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Era um sábado ensolarado e surpreendentemente silencioso em Reseda. Para Sofia, era um grande alívio não ter que encarar a escola. Ela estava pronta para passar o fim de semana inteiro trancada em seu quarto, em silêncio e fingindo que não existia, tal qual seu ídolo de infância, Harry Potter. Só ela, seu quarto, alguma maratona boba que a fizesse esquecer o caos da vida real.

Com um pijama de ursinho que já perdera metade da estampa e um coque torto no alto da cabeça, ela se arrastava pela casa em busca de algo para comer. Seus pés deslizavam preguiçosos pelo chão frio enquanto bocejava.

— São dez da manhã de um sábado e você ainda está em casa. — foi a primeira coisa que Johnny disse assim que a viu entrar na cozinha, com uma sobrancelha arqueada e uma caneca de café forte nas mãos. — O que você tá fazendo aqui?

Sofia ergueu os olhos devagar, sem pressa.

— Eu moro aqui, tá me expulsando agora? — respondeu num tom arrastado, indo até a geladeira. Pegou um suco de laranja e virou direto da garrafa, completamente alheia à cara de reprovação do pai. — Falcão e Tory foram treinar. Achei melhor ficar por aqui hoje.

Era raro ela ficar em casa, e os dois sabiam disso. Desde que se afastara do Cobra Kai, Sofia havia se tornado quase um espírito inquieto. Mas hoje, ela só queria paz.

— Por que não vai com eles? — o loiro perguntou, vendo a filha arquear uma sobrancelha. — É, vai com eles, você adora karatê. E uma adolescente sozinha em casa em um sábado é deprimente.

Era claro que Johnny não queria sua filha treinando com um maluco igual ao Kreese, mas sabia o quanto Sofia amava aquele esporte mais que qualquer um, e se sentia mal ao vê-la em casa sozinha enquanto seus amigos estavam no dojô.

— Que fique bem claro que eu adoro ficar sozinha em casa, ok? Não tem nada de deprimente em ser caseira de vez em quanto. — se defendeu, vendo seu pai fazer um rosto debochado, os dois sabiam que aquilo era mais pra convencer a ela mesma. — E eu não vou voltar pro Cobra Kai, já decidi isso.

— Mas você poderia. — Sofia, que já estava saindo da cozinha, virou e olhou para o mais velho, tentando entender se tinha escutado certo. — O Kreese é um idiota, mas todos seus amigos estão lá, eu sei que sente falta deles, e principalmente do karatê. Eu não posso tirar isso de você.

— Ficar do lado do cara que traiu meu pai e tá criando um exército de idiotas? — soltou uma risada fraca pelo nariz. — Não, obrigada. O certo seria você voltar a dar aula, você foi um bom sensei. A gente aprendeu muito com você. Só errou em confiar no cara errado. E ao invés de consertar, você só largou tudo. — cruzou os braços novamente, quase desafiadora. — Isso não é muito másculo, né?

— Ei! — ele se ofendeu. A filha estava certa, e ele sabia disso. Ficou em silêncio, tentando buscar uma resposta, mas foi salvo pelo som da campainha.

— Salvo pelo gongo. — ela comentou, rindo de leve. — Mas você sabe que eu tô certa.

Johnny saiu da cozinha como um foguete, quase aliviado, e abriu a porta com um pouco mais de força do que precisava.

— Johnny, você não atende o telefone. — Daniel começou dizendo sem mais delongas, mas se assustou ao ver o estado de Johnny, que continuava com seus cabelos bagunçados, barba por fazer e agora tinhas alguns hematomas em seu rosto, resultado de uma briga no bar alguns dias atrás. — Cara, o que tá aconteceu com você?

— Eu bati a cabeça. — deu uma desculpa qualquer. — O que faz aqui?

— Eu fui até seu dojô, vi seu antigo sensei. O que houve? Achei que ele tivesse ido embora.

changes | eli moskowitzOnde histórias criam vida. Descubra agora