O hábito diurno fez Peter acordar cedo, mesmo que fosse domingo. Passou lentamente as mãos no rosto sonolento e se ajeitou na poltrona, sentindo o corpo dolorido ranger, mas não reclamou. As lembranças da noite anterior invadiram a sua mente, e as memórias de Wade gritando e chorando, caindo de joelhos doeram-lhe o peito. Levantou os olhos, preocupado, a fim de ver o rosto tranquilo do namorado, como uma confirmação de que aquele episódio tinha acabado, e buscou pela imagem dele na cama, a fim de encontrá-lo... mas ele não estava lá. A cama estava vazia. Franziu o cenho, desentendido, e olhou o horário no celular. O visor apontava oito horas em ponto, o horário costumeiro do início dos medicamentos, então certamente era para que Wade estivesse ali. Peter se levantou, ainda meio atordoado do sono, e seus olhos perceberam um pequeno papel rasgado deixado na cômoda ao lado da cama. Se aproximou devagar, uma sensação estranha crescia em seu peito, uma ansiedade inusitada que parecia o alertar da existência de algo errado. Notou, no papel, haver algo escrito, e parecia ser a caligrafia judiada de Wade. Levantou a mão, notando os seus dedos levemente trêmulos, e notou o seu medo de ler aquilo crescer. Apesar disso, pegou o papel em mãos e o leu:
"Não aguento mais ver você morrendo pra me manter vivo.
- W."
O coração de Peter parou por naquele instante.
E então acelerou tanto que pareceu um momento prévio de um infarto.
O peito doeu. Doeu como nunca. Doeu como se tivesse levado um tiro. E Peter sabia muito bem a sensação de levar um tiro.
Peter sentiu todo o ar dos pulmões saírem dos lábios sem controle algum. Sua boca tremia. Suas mãos tremiam. A sua cabeça também, o seu corpo.
Os olhos arregalados liam e reliam as palavras, que agora repetiam em sua mente. "Não aguento mais ver você morrendo pra me manter vivo.", "Não aguento mais ver você morrendo pra me manter vivo.", "Não aguento mais ver você morrendo pra me manter vivo.".
Quem... quem estava morrendo? Quem estava mantendo quem vivo?
Peter continuou relendo, tentando entender aquelas palavras que estavam desconexas de sua mente. Ele lia, lia e lia. Lia mais outra vez, e mais uma. Mas ele não entendia. Estava em grego?
O que... o que aquilo queria dizer?
O que aquilo significava?
O que estava acontecendo?
Onde estava Wade?
A maçaneta do quarto girou e a porta se abriu. Era Dopinder, e ele parecia muito triste.
- Senhor Peter... eu vim para levar o senhor até a sua casa.
Os olhos de Peter umedeceram automaticamente, e o seu corpo inteiro estava sofrendo fortes tremores. O seu peito enchia e esvaziava ferozmente com a hiperventilação.
- Onde... onde ele está, Dopinder...? - a voz de Peter saiu castigada pela angústia.
- Senhor Peter, eu sinto muito...
- Dopinder, pra onde você levou ele?!
- Senhor Peter, me desculpe, ele me pediu pra não te dizer.
A fúria que surgiu em Peter tomou o lugar da ansiedade, e foi como uma tsunami desenfreada que engolia tudo o que via pela frente. A adrenalina que borbulhou em suas veias o fez desejar quebrar o quarto completamente, jogar a cama na parede, socar a porta e então derrubar a cômoda. Mas quando esteve prestes a fazê-lo, se lembrou que era pobre e não tinha dinheiro para pagar nada daquilo.
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Just a Habit - Spideypool
Romance- "Apenas um hábito" - O Espetacular Homem Aranha ganha um novo stalker, extremamente pervertido por sinal, e seus dias "costumeiros" vão por água à baixo. De início a companhia do seu perseguidor mostra-se bastante incomoda, mas, aos poucos, o heró...
