45. Visita

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Peter nunca achou que precisaria de terapia. Sempre se considerou forte o bastante para lidar com seus problemas, ou pelo menos, para enterrá-los fundo o suficiente a ponto de funcionar no dia a dia. Mas depois da morte de Lápide... depois de ser o responsável pela morte dele... tudo mudou.

Foram necessárias muitas conversas de Matthew e tia May até que ele aceitasse a oferta de terapia pela Universidade.

No início, Peter mal conseguia falar sobre o que aconteceu. Sentava-se na poltrona da sala da psicóloga com o corpo encolhido, os olhos sempre baixos, como se encarar alguém fosse mais do que conseguia suportar. Quando o assunto se aproximava da morte de Lápide, sua garganta fechava, a respiração se tornava curta e ele apenas balançava a cabeça, como se negasse a própria memória.

A psicóloga Enaile, uma mulher de voz calma, mas firme, o conduzia devagar. As primeiras sessões foram sobre estabelecer confiança: ela fazia perguntas simples, o deixava falar sobre sua rotina, suas perdas, sua infância. Ela era sutil, mas hábil. Sabia que Peter só abriria a porta da culpa quando se sentisse seguro para isso.

Quando finalmente começou a falar sobre aquele dia, o relato saiu entrecortado, com pausas longas e com Peter se agarrando às mangas da blusa como se precisasse de algo físico para não desabar.

— Eu nunca... nunca quis matar ninguém. — ele disse, a voz tremendo, os olhos fixos em um ponto qualquer no chão. — Eu sempre me esforcei pra não cruzar essa linha. Sempre. Por anos. Mesmo quando todos diziam que seria mais fácil... eu... eu me recusei.

Ele passou as mãos no rosto, a respiração pesada, e depois completou com um sussurro:

— Mas eu cruzei.

A psicóloga escutava tudo com atenção. Não o interrompia. Quando ele terminou, ela apenas respirou fundo antes de falar:

— Peter... você entende que o que aconteceu foi uma reação a uma ameaça real? Que foi autodefesa?

— Eu sei. — ele respondeu, quase com raiva. — Todo mundo me diz isso. Mas saber não muda o que eu sinto. Não muda o fato de que... quando eu dei aquele soco... eu não estava pensando. Eu não pensei nas consequências, eu só queria... queria... acabar com ele. Parar tudo. Proteger todo mundo.

As sessões seguintes foram ainda mais dolorosas. Peter falou sobre a sensação de estar "sujo" por dentro, como se tivesse perdido uma parte essencial de quem ele era. Ele contou que tinha pesadelos com o momento do golpe, que acordava sentindo as mãos latejarem como se ainda estivessem quebrando alguém.

Enaile começou a trabalhar com ele a diferença entre intenção e consequência. O conceito de que uma vida de escolhas corretas e éticas não era anulada por um momento de instinto, por mais devastador que fosse. Eles trabalharam também o trauma de ter sua identidade revelada, e começaram a abordar o tema do abandono de Wade.

Ela o incentivava a externalizar, a colocar para fora a culpa crônica que carregava, como se fosse um fardo invisível grudado ao seu peito. E todas as vezes que Peter falava de Lápide, ela o fazia repetir, com a voz que conseguisse reunir:

— O que aconteceu... não me faz uma má pessoa.

No começo, Peter mal conseguia formar as palavras. Mas com o tempo, mesmo entre lágrimas, ele começou a conseguir dizê-las.

A psicóloga também propôs uma atividade que mexeu com ele de forma especial: escrever uma carta para si mesmo. Nela, Peter precisava listar as vidas que havia salvado. Lembrar das vezes em que fez a escolha certa. Relembrar cada criança retirada de um prédio em chamas, cada civil salvo de um assalto, cada amigo protegido.

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