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A viagem de volta para os Estados Unidos ocorreu sem problemas. Johnny dirigia com sua costumeira impaciência, mas manteve o foco na estrada, ansioso para deixar aquilo para trás. No banco de trás, Sofia ocupava o assento do meio, uma barreira estratégica para evitar qualquer possível confronto entre Miguel e Robby, que apesar da trégua silenciosa, ainda não se suportavam completamente. O cansaço da catastrófica viagem mantinha os três adolescentes quietos, cada um perdido em seus próprios pensamentos, processando tudo o que haviam vivido nos últimos dias.

Ao chegarem à casa de Carmen, foram recebidos com um misto de alívio e preocupação. Carmen e Rosa os aguardavam de pé, claramente sem pregar os olhos a noite inteira. Assim que Miguel e Sofia cruzaram a porta, foram puxados para abraços apertados, primeiro de Rosa, que murmurava palavras rápidas em espanhol, e depois de Carmen, que os segurava com firmeza, como se quisesse se certificar de que estavam realmente ali, inteiros e seguros.

A bronca veio em seguida, mas o tom de Carmen, embora firme, carregava um fundo de cansaço e preocupação. Ela deixou claro que aquele tipo de atitude irresponsável não poderia se repetir, mas considerando a hora avançada, qualquer conversa mais séria ficaria para o dia seguinte. O importante agora era que estavam de volta.

Johnny não perdeu tempo. Assim que percebeu que a situação estava sob controle, ele conduziu Sofia e Robby para fora, pronto para ir para casa. O caminho até o apartamento foi silencioso, o peso das últimas semanas começava a se assentar sobre eles, trazendo um cansaço que ia além do físico.

Assim que entraram no apartamento, Johnny soltou as chaves sobre a mesa e fez um gesto breve com a cabeça, indicando que todos deveriam ir direto para a cama. Nenhum deles discutiu, Sofia seguiu para o quarto sem hesitar, sentindo o corpo finalmente ceder ao esgotamento. Robby fez o mesmo, sem trocar olhares ou palavras desnecessárias.

Quando a porta do quarto se fechou atrás dela, Sofia soltou um longo suspiro. Por mais que estivessem de volta, sabia que o verdadeiro peso do que fizeram só viria à tona na manhã seguinte.

🥋

O cheiro doce de panquecas recém feitas se espalhava pelo apartamento quando Sofia despertou. A luz suave da manhã entrava pelas frestas da cortina, aquecendo o ambiente com uma tranquilidade que contrastava com os últimos dias intensos. Por um momento, ela permaneceu ali deitada, absorvendo a sensação reconfortante de estar em casa. Mas o aroma familiar atiçou sua curiosidade, e guiada pelo instinto, ela se levantou, caminhando até a cozinha.

Ao virar o corredor, a cena diante dela a fez parar por um instante. Robby estava ali, de costas para ela, concentrado enquanto virava uma panqueca na frigideira. Ele parecia relaxado, os cabelos ainda um pouco bagunçados do sono, vestindo uma camiseta larga e uma expressão de leveza que ela não via há muito tempo. O barulho da massa chiando no fogo preenchia o silêncio, misturado ao leve tilintar dos talheres sobre a bancada.

Quando ele percebeu sua presença, virou-se de lado, oferecendo um sorriso discreto, mas cheio de carinho. Com um gesto casual, apontou para o prato ao lado, onde panquecas douradas estavam empilhadas, acompanhadas de um pequeno pote de mel.

— Fiz do jeito que você gosta.

Sofia sorriu, sentiu um calor espalhar-se pelo peito. Foram apenas cinco palavras, mas carregavam tanto significado, que por um segundo, ela se esqueceu de tudo o que havia acontecido entre eles nos últimos meses. Antes das brigas, dos afastamentos e das mágoas, aquilo era parte da rotina deles.

Nos dias difíceis, quando Shannon estava mergulhada no álcool e Sofia foi obrigada a trabalhar para manter a casa, Robby aprendeu a cozinhar. Não queria que ela carregasse tudo sozinha, então todas as manhãs, ele preparava panquecas com mel antes da escola, um pequeno gesto que de alguma forma, tornava tudo mais suportável. Agora, vê-lo ali, repetindo aquele gesto sem hesitação, como se nada tivesse mudado, fez algo apertar dentro dela. Porque apesar de tudo, eles sempre haviam cuidado um do outro.

changes | eli moskowitzOnde histórias criam vida. Descubra agora