Capítulo 12 | Beber até morrer

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  Acordei no sofá deitada no colo de Kurt enquanto ele roncava. Deveriam ser umas duas da tarde, já que o sol que saía pelas frestas da janela estava bem forte. Me mexi um pouco tentando sair, e percebi a mão dele acariciando meu cabelo e minhas bochechas. Kurt acordou.

  Naquele momento eu vi o quanto que estar naquela banda me fazia bem. Eu tinha amigos, um emprego incrível, não morava com minha mãe, estava pela primeira vez em anos começando a melhorar. Meu passado me assombra e me persegue em cada um dos lugares que vou, isso é inevitável, doloroso, mas não posso apagar, só posso ter esperança, e era aquilo que eu queria sentir. Pela primeira vez em anos me sentia feliz, eufórica.

  Me levantei do colo de Kurt e dei um beijo em sua bochecha, sentei ao seu lado, e ele me envolveu com um de seus braços. Estava tão feliz e isso era o que eu queria fazer no momento, ficar ali para sempre e esquecer de tudo. O loiro deu um sorriso tímido de canto, não parecendo muito entender meu carinho exagerado.

- Bom dia - falei me sentando de frente pra ele no sofá. Percebi que estava com um pijama curto e sem sutiã, coloquei meus cabelos negros para frente na intenção de me esconder.

- Bom dia, está bem-humorada por causa da entrevista, certo? - ele me questionou e assenti com a cabeça - foi ótima, eu estava pensando no que você falou. "Se é genuíno então vale a pena", e acho que é literalmente isso o que a gente faz. Vem de nós, e todos os anos ruins valeram a pena, simplesmente para estarmos aqui agora. Se eu morresse amanhã, não sei se estaria realizado, mas talvez um pouco menos pior que o de sempre. Enfim, obrigado por me ajudar.

Encarei ele por um tempo, raciocinando o "obrigado" genuíno vindo dele. Kurt pareceu meio desconcertado com aquilo.

- Porque está me olhando? - disse parecendo querer esconder a própria cara em algum lugar

- Não sei. Acho que estou só feliz pelo que você disse

  Ele sorriu de uma forma singela, mas não disse nada, só me encarou com seus olhos azul piscina, tão frágeis que a qualquer momento pareciam querer desabar. Porra, ele era tão lindo. Meu coração palpitou por um segundo ao imaginar o quanto eu desejava ser feliz ao lado dele, e ali percebi que estava indo longe demais. Ele era meu amigo, colega de banda, e eu estava sentindo alguma coisa, não gostava nada disso. Tinha medo, pavor.

  Sorri sem graça, tirei ele de mim e saí de perto. Kurt ficou confuso, mas sequer expliquei alguma coisa para ele, só falei umas palavras rasas e me escondi no quarto, seguido de um alívio, mas o sentimento me acompanhava, mesmo parecendo errado. Eu sabia bem que não era algo novo, e eu tinha deixado crescer.

  Um toque no meu quarto me chamou a atenção. Era o telefone, e eu realmente não estava com cabeça para isso, mas já que alguém me ligar era algo difícil de acontecer, suspirei fundo e peguei o objeto vermelho no criado mudo.

- Alô? - falei sem ânimo nenhum

- Filha? - era minha mãe. Travei por um tempo até escutá-la falando novamente - preciso de um favor. Seu padrasto saiu de casa e te escutei na rádio. Sei que agora tem dinheiro, e preciso de você

Minha garganta trancou e simplesmente não consegui dizer nada. Travei.

- Não vai ajudar sua própria mãe? - sua voz passiva-agressiva voltou a ecoar em meus ouvidos - sua vadiazinha, depois de tudo que fiz por você, te aceitar em minha casa depois de ter fugido. Sua putinha, você seduzia meu marido desde que tinha onze anos, e eu sou a pessoa ruim? - aos berros, ela me destruiu - estou indo no seu apartamento agora.

  Peguei a merda do telefone e o desliguei, o jogando com força onde antes estava. Puta merda. Como ela sabe onde eu moro?

  Eu queria gritar. Não podendo extravasar minha raiva, chorei silenciosamente que nem uma criança, minhas pernas fraquejaram e me permiti destruir toda a felicidade que tinha conseguido até pouco tempo atrás. Parecia que toda vez que eu conseguia ser feliz a vida voltava a me foder com mais alguma merda e complicar tudo. Mas ninguém morre virgem mesmo.

𝐃𝐫𝐚𝐢𝐧 𝐘𝐨𝐮 | ᴋᴜʀᴛ ᴄᴏʙᴀɪɴOnde histórias criam vida. Descubra agora