A noite estava pesada, a chuva caía fina, quase um sussurro na janela de seu quarto. Em Los Angeles chovia apenas três noites por ano, e Falcão teve a sorte de uma delas ser bem naquela noite. Ele estava ali, deitado em sua cama com nada além de um fone de ouvido e seus pensamentos. O aparelho tocava baixo, mas era impossível ignorar, a voz rouca de Liam Payne invadia seus ouvidos com Teardrops, como se tivesse sido escolhida a dedo pelo destino para torturá-lo.
Ele fechou os olhos, apertando-os com força, como se pudesse apagar a música, ou talvez, o que vinha junto com ela, porque no fundo, ele sabia: essa música era Sofia. Era ela rindo no banco do passageiro, bagunçando o cabelo dele com aquela liberdade que só ela tinha. Era ela de olhos marejados, dizendo que o amava mesmo quando ele não merecia. Era a última briga, as palavras cuspidas com magoa, as costas dela virando a esquina para nunca mais voltar.
O rosto de Demetri também aparecia como um soco no estômago. Ele o viu caído chão como se fosse ontem, segurando o braço machucado, o olhar magoado como uma ferida aberta, era o mesmo olhar de anos atrás, quando eram só dois garotos invisíveis no corredor da escola. Dois perdedores, dois fracassados. E agora, Falcão tinha feito aquilo. Tinha quebrado o braço do melhor amigo.
Ele suspirou, fechando os olhos, as lágrimas ameaçando a descerem. O Cobra Kai sempre dizia: sem compaixão, sem fraqueza. Era o lema, era a regra, não havia espaço para piedade ou para arrependimentos. Foi ali que ele tinha aprendido a se defender, a se levantar, a não ser mais o garoto frágil que ficava encolhido no chão enquanto os outros chutavam seus livros ou zombavam de sua cicatriz no lábio.
Mas a que custo?
Falcão sabia que havia uma linha, e ele a cruzou, bateu forte demais. Quis mostrar que não era fraco, que não era o Eli que o mundo zombava. Só que no processo, ele feriu pessoas que um dia significaram o mundo para ele.
O peso no peito aumentou, ele tentou afastar as lembranças, mas elas voltavam em flashes. A cara de aprovação do sensei, a comemoração de seus amigos do dojô dizendo que ele havia feito a coisa certa enquanto Demetri chorava de dor no chão. Ele tinha feito o que precisava para não parecer fraco, mas por dentro, Falcão se sentia menor do que nunca. A culpa queimava. Não só por Sofia, mas por Demetri também.
Ele sabia que não podia voltar atrás. No Cobra Kai, fraqueza era uma sentença, não podiam vê-lo hesitar, muito menos chorar. Ele tinha que manter a pose, ser o bad boy, o durão, aquele que ninguém ousaria desafiar. Só que, no silêncio do carro, com a música arranhando a alma, essa máscara parecia mais pesada do que nunca.
Queria voltar. Queria desfazer cada golpe, cada palavra dita sem pensar. Queria estar ao lado de Demetri, rindo das piadas bobas enquanto dividiam um lanche, queria ter segurado Sofia nos braços naquela noite e implorado para que ela ficasse. Mas ele tinha escolhido outro caminho, tudo aquilo era sua culpa.
Ele socou seu colchão, como se aquilo pudesse aliviar alguma coisa, o som abafado ecoando no quarto fechado. A raiva era a única coisa que ele ainda sabia sentir sem medo, a raiva por quem ele era, por quem ele perdeu. Só que, naquele momento, ela era inútil, porque ele não podia socar o passado.
O celular vibrou no painel. Ele o encarou, como se pudesse ver através da tela. Mas não era ela, não era ninguém que importava. O reflexo na tela do celular o encarou de volta. Os olhos fundos, a expressão abatida, os ombros curvados, nem parecia o Falcão que todos temiam. Só Eli, o garoto invisível que queria ser visto.
A música parou. O silêncio o engoliu como um poço sem fundo, e Falcão sentiu as lágrimas ardendo nos olhos mais uma vez. Ele virou fechou o punho, apertando os dedos na mão, mais uma vez tentando descontar o que sentia. Se alguém o visse, ninguém acreditaria, o durão, o Cobra invencível, chorando sozinho na chuva.
Mas ali, ninguém estava olhando.
E talvez fosse por isso que ele finalmente deixou as lágrimas caírem.
🥋
A madrugada parecia interminável. O céu escuro, pontilhado de estrelas apagadas pela luz da cidade, espelhava o vazio que Sofia sentia. Ela estava deitada em sua cama, encarando o celular que piscava silenciosamente ao seu lado. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação.
Já fazia semanas, mas o silêncio dele ainda doía como no primeiro dia.
Em sua frente ou dos amigos, ela mantinha sua postura de quem não se importava mais, o encarava friamente, provocava ciúmes e dava sorrisos debochados, mesmo quando seu coração explodia de amor pelo garoto. Mas ali, onde ninguém podia vê-la, era quando sua máscara caia.
Sofia respirou fundo, apertando as mãos no lençol amassado. Ela era forte. Sempre foi. A melhor lutadora entre todos os amigos, alguém que nunca fugia de uma briga, que se levantava mesmo quando era derrubada. Mas ali, sozinha em seu quarto, sentia-se despedaçada.
Era ridículo. Uma garota como ela, invencível no tatame, estava sofrendo por um garoto.
Por ele.
Eli. Não o Falcão, com sua arrogância e postura de bad boy, mas o garoto que ela conheceu antes. O garoto que compartilhava segredos com ela, que ria com facilidade e a olhava como se ela fosse tudo o que importava em sua vida e a fazia se sentir a única garota do mundo. Onde ele tinha ido parar?
Ela levantou, cruzando o quarto como se pudesse fugir dos próprios pensamentos. Cada passo era como pisar em cacos de vidro. Queria ser mais forte do que isso, queria simplesmente esquecê-lo, mas a verdade era que, quando tudo começou a desmoronar em sua vida, ele estava lá, ela não sabia como continuar sem ele.
Era Eli quem segurava sua mão quando ela precisava enfrentar as batalhas mais difíceis. Era ele que a fazia rir nos dias ruins, que a incentivava a nunca desistir, mesmo quando parecia que o mundo estava contra ela. E agora, sem ele, mesmo cercada pelos amigos e pelo pai, Sofia sentia-se sozinha.
Porque não era só sobre ter alguém ao lado. Era sobre ter ele.
Ela parou em frente ao espelho, encarando a própria imagem. O cabelo loiro preso em um coque desfeito, as olheiras profundas sob os olhos azuis. Não parecia a garota forte que todos admiravam. Parecia cansada, perdida.
— Quando você vai voltar, Eli?— sussurrou, a voz quase inaudível.
Ela sabia que ele nunca a machucaria de propósito. Mas ele tinha mudado, as escolhas dele, as atitudes, tudo estava longe do garoto por quem ela se apaixonou, e ela não podia ficar com alguém assim. Não quando ele machucava os outros para provar algo que ela nunca precisou que ele provasse.
As memórias voltaram com força, como um soco no estômago. O sorriso dele, a maneira como ele a puxava para perto, como se o mundo inteiro desaparecesse quando estavam juntos. Ela sentiu os olhos arderem, mas piscou rápido, se recusando a chorar.
Sofia não chorava. Ela lutava.
Mas, naquela noite, sentada no chão do quarto, os joelhos dobrados contra o peito, ela se deixou sentir mais uma vez, sentir a falta dele, a saudade do garoto que a amava como ninguém.
Aquele garoto ainda estava lá, em algum lugar, escondido sob as camadas de raiva que ele construíra ao entrar no Cobra Kai. Sofia sabia disso. Sabia que ele ainda podia voltar a ser quem era, mas ele precisava escolher isso sozinho. E ela precisava ser forte o suficiente para esperar, ou seguir em frente sem ele.
As lágrimas vieram antes que ela pudesse impedi-las, quentes e silenciosas. Era estranho como, mesmo sendo tão forte, o vazio dentro dela parecia impossível de vencer. Mas ela sabia que ia continuar, sempre continuava, porque, no fundo, Sofia era assim, mesmo quando se sentia quebrada, ela nunca parava de lutar.
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changes | eli moskowitz
FanficOnde Sofia está cansada de viver com uma mãe negligente, e vê uma oportunidade de sair dessa situação quando seu pai, Johnny Lawrence, decide reabrir o antigo dojô de sua adolescência, o Cobra Kai.
