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Capítulo 3 - Stephanie

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Dizem que em uma hora de chuva, caem 300 trilhões de gotas em uma cidade grande como Rio de Janeiro. É água suficiente pra uma família viver por dois anos. Duas primaveras inteiras. E tudo isso, escorrendo pelo asfalto, lavando telhados, empurrando folhas pra dentro de bueiros. A chuva podia ser bênção ou maldição. Eu só não sabia o que ela era pra mim.

Naquele momento, parecia confusão líquida. Eu sentia cada gota bater no meu rosto como se estivesse tentando me acordar de um sonho ruim — ou me fazer aceitar um pesadelo real.

A angústia estava crescendo dentro de mim como uma erva daninha, e eu precisava fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Então, vesti meu conjunto de ginástica e saí. Sem rumo, sem plano. Só com a certeza de que, se eu não movesse meu corpo, minha mente explodiria. A chuva era fraca, preguiçosa, e eu desejei ser como ela. Mas não... eu estava em chamas.

Comecei a correr.

Nem pensei em alongar, aquecer, nada. Só fui. Como se minha vida dependesse daquilo. E talvez dependesse mesmo. Desde criança, quando eu me sentia culpada por algo, corria até a exaustão. Era meu jeito torto de punição. Mas naquele dia, mais do que castigo, era tentativa de cura.

O problema? Eu tenho asma. Pequeno detalhe. Mas já fazia anos que não tinha uma crise séria. Às vezes um chiado, um aperto no peito... coisa boba. A bombinha sempre estava por perto, esquecida no fundo da bolsa. Um acessório que carregava mais por hábito do que por necessidade.

Senti meus músculos reclamarem, mas continuei. Queria que doessem. Queria que eles gritassem comigo, porque o que estava preso aqui dentro era pior do que qualquer dor física.

Eu estava com raiva. Raiva do Matheus por me chamar pro casamento como se fôssemos velhos amigos e não... tudo o que fomos. Raiva da noiva, mesmo sem saber o nome dela. Raiva de mim por ainda me importar. Raiva do Tomás por ter dormido com ele. Raiva de mim de novo por ter deixado. E de novo por ter gostado.

E, claro, aquela brilhante ideia de fazer uma aposta. Porque por que não transformar um trauma pessoal em um reality show?

A chuva engrossou. Meus pés pesavam, minha respiração falhava. Quando o ar me faltou de verdade, parei. Dobrei o corpo, mãos nos joelhos, tentando puxar o pouco de oxigênio que ainda me restava. Carros passavam apressados, guarda-chuvas coloridos cruzavam meu campo de visão. E eu ali. Encharcada. Um caco.

Voltei pra casa andando. Cada passo era uma sentença.

Sim, eu estava ferrada. Mas uma coisa eu sabia: não ia voltar atrás. Fiz a aposta, entrei nesse jogo — agora eu ia até o fim.

Passei o resto do dia criando planos na cabeça, como se fosse a vilã de uma comédia romântica. A primeira etapa era sondar. Ver o que o Matheus sentia. Depois, montar a estratégia. E por último... o ataque final. O golpe de misericórdia.

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Chegar até a casa da Clarice foi como atravessar um campo minado emocional. Eu dirigia como se estivesse a caminho de uma reunião da escola em que fui expulsa aos treze anos — sim, aquilo ainda me assombra. E sim, eu mereci. Não me orgulho, mas também não me arrependo. Só reforça que, quando boto uma ideia na cabeça... sai da frente.

Estacionei em frente à casa e respirei fundo. Era isso. Hora de compartilhar meu plano de guerra com minha amiga grávida e minha cunhada. Toquei o interfone.

— Steph? — a voz arrastada da Clarice veio como se ela estivesse me julgando por cada minuto daquele horário. — Já são dez da noite. Tem noção disso?

— Abre, mulher! É sério!

Ouvi o suspiro resignado e o clique do portão abrindo. Subi a rampa como se fosse entregar a cura para todas as dores amorosas do mundo. Ou, no mínimo, causar mais umas poucas.

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