe, não consigo fazer isso sem você - admitiu - porra, como você ainda me ama depois de tudo que te fiz passar? Você não merece alguém como eu, merece alguém que não te faça sofrer com o medo de que se mate no meio de uma crise.
- Você é um idiota. Te amo, sabe disso, não vou deixar você por pensar em mim jamais
-Amber, você também queria se matar, certo? - o loiro disse sem graça, meus músculos se contraíram defensivamente com sua fala - verdade, eu sou um idiota, não tenho forças pra te ajudar, já você está aqui, me consolando. - Kurt se movimentou para agora sim me segurar firmemente e com uma expressão séria - então eu peço por favor, que não me arranque um dos meus únicos motivos para viver, que é você.
Era como se uma onda alta tivesse nos pego naquele momento. Achei alguém que em meio a tanta água se afogava como eu enquanto nadávamos para cima de mãos dadas.
-Eu só tive uma crise e acho que saí um pouco fora da minha sanidade natural - suspirei - acho que fiz pela abstinência
Ele me abraçou.
- Amber - ele suspirou contra meu ouvido - quer se casar comigo? Quero te abraçar pra sempre, quero você pra sempre, quero que me ame pra sempre porque sem você eu não tenho mais nada. - seu coração batia rápido contra meu peito, nossos batimentos se sincronizavam imitando nossas mentes
Sorri para ele e algumas lágrimas caíram do meu rosto, não porque meu sonho era me casar, não porque achava que seria mais aceita pela mídia por causa dessa convenção social idiota, mas porque querer se casar comigo em meio ao caos que desorientaria qualquer um era a prova mais visceral de amor que alguém já havia me proporcionado, e o amor era algo que eu desconhecia antes de toda minha história com Kurt e a banda. Os corpos já não eram mais vazios e frios, o afeto não era mais uma luta constante contra a dor que vinha junto a ele. Minha vida fazia um pouco mais de sentido.
Não era só o calafrio em minha espinha, a adrenalina e a paixão, era Kurt. Amava Kurt.
- Quero - falei quase em um sussurro
Pela primeira vez em muito tempo, vi um sorriso genuíno vindo dele, um que não escondia dor nenhuma e nem era forçado, um calor em si que se transmitia a mim. Ele me beijou e riu.
- Eu não tenho uma aliança, mas vou te comprar a mais bonita que achar. - o loiro disse um pouco envergonhado - me desculpe, eu não tinha planejado, só pareceu certo sabe, você e eu.
- Não importa - ri um pouco - é isso que importa né? Ter pedido
Suas bochechas se tornaram rosa em um instante e ele afundou a cabeça no meu pescoço novamente.
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𝐃𝐫𝐚𝐢𝐧 𝐘𝐨𝐮 | ᴋᴜʀᴛ ᴄᴏʙᴀɪɴ
Fanfiction"E se eu achasse alguém que em meio à tanta água estivesse se afogando como eu?" Amber era uma típica groupie dos anos 80, cheia de sonhos estragados por um namorado abusivo e uma mãe que a expulsa de casa. Sem abrigo, sem comida, sem dinheiro, apen...
