006.

3.8K 321 99
                                        

Sofia caminhava pelo pátio com a cabeça erguida e os passos firmes. Quem a visse de longe talvez nem notasse que algo estava fora do lugar. Ela sorria para alguns comentários de Miguel, respondia com um aceno, e até soltava uma piadinha quando passou por Demetri. Mas os olhos diziam outra coisa. Estavam mais cansados, menos brilhantes. E por mais que ela fosse boa em disfarçar, Eli notou.

Ele estava sentado em um dos bancos próximos ao mural da escola, fingindo revisar a matéria de química. Na verdade, estava só esperando o sinal tocar, e talvez, sem perceber, esperando vê-la passar. Quando seus olhos pousaram em Sofia, algo não encaixou. Ele não conhecia a fundo os motivos, mas sentia. Sofia era sempre cheia de energia, intensa, barulhenta até, no bom sentido. Mas agora ela parecia menor, como se estivesse encolhida dentro de si mesma. Isso incomodou Eli mais do que ele gostaria de admitir.

Antes que pudesse pensar duas vezes, se levantou e foi atrás dela. Ele a encontrou sentada num banco de concreto sob a sombra de uma árvore, longe do burburinho dos colegas. Ela estava com fones de ouvido e parecia distraída. Quando chegou perto, parou a um passo de distância.

— Oi, Sof. — disse, a voz saindo um pouco mais baixa do que pretendia.

— Oi, Eli. — Sofia tirou um dos fones e levantou os olhos lentamente. O sorriso que ela lhe deu foi pequeno, mas ainda assim gentil. — Tudo certo?

— Sim, claro. — ele respondeu simples. — Posso sentar?

— Pode. — ela sorriu.

Ele se sentou, deixando espaço entre eles, respeitando aquele limite invisível que não queria cruzar. Não sabia bem como agir sozinho perto dela, nunca soube. Sofia tinha esse efeito estranho nele, fazia seu coração bater mais rápido, suas palavras se embaralharem antes mesmo de saírem da boca.

Por isso, ficou em silêncio por um tempo, observando de canto de olho. Ela estava claramente em outro lugar. O olhar perdido, os dedos mexendo no próprio pulso, distraída. Mas não era aquele tipo de distração comum, era uma tristeza quieta, e isso mexia com ele mais do que deveria.

— Você tá bem? — Eli passou a mão pela nuca, nervoso.

— Já estive melhor. — ela deu de ombros, sem falar muito.

— Aconteceu alguma coisa? — Eli assentiu devagar, esperando mais, mas ela ficou em silêncio. O impulso de deixar quieto veio, mas foi menor do que a vontade de entender. De estar ali por ela, mesmo sem saber como. — Quer dizer... desculpa perguntar. É que você parece meio diferente hoje.

Ela finalmente olhou para ele. Sofia não era do tipo que gostava de demonstrar fragilidade. Mas de alguma forma, a presença calma e sem pressão de Eli era reconfortante. Ela não precisava esconder tanto com ele.

— Ontem foi um dia ruim. — respondeu, por fim. — Tive uns problemas em casa. Briguei feio com meu irmão, e me mudei pra longe deles. — ela ajeitou o cabelo, evitando o olhar dele. — Agora tô morando com meu pai.

— E você tá bem com isso? — ele piscou, surpreso.

— Ainda não sei, tô processando tudo o que aconteceu ontem. — Sofia deu um meio sorriso, cansado, mas sincero. — Acho que sim. Foi necessário, sabe?

Ele assentiu, e depois olhou para frente, sem saber o que dizer. Estava absorvendo tudo. Ela havia se mudado, por conta de uma briga. Agora morava com o pai. Era muita coisa.

Mas havia uma parte de Eli, a parte que já gostava dela há algum tempo, mesmo que não tivesse coragem de tomar uma atitude, doía só de imaginar o quanto ela devia ter se sentido sozinha para tomar essa decisão.

changes | eli moskowitzOnde histórias criam vida. Descubra agora