Parte 12

60 19 54
                                        

______________ [26 e ...] ______________

A única certeza que Pran tinha ao acordar era de que não haveria ninguém ao seu lado, pois fazia algum tempo que não se interessava por alguém. Somado a isso, havia o fato dele estar em sua própria cama, lugar onde somente ele se deitava.

Sem o frenesi dos shows, era um pouco mais complicado encontrar pessoas para casos eventuais. Antigamente, ao caminhar pelo backstage, não havia necessidade de conversar, bastava escolher e ele tinha quem queria.

Apesar de ainda ser reconhecido, as pessoas não tinham mais toda aquela adoração e admiração no olhar. O personagem que representou no palco por tanto tempo tinha se tornado alguém comum quando entrava nos bares que existiam no caminho do trabalho até sua casa. Nessa nova vida fora dos holofotes, várias vezes, coube a ele fazer o primeiro movimento quando se interessava por alguém e isto não era tão simples quanto poderia se supor.

No começo, pensar nisso o deixava triste, porém, depois de algumas semanas, de certa forma, passou a ser libertador.

Os bares passaram a ser usados somente como um momento de escape para relaxar e tomar uma dose ou duas para esquecer os problemas do dia. Depois de um tempo, até mesmo essas paradas no trajeto perderam o sentido e tornou-se mais conveniente evitá-las. Foi neste momento que as garrafas de destilados e cervejas começaram a se acumular em sua casa.

Nessa noite, assim como em tantas outras antes dela, ele voltou sozinho para casa após o trabalho.

Nessa noite, assim como em tantas outras antes dela, ele bebeu somente meia garrafa de tequila para relaxar um pouco.

Ao acordar, Pran tateou pelos lençóis antes mesmo de abrir os olhos, procurando pelo celular, que puxou para perto de si quando seus dedos o tocaram.

Nesta manhã, assim como em tantas outras antes dela, ele abriu suas redes sociais e conferiu se algo havia mudado.

Seus hábitos se repetiam como um mecanismo bem ajustado que o prendiam em uma rotina viciosa com a qual ele lutava a todo momento tentando parar.

Toda noite ele dizia que não iria mais beber, mas o copo era seu companheiro pela madrugada. Toda manhã ele dizia que seria a última vez, mas a primeira coisa que via ao abrir os olhos era foto de Pat.

De Pawat. Um dia ele aprenderia a chamá-lo assim.

A página da empresa de Milk e Pawat era atualizada com frequência por causa dos eventos que produziam e dos atores que agenciavam, mas suas páginas pessoais eram bem mais reservadas.

Há um ano e meio, Milk colocou duas fotos: do casamento e da lua de mel. Eram fotos bonitas e bem produzidas, quase sem retoques, porque, evidentemente, nenhum deles precisava de correções de imagem.

Há dois meses, Pat compartilhou a foto de uma bebezinha linda.

Sem novidades, Pran soltou o celular no colchão, foi ao banheiro e depois passou pela cozinha somente para colocar uma cápsula na máquina para fazer um café e para pegar a garrafa deixada pela metade no balcão na noite anterior.

O programa Lovely Morning começaria em alguns minutos e Pran se ajeitou no sofá e se recriminou por estar ali. Qual era o sentido disso? Por que ele ainda perdia tempo acompanhando os passos de um cara que provavelmente nem o reconheceria mais?

Ele sempre se perguntava quando iria passar a viver sua própria vida, mas ele estava vivendo, não estava?

Qualquer pessoa que observasse a sua história de vida veria um garoto que estudou, cantou em uma banda, se formou, conseguiu um emprego regular como diretor de cinema, tinha seu próprio apartamento e um salário no final do mês. Ele deveria estar contente, pois conseguiu coisas que muitos nem sonhariam em ter. Nem ele havia sonhado com tudo isso.

Castelo de areiaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora