As mãos de Pran tremiam um pouco ao terminar de ler e Milk se inclinou para o lado dele, acariciou seus dedos com delicadeza, depois pegou o diário e o colocou na estante.
“Nós nos conhecemos nessa época.” Milk falou enquanto voltava para o sofá e Pran assoava o nariz “Nós dois começamos a fotografar para a mesma agência e o Pawat sempre foi muito cuidadoso e atencioso comigo, até um pouco superprotetor, eu diria.”
Com um certo acanhamento, ela riu e Pran balançou a cabeça em concordância, afinal conhecia esse lado de Pat: paciente, gentil e zeloso.
“Ele era, quero dizer, ele ainda é charmoso e simpático.” Ela sorriu um pouco mais e Pran desviou o olhar e coçou atrás da orelha, envergonhado “Bom, o que estou tentando dizer é que isso atraía as pessoas, mas ele não permitia que ninguém se aproximasse realmente dele, sabe? Ele era arredio. Ele cuidava de mim, mas não me deixava chegar perto, como se houvesse um muro entre nós. Ele brincava com todas as pessoas, mas dava para notar quando ele erguia esta muralha para se proteger."
“Quando seus lábios ficam pálidos e ele se esconde dentro dele para não chorar…” Pran murmurou, falando consigo mesmo, mas Milk estava atenta ao que era dito.
“Sim, exatamente isso.” Ela suspirou “Meu pai não era muito diferente do pai dele e, não sei, eu acho que, quando ele o conheceu e viu como eu era… como meu pai me tratava…” A voz dela titubeou antes de concluir “... nós criamos um certo vínculo naquele momento e foi por causa disto que nos tornamos amigos. Ainda assim, foi preciso um tempo de amizade para ele me convidar para ir para a praia.”
Involuntariamente, Pran franziu a testa e fechou a cara por alguns segundos e Milk o recriminou com o olhar. Sem jeito pela sua atitude irracional, ele disfarçou, focando sua atenção no machucado em seu dedo, que ele insistia em cutucar.
“Nós fomos para lá juntos e somente como amigos!” Ela enfatizou “Em uma noite, debaixo do coqueiro, ele me contou sobre vocês e a gente ficou lá te esperando.” Ela sorriu, mas seus olhos ficaram vermelhos “Ele ensaiava monólogos sobre o que diria assim que você aparecesse caminhando pela praia.”
Pran olhou para porta, como se seu instinto de fuga o impelisse a isso. Ele não queria ouvir esta história porque expunha sua estupidez e fraqueza. Ele esteve lá. O tempo todo ele esteve lá, esperando, no lugar secreto deles.
“Todo ano, nós nos programávamos para ter um final de semana livre na época de férias escolares, igual vocês faziam quando crianças, e viajávamos para lá. Foram muitos dias fazendo planos futuros sobre trazer nossos filhos para brincar ali: eu teria o meu bebê sendo mãe solo e você e ele trariam o filho de vocês.”
Pran se sobressaltou e ela se divertiu com sua reação.
“Sim, ele tinha todo um plano de casamento, filhos, casa, cachorro e piscina, tudo.” A risada dela tomou conta da sala e Pran corou “Nossa rotina nessas viagens era imaginar o nosso futuro feliz no primeiro dia; no segundo, ficávamos em silêncio escutando o mar e...” O sorriso dela foi diminuindo conforme enumerava as etapas “... e no terceiro, ele se trancava atrás dos seus muros. Era tão doloroso estar ao lado dele, que só me restava segurar sua mão e esperar o próximo ano.”
“Me desculpe!”
“Não é para mim que você tem que pedir desculpas.” Milk respirou fundo “Por que você não voltou?”
Havia inconformismo e raiva nessa pergunta e Pran se sentiu acuado pela postura dela.
“Eu não sabia que ele estaria me esperando.” Ele respondeu na defensiva.
“Era o lugar de vocês!” Ela não se intimidou e a mágoa transbordou de seus olhos.
“Eu era uma criança, nunca achei que ele fosse… que tivesse levado isso a sério.”
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Castelo de areia
FanfictionDois garotos se conhecessem numa praia durante as férias de verão. Ano após ano, esse curto período de tempo é o que os une. Essa é uma história sobre o encontro de duas pessoas destinadas a ficarem juntas, mesmo que o caminho não seja fácil.
