A vida de Sofia estava um verdadeiro caos, e essa era uma definição até gentil. Fazia duas semanas que Miguel estava em coma, e a cada novo dia no hospital, as esperanças de vê-lo abrir os olhos diminuíam um pouco mais. Robby, o responsável por tudo aquilo, havia sumido do mapa. A polícia o procurava, mas ninguém tinha notícias dele. Aisha se mudara de cidade logo após a briga no colégio, tentando recomeçar em algum lugar menos tóxico.
Para completar o pacote, seu pai vivia em bares com garrafas de bebida, nunca sóbrio o bastante para notar o colapso da própria filha. Sofia sentia como se estivesse se equilibrando na beira de um penhasco, e bastava um sopro para que ela desabasse de vez.
Naquela tarde, seu único alívio era saber que veria Tory e Falcão, os únicos que ainda estavam do seu lado. Eles tinham saído há pouco do treino no dojô e combinaram de se encontrar na lanchonete perto do quarteirão. Era quase nostálgico, antes, esse era um programa fixo deles depois dos treinos, quando tudo ainda parecia mais simples, mais unido. A diferença é que agora, ela não fazia mais parte do Cobra Kai.
— Oi, gatinha. — Tory acenou da mesa com empolgação, levantando um dos braços, chamando atenção de metade da lanchonete.
— Para com esse negócio de gatinha, só eu chamo ela assim. — Falcão reclamou, dando uma cotovelada leve na amiga.
— Ciumento. — Tory mostrou a língua pra ele, rindo.
— Não briguem por mim, tem Sofia pra todo mundo. — ela respondeu divertida, andando até a mesa. Se sentou ao lado do namorado e o beijou de leve. — Oi, amor. — ela sentou ao seu lado e deu um selinho no namorado.
— Não tem não, tem só pra mim. — disse enciumado, passando o braço por seus ombros, fazendo as duas rirem. — A gente fica longas horas sem se ver, e quando a gente finalmente se encontra, você fica dando moral pra essa loira azeda.
— Azeda é esse seu moicano podre, Falcão. — ela rebateu, rindo, mas com o tom ameaçador de sempre.
— Eu já disse que se você me chamar assim de novo, eu vou te assassinar. — ameaçou.
— Só espera eu casar com ele, aí você assassina depois, por favor. Quero garantir a herança primeiro. — Sofia disse com a maior seriedade do mundo, até ver o olhar chocado do namorado e cair na gargalhada. — Tô brincando, gatinho. — lhe deu um beijo na bochecha, fazendo ele se derreter na mesma hora. — E não foram longas horas, para de ser dramático. Nós nos vimos ontem a noite, e eu falei com você antes de você ir pro dojô.
— Duas horas no dojô, duas horas sem você. — Falcão recostou no encosto da cadeira e suspirou dramaticamente. — Era muito melhor quando eu chegava lá e sabia que ia te ver treinando. Sinto falta disso.
— Eu também sinto, mas eu tô melhor fora do Cobra Kai. — respondeu sem jeito, querendo evitar que aquele assunto se prolongasse. Nas últimas duas semanas, Falcão e Tory tentavam fazer a garota retornar para o dojô o tempo inteiro, sem sucesso, claro. Mas sinceramente, Sofia estava ficando de saco cheio desse assunto.
— Sof, você amava aquele lugar mais que todos nós juntos. — foi a vez de Tory argumentar. — Você nasceu pra lutar karatê.
— Sim, eu amo e sempre vou amar karatê. Mas o que tem lá agora não é o Cobra Kai que eu conheci. Não com o Kreese mandando em tudo. — ela olhou para os dois.
— Olha, amor, eu sei que você quer ficar do lado do seu pai, mas... — o de moicano ainda tentava traze-la para o dojô, mas foi interrompido.
— Mas nada, Eli. — a voz dela saiu mais firme do que esperava, fazendo com que ambos a olhassem com atenção. — Isso não tem nada a ver com o Johnny ser meu pai. Tem a ver com os meus princípios. Eu confiei no Kreese. Acreditei mesmo que ele estava tentando melhorar as coisas. Eu fui burra, dei espaço pra ele envenenar todo mundo. — ela bateu de leve na mesa com a ponta dos dedos, respirando de novo, mais controlada. — Se vocês ainda confiam nele, é com vocês. Mas não tentem me convencer. Eu tô cansada, exausta. E eu não aguento mais essa insistência.
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changes | eli moskowitz
FanfictionOnde Sofia está cansada de viver com uma mãe negligente, e vê uma oportunidade de sair dessa situação quando seu pai, Johnny Lawrence, decide reabrir o antigo dojô de sua adolescência, o Cobra Kai.
