Do Que É Preciso Sentir [3]

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Busco o único batismo que reconheço: o da dor - essa água que não purifica, mas desperta. É nela que a carne aprende sua gramática e o espírito se curva diante de si mesmo.
Não peço redenção, mas presença. Quero o ardor que me prova real, a queimadura que autentica a carne.
Anseio por um ente que me outorgue, através desse crisol lancinante, a marca indelével do amor verdadeiro - não o amor domesticado dos inocentes, mas o amor que fere para provar que existe.
Alguém que me desvele, não pelo reflexo pálido de um espelho, mas pelo toque que inflama e converte meu corpo em linguagem.
Que, ao me tocar, não me possua - mas me traduza.

Procuro aquele que possua a coragem de sustentar o meu desespero sem recuar. Que, ao me ver despida de ilusões, não busque me vestir de conforto.
Anseio pelas mãos que compreendam o peso da ternura, e que saibam que o afago é também lâmina.
Desejo ser lida pelo frio, batizada pelo açoite da chuva que, ao cair sobre a face, não é senão um véu translúcido - máscara inútil diante do pranto que de mim brota.
São lágrimas hialinas, puras como a primeira confissão, mas que sulcam a pele com a precisão do ácido sobre o veludo.
Cada gota é um fragmento de verdade descendo do rosto - um diamante bruto sendo dilacerado para libertar o fogo contido.
Toda dor é uma escavação: abre-se o corpo para que o espírito respire.

Esse mestre retornou - reincidiu em minha órbita como um astro antigo, trazendo de volta o evangelho da insuficiência.
Veio ensinar-me, com ironia divina, que devotá-lo jamais seria o bastante, porque o amor absoluto é uma fome sem corpo.
E eu, sim, estava eivada de peçonha, mas abençoada com uma beleza que não floresce: incendeia.
Não a beleza de um lírio, mas a de uma flor noturna, exalando um perfume que primeiro inebria e, só depois, envenena.
Há em mim um fascínio letal, uma estética que não cativa - subjuga.
Dizem que onde eu passo o perigo se torna ornamento; que o abismo, em mim, aprende a dançar.
E se há ruína, ela se curva diante do espelho e sorri.

E então, a outra mulher - a antítese.
Ela chegou como uma brisa de porcelana, envolta em um silêncio que temia ser desfeito.
O ar ao seu redor parecia polido, como se até o oxigênio se envergonhasse de tocá-la.
Suas mãos, enluvadas em brocado, não se defendiam do frio, mas da realidade.
E seus passos, apressados e leves, denunciavam o medo ancestral de pertencer.
Ela era a ideia tornada carne: um conceito que caminhava.
E ao vê-la, senti uma inveja que me incendiou sem pudor - não pela posse, mas pela ausência de dor em seus gestos.
Como pode alguém existir sem o peso do sentir?
Sua fragilidade me fascinava: era uma febre translúcida, uma ausência que brilhava.
Eu reverenciei, porque ela era o oposto de mim.
E tudo o que é contrário nos atrai, pois o espelho sempre deseja sua sombra.

Ela passou - espectro de perfeição - e ao fazê-lo, desenhou em mim a ferida exata da comparação.
O amor, esse escultor cruel, afinou as lâminas: um dígito frio tocou a sutura do meu crânio como quem abre um relicário.
Não era um gesto; era uma cirurgia da alma.
E sob essa euforia lacerante, compreendi que precisava me reinventar.
Mudei as cores, os matizes e as peles.
Untei as unhas num ônix profundo, um negro que pulsa vermelho sob a luz, como se a noite tivesse aprendido a sangrar.
Afundei os cabelos num castanho úmido - cor de terra arada, de sepultura fértil.
Mas mantive intacto os lábios, na sua rubra pigmentação carnal.
Eles são o selo - o início e o fim - o ponto onde o veneno e o beijo compartilham a mesma origem.
Toda palavra nasce de uma ferida.
E é por isso que eu falo.

Não te é lícito, meu amor, vaguear pela vida como um sonâmbulo, temendo o que fere.
Há beleza naquilo que dilacera, e há sabedoria no colapso.
Ensina-me a tua paz estéril, e eu te ensinarei a glória da agonia.
Pois nada é mais divino do que suportar o próprio limite sem fugir.
A ferida é a assinatura da consciência.
E o que é o sentir senão o milagre de ainda reagir?

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