37. Consolo

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No alto do Empire State, o mundo parecia quieto demais, como se até o vento tivesse medo de tocá-lo. Peter estava lá, agachado na beirada da torre, com o uniforme sujo pelas últimas atividades, e os olhos por trás da máscara fixos na cidade que se estendia abaixo como um cemitério de luzes. Tudo parecia longe, frio e irreal.

O céu estava carregado de nuvens densas, tingidas de um cinza doente, e a luz do fim da tarde filtrava-se entre elas com esforço, manchando o horizonte com tons mortos. A cidade pulsava abaixo, viva, indiferente, e ele, lá em cima, era apenas um vulto estagnado, um fantasma à margem do mundo.

O Homem Aranha, o heroi, o símbolo da esperança... estava em pedaços.

Na mente de Peter, os eventos do dia se repetiam em espasmos. A traição dos amigos, sussurros e decisões tomadas pelas suas costas, como se ele fosse um problema a ser contornado. O assassino de Gwen presente, rindo e agora com o sangue do outro amor de Peter nas mãos.

Peter ainda podia sentir o sangue quente na ponta dos dedos. O cheiro de pólvora preso ao punho. A mira firme, o dedo quase fechando o ciclo de uma tragédia.

Ele se conteve.

Mas Wade não.

A cena era um nó queimando em sua memória: Deadpool, o mesmo homem que havia prometido não matar, que disse que queria ser melhor por ele, quebrando essa promessa no mesmo instante em que Peter precisava que ela fosse real. E o pior... matando Harry. Não um vilão qualquer. Mas Harry, o garoto de risada fácil e olhos tristes. O seu melhor amigo de infância.

Lá embaixo, o mundo seguia em movimento. Mas lá em cima, Peter não se movia.

Ele sentia tudo e nada ao mesmo tempo. Um emaranhado tóxico de raiva, dor, culpa, luto e amor partido. A cidade parecia se desintegrar diante dele, cada sirene, cada farol piscando, cada ruído ecoando como uma acusação.

As mãos tremiam, o peito arfava, mas o ar não entrava direito. Um grito preso se formava em seu peito, grosso e ácido, mas ele não o soltava, porque se gritasse, talvez não parasse mais.

Ali, no ponto mais alto da cidade, cercado apenas por nuvens ameaçadoras e o zumbido da altura, Peter Parker não era mais o Homem Aranha. Era apenas um homem quebrado tentando segurar o próprio mundo desmoronado, com mãos calejadas demais para segurar qualquer coisa.

Cogitou conversar com tia May sobre o ocorrido, ela era uma boa ouvinte, mas ele não se achava pronto para dialogar sobre o que aconteceu, ter que explicar para ela o que Wade fez, e o pior, o que esteve prestes a fazer. Não estava pronto para falar para a tia que esteve a um gatilho de distância de se tornar um assassino. Não estava pronto também para dizer que Wade retrocedeu e voltou a matar alguém.

O que fazer agora? Ele se perguntava em silêncio.

E então o seu celular tocou. Sem muita coragem, olhou o visor, era Matthew. Cogitou desligar, mas Peter se sentia tão sozinho e inconsolável que sentia que precisava daquele apoio. A contragosto aceitou a ligação, colocando o telefone no viva-voz para ouvir o amigo.

Peter, onde você está?

Peter demorou alguns segundos, cogitando se responderia ou não. Suspirou pesado.

— Empire State.

Posso ir até você? — Matthew perguntou com cuidado.

Peter ficou alguns segundos em silêncio.

— Eu vou até você. — respondeu simples.

Matthew pareceu surpreso por trás da ligação, mas informou um endereço, o qual Peter seguiu através do Google Maps. Quando o Aranha chegou, percebeu que aquele apartamento se tratava da casa do amigo. O heroi chegou pela janela, e preso na parede com suas cerdas táteis, aguardou o anfitrião. Sabia que o barulho que fez era o suficiente para que o amigo percebesse a sua presença.

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