030.

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Naquela segunda-feira, Sofia acordou com a menor vontade possível. A luz fraca que entrava pelas frestas da cortina parecia mais agressiva do que o normal, fazendo ela cerrar os olhos e cobrir o rosto com o braço. A cabeça latejava, a boca estava seca e o estômago embrulhado. A sensação era inconfundível, ressaca.

Soltou um gemido abafado, tentando entender onde exatamente tinha deixado o juízo na noite anterior. Assim que se virou na cama, sentiu algo duro encostar em sua perna. A garrafa de whisky. Sofia se sentou com pressa, ainda grogue, e agarrou a garrafa com as duas mãos. Estava vazia. Droga.

O arrependimento veio como um tapa seco no rosto. Ela praguejou baixinho e correu para escondê-la debaixo da cama novamente, entre algumas caixas velhas e roupas que não usava mais. Seu pai não podia ver aquilo. Não depois da conversa que tiveram. Não depois de tudo. Ela não podia ser mais um problema naquela casa.

Cambaleando, foi direto para o banheiro. Ligou o chuveiro no mais gelado possível e entrou sem nem tirar a camiseta que dormira. A água fria caiu sobre sua pele, fazendo-a estremecer, mas foi o choque que precisava. Deixou a água escorrer por alguns minutos, respirando fundo, tentando se recompor. Queria lavar a noite anterior do corpo. 

Ela sabia que aquele não era um dia qualquer. Era o primeiro dia de volta à escola depois da suspensão pela briga. Não podia simplesmente faltar. Já bastava estar com a imagem arranhada entre os professores.

Se secou apressada, vestiu jeans escuros e uma camiseta básica. Penteou o cabelo levemente amassado por ter dormido com ele ainda molhado e passou corretivo sob os olhos e blush rosado nas bochechas, tentando esconder o cansaço estampado em seu rosto. 

Enquanto colocava os tênis, ouviu a buzina do lado de fora. Eram três toques curtos e seguidos, o sinal de sempre, era Eli, e Sofia não pode evitar o sorriso ao notar sua presença. Ele havia prometido a vir buscar para que ela não fosse sozinha pra escola, principalmente naquelas circunstâncias. Ela sabia que ele estava tentando estar por perto, e apesar de não admitir em voz alta, isso significava mais do que qualquer palavra de apoio.

Sofia pegou a mochila, respirou fundo mais uma vez e saiu do quarto. O dia estava apenas começando, e ela já estava cansada.

— Seu passarinho chegou cedo hoje. — ela parou no meio do caminho, rolando os olhos, mas sem responder de imediato. Caminhou até a geladeira e pegou uma garrafa de água gelada, esperando que isso aliviasse um pouco a dor de cabeça que ainda insistia em pulsar. — Você nem tomou café comigo hoje. — completou Johnny, agora com uma expressão emburrada e um pouco magoada.

— Ah, me desculpa, pai, a gente vai mais cedo porque eles estão revistando todos os alunos na entrada da escola agora, então é melhor pra não nos atrasarmos. — explicou pegando uma garrafa de água na geladeira. — E para de chamar meu namorado de passarinho.

— Ele parece com um passarinho com aquele cabelo ridículo.

— Achei que gostasse do cabelo dele, você mesmo falou que era radical.

— Eu não me lembro disso não. — a menina semicerrou os olhos, esperando ele parar com a negação. — Beleza, era legal, até ele começar a namorar com a minha filha, aí ficou horroroso.

— Ah, claro. Faz muito sentido, papi. — riu indo até o mais velho, lhe dando um abraço rápido. — Eu tô indo pra aula, não morra de saudades. — deu um beijo rápido na bochecha de seu pai e saiu.

— Não fica até tarde na casa desse garoto! — foi a última coisa que ela pode escutar antes de sair pela porta. Viu seu namorado encostado na porta do carro, com o moicano vermelho e as roupas todas pretas. Sorriu pensando o quão atraente ele estava naquele dia.

changes | eli moskowitzOnde histórias criam vida. Descubra agora