Victória perdeu tudo.
Mutilada, abandonada e com sua reputação destruída, agora é conhecida como a vilã na história de sua irmã, a brilhante e amável futura rainha.
O Baile que era pra ser o começo do seu final feliz se tornou o ponta pé que empur...
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Há algumas noites, para a minha surpresa, sonhei com o vovô. Ele estava sentado atrás da mesa do escritório do segundo andar, o cômodo tinha o cheiro forte e pesado de ervas — culpa do charuto favorito do vovô. Apesar de ele nunca ter fumado na nossa frente. Papai trabalhava em silêncio em uma mesa adjacente e eu cuidava de alguns documentos mais simples empilhados na mesinha de centro do cômodo. O único som era o da pena deslizando no papel.
A cena era tão comum nas minhas lições para me tornar a próxima chefe da família, que poderia ser uma lembrança que eu estava revivendo. Vovô ergueu seus olhos azuis dos documentos e me olhou com carinho. Sua boca mexia, mas as palavras chegavam abafadas e incompreensíveis, como se estivéssemos muito distantes um do outro para eu conseguir entendê-lo. E, estranhamente, eu também não conseguia sair do lugar e me aproximar dele.
Até que de repente, como se tivesse emergido do fundo da água, sua voz estava clara e audível.
— Victória? — o som firme rompeu o cômodo até mim. Ainda que chamasse minha atenção, também tinha um tom de divertimento.
— Desculpe, vovô. O que disse?
Papai e vovô trocaram um olhar de cumplicidade e caíram na risada. Um riso gostoso e familiar do qual a muito eu havia me esquecido. Aqueles dois pares de olhos me observavam, com carinho, como se eu fosse uma criancinha que acabou de dizer algo adoravelmente tolo.
Sem diminuir o sorriso, vovô deixa a pena de lado e se inclina sobre a mesa, como se para ter certeza que eu escutaria bem cada palavra. Seus olhos esquadrinham meu rosto uma última vez.
— A sorte só vem para aqueles que se preparam...
— E o perigo permeia os desatentos. — completei naturalmente a frase que ele repetiu mais vezes do que posso contar. Ao ouvir a resposta, vovô se recostou na cadeira e me observou com um sorriso satisfeito.
— Fico feliz que não tenha esquecido.
E, naquele momento, me pareceu mais um sonho sem importância. Mas agora não consigo me perguntar se não foi um tipo de aviso. Um sinal. Assim como o sonho com papai, uma forma dessa forte intuição que me permeia — e guia minhas decisões para o caminho certo —, alertar que havia algo de errado. Um aviso de que eu estava sendo descuidada e, como os mais velhos dizem, eu estava vendo demais e por isso não conseguia ver nada.
As obrigações como condessa, o acordo com o rei, as novas terras, as cartas de pete, os assuntos da família Blackwood, o plano para o aniversário de Eleanor e claro, James. E se focar em todos esses problemas me tirou o foco do principal, que é Andrew? Deveríamos esconder sua identidade da rainha e até do próprio James. E se foi esse descuido meu que nos colocou nessa situação?
Passei a noite toda pensando nisso, assim que descobri que não era a letra dele naquele bilhete. Outro erro cometido pela minha falta de atenção.
Se não fosse a conversa com mamãe e a briga com Eleanor, talvez eu estivesse mais atenta e notasse assim que o papel chegou em minhas mãos. Não que isso importe no momento. Lamentar meu descuido dificilmente solucionaria a situação. Mas pensar sobre o assunto até o amanhecer e analisar todas as possibilidades que consegui imaginar, me fez reduzir os possíveis culpados a apenas três pessoas.