MAHARA HASSAN
Fitava o chão da delegacia. A perna não parava de tremer e meus pensamentos me levavam para longe. As vozes ao meu redor progressivamente se distanciavam, engolidas pelo vazio. Mais minha perna estremecia. Mais eu escutava as batidas do meu coração no meu ouvido. Mais dor de cabeça sentia.
Não tinha noção do tempo, nem controle do meu corpo. Não sabia o que sentir, muito menos como expressá-los.
Lasya realmente queria ir embora com Ayana? Será que ela seria mais feliz com a nossa mãe do que comigo? Onde eu falhei?
Uma mão repousou em cima da minha perna, travando o movimento. Pisquei três vezes saindo do transe e encarei os anéis que Kira possuía em seus dedos. Ela acariciava, enquanto se ocupava em falar com o irmão dela.
Antes de sair de casa, mandei mensagens para as minhas melhores amigas, avisando que a polícia encontrou Lasya. Pelo horário era compreensível que elas não me respondessem. No entanto, com certeza elas viriam assim que acordassem.
Descansei a minha mão sobre a mão dela e abri um sorriso bobo, feliz por ela respeitar o meu silêncio e com um simples gesto demonstrar que estava aqui para mim se eu precisasse.
— Senhorita Mahara Hassan! — A voz autoritária me chamou.
Ergui a cabeça e me levantei rapidamente, me deparando com um policial e a minha advogada, Erika com um semblante neutro.
— Sua irmã Lasya e sua mãe já chegaram. Lasya está na sala de acolhimento e sua mãe na sala de detenção. Deseja falar com a sua irmã?
— Posso? — Indaguei, sentindo o peito arder.
— Claro, me acompanhe.
Girei a cabeça para trás, procurando o conforto dos olhos da Kira. Ela me deu um sorriso com os lábios colados um no outro e piscou o olho. Respirei fundo e retornei a olhar para o homem diante de mim.
— Podemos ir? — Quis saber.
— Sim.
Segui atrás do policial, acompanhando os passos dele. Ultrapassamos um corredor longo e atravessamos uma porta de abertura dupla, passando para outra parte da delegacia. Era um ambiente diferente. Andei mais um pouco e parei assim que avistei uma placa escrito sala de acolhimento.
— Quando quiser pode entrar, sua irmã está lá. Com licença. — Saiu, me deixando sozinha e parada no meio do corredor.
Inalei o ar e em seguida soltei-o.
E se eu não conseguir encará-la?
E se eu não conseguir falar?
E se eu começar a chorar na frente dela?
Engoli em seco e vagarosamente me direcionei para o espaço. Adentrei, e numa cadeira ao pé da porta, estava a assistente social, mexendo no celular. Ela, ao sentir a minha presença, levantou a cabeça e ergueu o tronco. Guardou o aparelho no bolso do casaco, sorriu e falou:
— Vou deixar vocês sozinhas, volto já. — Ela partiu.
Não olhei para trás para confirmar, meu olhar se fixava em outra pessoa. Lá estava ela, agachada, com as costas voltadas para mim, minha irmã brincava animada com alguns brinquedos. Bastante entretida para notar que uma nova pessoa entrou no lugar.
Eu queria recuar e sair por aquela porta. Queria desaparecer por várias horas e voltar quando esta situação estivesse resolvida, porém, era impossível. Eu era a responsável por isso. Eu que não aguentaria imaginar Lasya sofrendo em Santa Mônica. Eu que não deixei ela ir embora.
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Ritmo da Vida
RomanceVocê já viu um pouco delas em "a lua está linda hoje", mas elas cresceram e agora estão de volta com sua própria história pra contar. Melhores amigas na infância, Kira e Mahara, cruzam seus caminhos novamente em uma nova cidade, Lincoln, na fase uni...
