O dia me flagelou com uma lassidão sagrada, dessas que dobram o espírito antes de vergarem os ossos. O caminho de retorno - ainda que conduzisse a um lar que não era o meu - tornou-se via crucis, onde cada passo silenciava mais uma réstia de vontade. Tudo ao redor se dissolvia em espectros familiares, e sorrir seria, naquele instante, uma heresia contra o próprio cansaço.
Ao longe, vi-o - o rosto oculto por um disfarce tão bem talhado quanto inútil. Desejei, com veemência cerimonial, que o amarrassem num espelho vertical e lhe arrancassem a máscara com a lentidão de uma liturgia, para que enfim pudesse ver-se, não como ruína, mas como vestígio de beleza. No entanto, sei que seria vão: ele enxerga apenas cicatrizes - jamais a carne sobrevivente, tampouco a alma intacta por debaixo da dor.
À noite, como é costumeiro àqueles que padecem em segredo, elevei preces às esferas silenciosas, implorando - não por paz, mas pelo fim da busca. Que cesse, mesmo se a paz jamais vier. Sinto-me compelido a recuar, a sondar os alicerces do tempo e descobrir por que, em dado momento, aprendi a mentir. Qual foi o primeiro gesto que transmutou verdade em disfarce?
Desci do ônibus como se saísse de uma barca funerária. A noite tombava em lentas camadas sobre o mundo, e meus joelhos - abrasados de rubor - entregaram-se ao asfalto como oferendas. Ali mesmo, diante do nada, desatei os nós cármicos que atavam meu peito e, com uma serenidade desesperada, compreendi: não me cabe tudo. Ao menos, não agora.
Devotus fulgori inani, evasi larvam meae lucis... - preciso brilhar mais do que todas as estrelas que ainda ousam cintilar no firmamento esvaziado. E agora sei como. Talvez aprendas, se ainda me lês.
Cobri meu semblante com uma substância espessa, como quem cinzela a própria máscara. Esfreguei com a rudeza de um operário de abismos, pois há uma delicadeza na violência que santifica o suor. Enlacei-me - perfume árabe embebia cada reentrância da minha carne, cada dobra da memória. Recolhi-me. Atrai-me. Ressurgi.
Ele me contou. E sim, eu acredito.
Entre todas as abominações paridas pelo mundo, nenhuma me arrepiou mais que sua intenção de me fazer brilhar - não por amor, mas por espetáculo.
O palco, traidor sutil, fingiu-me revelação, mas ceifou-me em sangue o que havia de veraz. Dali de cima, eu não via nada. Nada além do vazio que retribuía minha luz com uma escuridão ainda mais densa.
Mas por quê?
"De que serve fulgir como constelação trespassada se não há objeto digno de iluminação? Que dor é essa de ser luz sem um propósito, um farol a se consumir no vácuo de uma noite eterna. Se tudo ao redor é vórtice que suga o fulgor sem devolver sequer um eco de brilho, então sou apenas a miragem de um esplendor inútil, condenada a queimar sozinha no altar de uma glória que ninguém vê, ninguém sente, e que apenas me cega para a própria miséria."
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As Vivências
PoesíaUm conjunto de prosas que eu escrevo enquanto enfrento algum problema na vida ou quando pretendo praticar técnicas de escrita (A imagem representa o último texto publicado) Legenda Temática: Drama Existencial [1] Reflexão filosófica [2] Imagética [...
