053.

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A manhã estava fresca, e Sofia caminhava com uma certa lentidão, saboreando os últimos resquícios da noite passada com Eli. Ela precisava de um café, algo forte para acordar de vez e enfrentar a inevitável conversa com Johnny, que certamente estaria se perguntando onde ela havia sumido.

O mercadinho da esquina era pequeno e familiar, o ar dentro dele impregnado com o cheiro de café fresco e pão doce. Sofia pegou uma garrafa de água gelada e se dirigiu ao balcão para pagar, ainda absorta em seus pensamentos. 

— Sofia Keene. — foi então que uma voz, suave mas carregada de uma autoridade inconfundível, cortou o silêncio pacato do lugar. — Não esperava te ver aqui.

Ela ergueu os olhos e revirou-os instantaneamente. Parado no corredor de laticínios, com um sorriso tão polido quanto perigoso, estava Terry Silver. Ele estava impecavelmente vestido com um traje de ginástica caro, segurando uma garrafa de água com eletrólitos. Ele era exatamente como nas fotos que ela tinha visto online, um tubarão sorridente.

— O que você quer? — perguntou ríspida.

— Essa atitude... — ele continuou com um sorriso, aproximando-se com passos calmos. — Exatamente como imaginei. Kreese me falou muito sobre você.

— Eu não quero saber. — ela respondeu, o tom gélido, pegando seu troco sem desviar o olhar dele.

— Não se preocupe. — ele sorriu, juntando as mãos. — Ele acha que você é uma lutadora excelente, um talento natural desperdiçado. Mas, é uma pena estar do lado errado.

Enquanto falava, a mente de Silver trabalhava em silêncio. Ele não queria Sofia em seu time apenas por acreditar que aquele era o lugar dela, queria porque reconhecia nela algo raro, perigoso. Sofia era boa, boa até demais. Melhor do que qualquer um dos seus alunos atuais. Tory era excepcional, e ele sabia disso, mas Sofia estava em outro patamar, nenhuma das garotas da região se comparava a ela. A cada movimento que ele lembrava ter visto nos vídeos de suas lutas, crescia uma incômoda certeza, Sofia representava uma ameaça real ao domínio do Cobra Kai.

— Você não sabe nada sobre mim, ou sobre onde eu deveria estar. — ela enfiou a garrafa de água na mochila com um movimento brusco. 

— Eu sei o suficiente. — ele retrucou, a voz baixa, quase conspiratória. — Sei que você tem fúria. Sei que você tem uma sede de vencer que o Miyagi-Do tenta sufocar com uma filosofia sobre só se defender. — ele deu um risinho, e então continuou. — Vi uns vídeos seus lutando, você é brutal, minha querida. Alguém como você deveria estar no Cobra Kai, deveria estar com os melhores.

— O Cobra Kai é um culto de babacas agressivos. — ela cuspiu as palavras, com os olhos faiscando. — E eu não treino com gente assim.

— Você era a aluna favorita de Kreese. O legado dele. — o sorriso de Silver finalmente se apagou, substituído por uma análise calculista e fria. — O Cobra Kai é o único lugar para você, Sofia, e vai aprender isso, de uma forma ou de outra.

— Kreese nunca se importou com ninguém além dele mesmo. — Sofia rebateu, virando as costas para ele e empurrando a porta de vidro do mercado. — E eu não preciso dele.

Era difícil admitir até para si mesmo, mas Silver a temia. Não como homem, mas como estrategista. Se Sofia ganhasse a divisão feminina, ela podia desmoronar tudo o que ele havia construído. Ele não permitiria isso. Não permitiria que o Cobra Kai perdesse. Se Sofia não queria estar ao lado dele, então seria tratada como inimiga. E para inimigos, ele sempre tinha uma última carta guardada.

A porta bateu atrás dela, mas a sensação de desconforto que Silver deixou parecia grudar na sua pele. Ele não a elogiara, ele a avaliara, como um predador avaliando uma presa. Ela sacudiu a cabeça, tentando limpar a mente daquela interação, e começou a andar em direção à sua rua, a ansiedade sobre a conversa com Johnny agora misturada com uma nova e inquietante apreensão.

changes | eli moskowitzOnde histórias criam vida. Descubra agora