037.

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A porta da frente se abriu com um rangido típico, e logo Johnny entrou primeiro, segurando a cadeira de rodas de Miguel com pouca delicadeza, como se o garoto fosse apenas mais um saco de pancadas que ele estava acostumado a carregar pela vida. Miguel, sentado, tentava não rir da falta de jeito do sensei.

Na sala, Sofia estava deitada de lado no sofá, as pernas esticadas, um livro de capa preta apoiado contra as coxas. Normalmente, qualquer um esperaria vê-la com um romance meloso nas mãos, daqueles que ela sempre dizia que eram ótimos para esquecer a realidade. Mas depois do fim do namoro, ela havia declarado guerra contra qualquer coisa fofa demais e mergulhado de cabeça em histórias de suspense.

Ao ouvir o barulho da porta, Sofia levantou os olhos do livro, e a expressão carrancuda que carregava se desfez instantaneamente ao ver Miguel.

— Miguel! — exclamou, largando o livro de lado e se endireitando no sofá. O brilho nos olhos dela era sincero, o que fez o garoto sorrir ainda mais. — O que estavam fazendo até agora?

Miguel soltou uma risadinha antes mesmo de responder, como se a memória recente fosse engraçada demais para guardar só pra si.

— Você não vai acreditar. — disse, lançando um olhar rápido para Johnny, que já começava a se remexer, claramente desconfortável. — O seu pai resolveu que precisava de umas fotos novas pro perfil dele no Facebook.

Sofia piscou algumas vezes, franzindo o cenho, como se tivesse certeza de que tinha entendido errado.

— Espera, o meu pai? Fotos pro Facebook? — ela apontou para Johnny, que estava fingindo mexer em qualquer coisa perto da estante. — Desde quando ele se importa com redes sociais? Esse homem não sabe nem ligar o notebook sem me chamar.

Johnny se virou, ofendido.

— Ei, eu sei mexer no básico. — disse, levantando o queixo, mas a insegurança denunciava que era mentira. — Não é nada demais, só umas fotos.

— Não é nada demais? — Miguel repetiu, balançando a cabeça com um sorriso malandro. — Ele queria que eu tirasse umas fotos legais, sabe, de ângulos diferentes, tentando parecer. É que ele queria impressionar uma garota do ensino médio dele.

O silêncio que se seguiu foi ainda mais revelador. Sofia virou o rosto devagar na direção do pai, estreitando os olhos.

— Uma garota do ensino médio? — repetiu, fingindo refletir. — Espera aí, por acaso, seria a Ali?

Johnny, que até então encarava o nada na estante, ficou completamente imóvel. Fingiu não ter escutado, passando a mão na nuca e desviando o olhar como se de repente o teto tivesse se tornado incrivelmente interessante.

— É a Ali. — afirmou com certeza, cruzando os braços, e um sorriso lento e cheio de malícia tomou conta de seu rosto. — Só pode ser.

Miguel riu baixinho, se divertindo com a cena. Johnny continuava quieto, mas a vermelhidão em suas orelhas entregava mais do que qualquer resposta. Sofia bufou, balançando a cabeça, mas não conseguiu segurar uma risadinha divertida.

— Sério, pai? Você, tirando foto pra impressionar uma garota... — ela fez uma pausa dramática. — Do colégio? Isso é tão patético que chega a ser fofo.

Johnny pigarreou alto, claramente querendo cortar o assunto pela raiz antes que piorasse. Passou a mão pelos cabelos loiros de maneira nervosa, como se isso fosse uma forma de ganhar tempo.

— Tá, chega dessa conversa. — disse, finalmente, com o tom mais firme, tentando recuperar a postura de sensei. — Já tá na hora de a gente começar com a fisioterapia do Miguel.

changes | eli moskowitzOnde histórias criam vida. Descubra agora