Capítulo 23 | Kill the mental ill

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"mate os doentes mentais"


  Depois que Kurt se internou, minha vida foi composta quase que exclusivamente pela turbulência da abstinência. Abstinência daquele relacionamento agressivo, dele, das substâncias que me faziam esquecer da minha vida insignificante, que no fim, traziam de volta o mesmo vazio que me lembrava das minhas tragédias, como eu sentia pena de mim mesma, e raiva, muita raiva.

- Eu só queria poder ter tido uma infância normal sabe? - as lágrimas escorriam de meu rosto.

  Eu também estava em uma clínica de reabilitação, mas não seria por muito tempo.

- Oh sim, entendo querida - a terapeuta colocou uma mão em meu ombro, ainda com aquela expressão que todos faziam. 

  Senti vergonha de mim mesma. Era isso que eu era, algo a se sentir pena.

  Quando terminamos nossa conversa, levantei-me da poltrona e caminhei pelos corredores da clínica até meu pequeno quarto. Sentei na cama e vi minha visão ficar turva de lágrimas. O cheiro forte de desinfetante me incomodava, e enfermeira entrando e saindo do quarto de tempos em tempos com aquele rosto cansado e vazio me angustiava, minha cabeça latejava de dor, da falta de dopamina. Sem as drogas pra ocupar o espaço a única coisa que eu conseguia reparar, era que eu não tinha pelo que viver. Eu não vivia por mim, não vivia pela felicidade, por uma família, por ninguém. No final eu não tinha nada, só um peso pra carrega e uma imensa dúvida de como as pessoas conseguiam viver só por viver. 

- Você que é a doida do Nirvana? - escutei uma voz ecoar de dentro daquele quartinho escuro

  É, eu devia estar enlouquecendo mesmo. Fiquei quieta, já que pensei que era uma alucinação devido à abstinência, mas quando olhei melhor para o outro canto, perto da cortina, vi Daisy, uma garota que também estava se reabilitando, mas nunca tinha trocado uma palavra comigo.

- Sou - falei em um tom baixo e desconfiado

  Um sorriso ladino surgiu de seu rosto.

- Parece mais doida pessoalmente que na Tv

- Obrigada - respondi - geralmente me chamam de drogada, puta, sabe como é. Prefiro isso, doida. 

  Seus olhos grandes e olheiras profundas se comprimiram com seu sorriso seguido de uma gargalhada estranha, como um porco chiando. Naquele instante imediatamente um sentimento de acolhimento me percorria como se eu finalmente pudesse ser normal em meio a um mundo regido pela insanidade. 

  Daisy se deitou em sua cama que ficava a uns metros ao lado esquerdo da minha. Seu corpo se virou de lado naquela colchão duro como o meu enquanto me encarava. Quanto mais eu notava, mais perto seus globos oculares me penetravam, e sem piscar, sem dizer nada, sentia nela uma presença pesada. No entanto, não sentia medo algum, pois em minha mente havia uma voz interna que gritava, desejava e me dizia que se ela me matasse, seria melhor. 

   Fechei os olhos e imaginei suas frias mãos com uma lâmina percorrendo meu pescoço à noite. Pensei no depois, nos jornais, em Kurt, Krist, Dave, os únicos que se importavam comigo. Olhei novamente para a garota que me encarava e comecei a chorar. Eu era uma puta egoísta. 

- Você quer me matar?

  Seus lábios, antes contraídos, se esticaram para os lados em um sorriso, e novamente como uma porca, ela riu.

- Você quer morrer? 

  Não respondi, apenas chorei. 

- Então faça você mesma, foge e se mata. - ela bufou - eu já estou de saco cheio de mulheres como você que só choram e se lamentam. Se quer morrer, então acabe logo com isso e não me incomode me perguntando se vou te matar. - seus olhos se cerraram - ninguém vai sentir pena de ti aqui. Parece ma criança a se espernear.

  Aquelas palavras afundaram em mim como se ela realmente tivesse me esfaqueado. 

- Você é uma puta - falei instintivamente - uma puta - repeti em tom alto

  Daisy se levantou da cama e voou em cima de mim. Ela prendeu meus braços sobre a cama, em contrapartida, chutei o meio de suas pernas e seu corpo estremeceu sobre mim. Caí no chão com ela, que rapidamente planejou seus próximos movimentos. Meus pulsos doíam enquanto a mulher me agarrava e me enforcava com apenas uma mão, entretanto, parecia que mesmo que meu pescoço doesse, mesmo que me visse à beira da morte, eu não morria 

 A porta foi aberta abruptamente por uma enfermeira que escutava nossos gritos. Fechei meus olhos e me debati enquanto Daisy saía de perto de mim e a mulher de vestes brancas arrastava apenas a mim até uma pequena sala. 


[...] 


   Acordei horas depois em uma outra sala com duas profissionais ao meu lado.

- O que fizeram com Daisy? - perguntei, meu coração acelerado

- Você teve apenas uma alucinação por abstinência, é normal e lidamos com isso com casos graves como você - a ruiva a minha direita me respondeu - depois que se alimentar, vai para uma consulta com a Doutora Flowers, certo minha querida? Descanse

  Um sentimento de decepção passou por mim. Eu não quase morri e nem Daisy nunca existiu, assim como se mostrou como uma manifestação de mim, então decidi, iria morrer. Minha colega de quarto imaginária era eu mesma me dizendo para tomar coragem.

 Em nada mais pensei durante o dia  além de planejar o que, como e de que forma iria fazer. Minutos se tornaram horas, e o dia se tornou noite. Meu coração acelerou, e num impulso, quebrei com uma cadeira as janelas que não possuíam abertura do quarto e pulei, rasgando assim minha perna. Atravessei matos e mais matos até sair dos arredores do estabelecimento e finalmente chegar à zona urbana de Los Angeles. 

  Me escondi dentro de uma pequena loja de conveniência antes que pudesse ser reconhecida. Os olhos de um idoso, provavelmente dono de lá, se estreitaram para mim. 

- Boa noite senhor - sorri timidamente - poderia me emprestar o telefone fixo daqui?

- Posso - ele abriu a entrada do balcão - não é todo dia que se encontra uma pessoa tão... famosa quanto você - seus olhos me admiravam enquanto eu discava o número de uma velha amiga minha que morava nessa cidade - em troca, quero uma foto sua 

  Acenei com a cabeça, e quando a garota me atendeu, pedi que ela comprasse uma passagem de avião para que eu pudesse voltar à Seattle. Menti que estava bem e que precisava voltar para casa. 

O velho olhou para mim depois que a ligação acabou. Seu sorriso se formava enquanto eu humilhantemente posava para a foto. Sorri sem graça e ele me fotografou como um animal em um zoológico.

- Essa foto deve valer alguma coisa à uma revista - ele murmurou consigo mesmo, mas não me importei. Já era costumeiro que me vissem como um objeto, mercadoria midiática - boa sorte  

- Quem dera - respondi meio sem graça 

   




𝐃𝐫𝐚𝐢𝐧 𝐘𝐨𝐮 | ᴋᴜʀᴛ ᴄᴏʙᴀɪɴOnde histórias criam vida. Descubra agora